Crónicas do Solnado – 1

Entre dezembro de 1983 e março de 1985 escrevi mais de 30 crónicas que foram lidas e interpretadas pelo Raul Solnado, primeiro, no programa Fim de Semana, na RTP-1, depois no Programa da Manhã, da Rádio Comercial.

A Adesão de Portugal à CEE (17.12.1983)

Esta semana, as antenas dos nossos políticos estiveram apontadas para Atenas.
Foi nessa cidade que se realizou mais uma Cimeira da CEE.
Foi em Atenas que os chefes de Estado dos dez países membros, se viram gregos para arranjar uma data possível para a adesão de Portugal.
Ora, toda a gente sabe que Portugal quer entrar para a CEE.
O que poucos saberão é por que raio a CEE não nos quer lá.
Há por aí quem diga que a CEE é assim uma espécie de Clube de Amigos do Dr. Mário Soares que, por uma questão de embirração, nunca mais lhe fornece o cartão de sócio.
Mas na minha opinião, a CEE é uma coisa muito mais complicada, até um pouco nebulosa…
Por exemplo: quando alguém nos chateia, costumamos dizer: “É pá, vai dar uma volta ao bilhar grande!”
Ninguém sabe onde fica o bilhar grande, mas todos desejam que seja o mais longe possível. Isso obrigará o nosso amigo chato a dar uma grande volta, deixando-nos em paz durante algum tempo.
A CEE é mais ou menos como o bilhar grande – ninguém sabe onde fica ao certo, mas toda a gente pensa que é longe… Cada vez mais longe…
E, no entanto, os vários governantes portugueses, assim que tomam posse, vão logo dar uma volta ao bilhar grande, que é como quem diz, vão à CEE. Costuma chamar-se a isso o “périplo europeu”.
Vão… mas a única coisa que trazem é a promessa de adesão.
Eu não contabilizei as viagens de Medeiros Ferreira, André Gonçalves Pereira, Freitas do Amaral, Pinto Balsemão e outros. Mas só o dr. Mário Soares já deve ter trazido para Portugal mais de dez promessas de adesão.
E, se no futebol, cinco cantos seguidos deviam valer um golo, no Mercado Comum, dez promessas deveriam valer uma adesão.
Mas pensam que no Mercado só come um? Não! Comem dez! e onze à mesa seria uma multidão!…
Diz-se para aí que o dificulta a entrada de Portugal na CEE é o dossier da Agricultura e Pescas.
É natural…
Os champinhons temem as silarcas e os míscaros.
O bacon teme o presunto de Chaves.
As salsichas de Frankfurt temem a alheira de Mirandela.
O arenque fumado teme a sardinha assada.
Os hords-d’oeuvre temem os tremoços e as pevides.
O Camembert teme o queijo da Serra.
A couve de Bruxelas teme a couve portuguesa.
O alho francês teme o alho porro.
Bom, e no que respeito a vinhos e bebidas, a concorrência ainda é mais desleal.
Compreende-se que o champanhe tema a gasosa e o pirolito.
Que o Beaujolais tema o carrascão.
E que o whisky tenha um receio danado da ginjinha.
Numa palavra: os gajos têm é medo de nós!
E como diria Marx – mais precisamente, um dos irmãos Marx – Portugal não gostaria de fazer parte de uma Comunidade que o aceitasse como membro.
Boa noite e façam o favor de ser felizes.

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