“Contos de Odessa”, de Isaac Babel

Muito oportuna esta edição da Relógio de Água. Numa altura em que a Ucrânia, e nomeadamente Odessa, estão permanentemente nas notícias, pelas piores razões, o lançamento destes Contos de Odessa dão uma ideia de como seria a vida nessa cidade, nos primeiros anos do século 20.

Isaac Babel nasceu em 1894, em Odessa, e terá morrido em 1940, num Gulag, às mãos do KGB – quer isto dizer que foi contemporâneo do domínio russo dos czares e, depois, dos bolcheviques.

A imagem que transparece de Odessa, nestes contos, é de uma cidade violenta, a que chamam a Marselha do Mar Negro, em que digladiam gangues, contrabandistas, malfeitores, ladrões e bêbados, judeus e gentios.

O livro é traduzido do russo por Nailia Baldé e a linguagem de Babel é muito peculiar. Os assaltantes do bairro de Moldavanka têm em Bênia Krik o seu chefe, conhecido como o Rei. Logo no primeiro conto, estamos no casamento do Rei:

“Os convidados sentaram-se à mesa sem respeitarem idades. Uma velhice tola não é menos tolerável do que uma juventude cobarde. Também não respeitaram as fortunas. O forro de uma bolsa bem recheada é feito de lágrimas.”

Ao longo dos oito contos deste pequeno livro, vamos conhecendo muitas figuras deste bairro de Moldavanka, como, por exemplo, Liovka.

“Um dia, Liovka, o mais novo dos Krik, conheceu Tabl, a filha de Liubka. Em russo, Tabl significa pombinha. Ele viu-a e desapareceu de casa por três dias. Ficava deliciado com o pó das calçadas desconhecidas e com os gerânios nas janelas alheias. Passados três dias, Liovka voltou para casa e encontrou o pai no jardim. O velho estava a cear. Madame Gorobtchik estava sentada ao lado do marido e olhava em redor como uma assassina.”

Um livro muito curioso.

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