Jornalismo mentiroso

O Diário de Notícias de hoje publica, na primeira página, uma manchete vergonhosa: “Classe média já pede comida por ‘e-mail’ às misericórdias”

E há um subtítulo ainda mais vergonhoso: “crise bate à porta mas não deixam de pagar Net e viajar”.

Na página 13, Rita Carvalho, a autora da notícia mostra-nos como não se deve fazer jornalismo, como é que uma notícia cheia de inexactidões contribui para fazer crescer o mito da crise e como é que alguns jornalistas, por muito que apregoem o contrário, querem tornar-se, eles próprios, os fazedores das notícias, em vez de serem os transmissores (que é a sua missão).

Rita Carvalho começa por escrever:

“Aos emails da União das Misericórdias Portuguesas (UMP) chegam todas as semanas dezenas de pedidos de ajuda alimentar. Pessoas que evitam revelar o menos possível sobre si próprios e pedem ajuda para atravessar o período difícil que se vive e matar a fome.

Quem o diz é Manuel de Lemos, presidente da UMP, que alerta para este novo padrão de pobreza que foge ao típico retrato dos pobres conhecido em Portugal. «São pessoas com um perfil diferente, que não vivem na miséria, mas estão à beira de entrar na pobreza», explicou ao DN, acrescentando que este é um fenómeno que se veio a sentir desde o início do ano, quando se intensificaram os problemas económicos.”

Deixando de lado a má construção das frases (não se deve dizer “um fenómeno que se veio”, mas sim “um fenómeno que se tem vindo a sentir”), a notícia falha quase todos os pontos essenciais de uma notícia (onde, quando, como, etc).

Quantos emails recebe, semanalmente a Misericórdia e quantos desses emails pertencem à classe média? A percentagem é significativa? Era costume receber emails a pedir ajuda alimentar? E esses emails serão de pessoas diferentes? Quantas? Quantas famílias representarão? Não estaremos a falar de meia dúzia de xicos-espertos que se querem aproveitar da “crise” para sacar alimentos à borla? Não será um pouco abusivo intitular “Classe média está a pedir comida por ‘e-mail’ às misericórdias”?

Como é que o presidente da UMP sabe que determinados emails são da classe média se “as pessoas evitam revelar o menos possível sobre si próprios”?

Adiante.

“Não estamos a falar de idosos, dos típicos desempregados, mas de pessoas com menos de 40 ou 45 anos que se calhar não deixam de pagar netcabo nem desmarcam as férias na agência de viagens mas passam fome”, conta Manuel de Lemos, que diz que ao seu próprio email já chegaram dezenas de pedido de ajuda.”

Claro que não é a jornalista a dizer isto, mas é ela que tira a conclusão. O Sr. Lemos – que devia ter mais tento na língua – diz que quem pede comida por email “se calhar não desmarca as férias nas agências de viagens”. Se calhar? Em que é que ficamos: desmarcam ou não desmarcam as férias? E continuam a pagar a netcabo? Como é que ele sabe? E quem lhe disse que essas pessoas têm entre 40 a 45 anos, se, como diz a Rita, as “pessoas evitam revelar o menos possível sobre si próprias”? É que, afinal, já sabemos a que grupo etário pertencem, que são da classe média, que continuam a pagar a Net e as viagens, mas que estão cheias de fome, coitadinhas…

Mais à frente, Manuel de Lemos diz que o número de pessoas que vão comer às Misericórdias também aumentou. Escreve a jornalista (mal, mais uma vez): “Idosos que vinham almoçar uma vez por semana e agora aparecem todos os dias, crianças e jovens”. Diz o Sr. Lemos: “estas pessoas novas quando chegam para comer, põem-se a um canto, comem rápido e vão-se embora, pois sentem alguma vergonha.”

Quem serão estas pessoas novas? Jovens e crianças? Será que vão comer sozinhos? Quantos são?

Se calhar, estou a ser demasiado picuinhas com a notícia, mas é assim que se criam os mitos.

“Sabes que a classe média já está a pedir ajuda à Misericórdia para comer?”

“Não me digas!…”

“É verdade! Li no Diário de Notícias!…”

“É a crise…”

Trabalho há mais de duas décadas junto a quatro bairros sociais. As instituições de solidariedade social quase que se acotovelam para apoiar os moradores desses bairros. Conheço vários casos de idosos que recebem tantos produtos alimentares que os deixam a apodrecer na dispensa, sem nunca os utilizarem. Em alternativa, distribuem as embalagens de farinha e de arroz, as garrafas de azeite e os pacotes de bolachas, pelos vários membros da família, alguns deles pertencentes à perigosa classe média que, assim, estão a utilizar a ajuda das instituições de solidariedade social para enfrentar a crise…

Ainda hoje, ao ver as reportagens dos milhares de pessoas na concentração de motards de Faro, na reunião de adeptos de tuning, no Fundão, nos concertos de Lou Reed, Leonard Cohen e no Festival das Marés, me apeteceu perguntar: quantos desses palermas da classe média terão já enviado um email para a Misericórdia, a pedir um naco de pão?…

3 thoughts on “Jornalismo mentiroso

  1. Talvez o Artur não acredite : eu sinto vergonha com o estado da imprensa em Portugal. ( claro que não é só a imprensa — as TVs e as rádios trabalham taco a taco…). A estupidez e a incompetência ultrapassam os limites.
    No antigamente havia censura — mas conseguiamos com habilidade evitar, nem sempre, mas muitas vezes a sua acção. Mas agora, quer a “escolha científica” das notícias, quer a “invenção de falsas notícias” chega a ser repugnante.
    Não imagino qual a solução para este fenómeno, mas acho que há-que descobri-la. Porque um antepassado destes jornalistas disse : “uma mentira repetida muitas vezes, acaba por se tornar verdade” (Goebells).
    E isto TEM que preocupar TODOS os democratas.

  2. Trabalhei como jornalista de junho 1974 a dezembro de 1977, sobretudo na redacção da RTP, mas também na secção de Lisboa do Jornal de Notícias e na Gazeta da Semana. Com a velocidade própria dos momentos revolucionários, fiz o meu estágio de jornalista em escassos 6 meses, mas os meus tutores chamavam-se Álvaro Guerra e José Manuel Marques. Acho que fui um bom jornalista, embora, depois, tenha preferido a Medicina. Um dos problemas do jornalismo de hoje é a cada vez maior falta de Mestres.

  3. Muito bom “postado”… concordo absolutamente consigo.

    Estamos relamente em crise…? ou são estes jornalistas que não tendo noticias para relatar andam por aí a inventar coisa nenhuma…?

    Continue e divulgue

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