Historinhas

* Era uma vez um homem com mau feitio.
Tinha tão mau feitio que os fatos lhe assentavam bem.
Um dia conheceu um alfaiate compreensivo.
Viveram felizes para sempre.

* Era outra vez um homem perante o qual todos ficavam de boca aberta.
Não que fosse muito belo ou terrivelmente feio.
Não que o seu porte fosse majestoso ou a sua figura ridícula.
Não que usasse roupas estranhas ou óculos na boca.
Simplesmente, perante ele, todos ficavam de boca aberta.
Era dentista.

* Era uma vez dois amigos muito amigos.
Certo dia, encontraram-se e fizeram uma combinação.
No dia seguinte, fizeram um saiote.
Um ano depois tinham uma excelente fábrica de lingerie.
* Estamos aqui para homenagear o nosso colega Rebelo.
Vamos homenageá-lo pela sua brilhante conduta durante todos estes anos ao serviço da nossa empresa.
Ele, que de tudo se privou, que se humilhou, que se deu de alma e coração à tarefa que desempenhava.
Ele, Rebelo, empregado dedicado, merece a nossa homenagem.
Foi ontem, enquanto trabalhava com o frenesim habitual, que um ataque cardíaco levou o nosso colega para uma vida melhor.
Rebelo levantou-se da assistência, comovido e disse, com a voz embargada pela emoção:
– Parece que está equivocado, sr. Administrador… eu estou aqui…vivo…
Incomodado, o administrador deu-lhe um tiro certeiro e a sessão de homenagem prosseguiu, conforme o previsto.

* Era de noite.
No inverno.
Chovia.
O vento uivava de vez em quando.
Enfim, aqueles condimentos do costume, vocês sabem…
O Carlinhos não queria comer a sopa.
Também era habitual.
Nos dias em que o pai ia fazer serão, sentia-se mais livre e dava-se ao luxo de desobedecer à mãe.
A mãe insistia. Ralhava. Prometia. Ameaçava. Que vinha o homem do saco e que o levava! O Carlinhos não acreditava. Que viesse!
E não é que veio mesmo?
Era o sr. João, carteiro da área. Pousou o saco da correspondência no hall de entrada e meteu-se no quarto com a mãe.
Quando o pai voltou mais cedo do serão e descarregou a pistola nos miolos dos adúlteros, o Carlinhos não percebeu.
Pois de foi ele que não quis comer a sopa…

  • in Pão com Manteiga no Contra-Ataque, 17 de abril 1982

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