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Mas estão mesmo todos contra o SNS?

Wednesday, July 3rd, 2019

Parece que sim!

Esta semana, médicos e enfermeiros do SNS estão em greve simultaneamente.

Nunca estive de acordo com greves nos sectores dos serviços. Penso que os únicos prejudicados, são os utentes e o Estado pode bem com estas greves; com efeito, até poupa algum dinheiro…

Se os médicos e os enfermeiros pretendem defender o SNS, devem, por exemplo, organizar debates para propor medidas que melhorem os serviços, em vez de fazerem greves.

E as Ordens devem dar o exemplo.

O Sr. Bastonário da Ordem dos Médicos, em vez de andar a fazer política anti-Ministério da Saúde, devia fazer parte da solução, propondo medidas concretas para melhorar o SNS.

Não me esqueço da entrevista que o Dr. Guimarães deu à televisão, quando surgiu a notícia de que a Galiza queria contratar médicos portugueses, oferecendo-lhes altos salários e outras condições principescas. O Sr. Bastonário veio logo dizer que seria natural que os médicos portugueses se candidatassem a esses lugares na Galiza, não só porque iriam ganhar melhor do que no SNS português, mas porque, também, os médicos, em Espanha, eram mais reconhecidos do que em Portugal, segundo a douta opinião do Dr. Guimarães.

Claro que era tudo uma grande treta. A oferta dos galegos não era bem assim, o ordenado não era tão faustoso como se dizia e os candidatos teriam que andar a saltar de um centro de saúde para outro, fazer várias urgências e, só se trabalhassem aos fins-de-semana, é que talvez ganhassem o ordenado anunciado.

Nenhum candidato português se chegou à frente. O Sr. Bastonário nunca mais falou no assunto.

Desde essa altura – ou melhor, desde que se deixou de falar nos professores – que a comunicação social elegeu o SNS como alvo.

Todos os dias há uma notícia nova sobre a hecatombe do SNS.

Notem que não há duas notícias no mesmo dia – isso seria desperdiçar munições. Ontem foi uma, hoje é outra, amanhã será ainda outra. O que é preciso é não deixar morrer o assunto. Os Hospitais privados agradecem, claro.

Nas televisões, os comentadores tudistas – isto é, os especialistas em tudo – também comentam o “caos” na Saúde.

Ontem, um comentador de apelido Gama, atribuía a falta de médicos à redução do horário de trabalho das 40 paras as 35 horas – o que é mentira, já que os médicos são os únicos no sector da Saúde que continuam com 40 horas.

Mas nem a jornalista que estava a moderar o debate, nem a sua opositora, a socialista Inês de Medeiros, corrigiram o Gama.

Portanto, quando os comentadores não conhecem os assuntos que estão a comentar, está tudo dito quanto à comunicação social.

Há umas duas semanas, ficámos a saber que as maternidades de Lisboa teriam que fazer uma escala de atendimento de urgências porque não havia obstetras suficientes, durante o Verão, para manter todas as urgências abertas.

Foi um escândalo.

Claro que não foi referido que isto já não é novo. Aconteceu, por exemplo, com as urgências pediátricas.

E a culpa foi atribuída ao SNS – não ao sector privado, que saca os médicos, oferecendo-lhes melhores salários.

Entretanto, estamos no dia 3 de Julho, e parece que as maternidades vão continuar a funcionar, embora isso já não seja notícia.

A notícia hoje é, na primeira página do Público, replicada nas televisões, que o número de cirurgias em atraso duplicou nos últimos quatro anos – ou seja, durante o consulado da geringonça.

Se fores ler a notícia – o que eu duvido – perceberás que esse aumento se ficou a dever, sobretudo, ao aumento do tempo máximo de resposta garantida.

Mas o que é isso?

Até 2018, uma cirurgia programada menos grave, teria que ser resolvida em 270 dias – mas a partir do ano passado, essas cirurgias teriam que ser realizadas no tempo máximo de 180 dias. Esse simples facto fez aumentar o número de cirurgias em espera.

Mas isto é um pormenor demasiado técnico, e o que a malta fixa é a parangona do jornal, ou o título debitado pelo jornalista de serviço na televisão.

Enfim, acabem com o SNS e depois não se queixem…

O copo meio vazio do SNS

Saturday, March 30th, 2019

Há meses que o Serviço Nacional de Saúde está sob ataque cerrado.

Quase todos os dias surge uma notícia que põe em causa o SNS, e que se junta ao mau estar provocado pelas greves dos enfermeiros e as reivindicações de todos os sectores, desde os maqueiros aos médicos.

Colaborando nesta campanha, a comunicação social faz eco de informações praticamente diárias, que pretendem mostrar o descalabro a que chegou o SNS.

Fico espantado, por exemplo, com o facto de os enfermeiros terem estado quase calados, durante os anos da troika, terem sido obrigados a emigrar, sobretudo para a Grã-Bretanha, até estimulados pelo então primeiro-ministro Paços Coelho, e só agora virem reivindicar uma carreira profissional, aumentos salariais, reformas antecipadas e tudo e tudo.

Fico espantado, também, com a o bastonário dos médicos (nem falo da senhora bastonária das enfermeiras…) que, em vez de ser parte da solução, é também parte do problema, armando-se em grande defensor do SNS, quando a Ordem a que pertenço desde 1978, sempre se esteve borrifando para o SNS, defendo, em primeiro lugar, a medicina privada.

Agora, de repente, o bastonário Guimarães, aparece a criticar a quebra do SNS, quando, no fundo, deve estar satisfeito porque, quanto mais fraco estiver o SNS, mais utentes têm que recorrer ao privado.

Serve esta introdução para chamar a atenção para mais uma notícia sobre o SNS, que mostra o que é apoiar o copo meio cheio, ou o copo meio vazio…

Os telejornais noticiaram há poucos dias que o número de transplantes, em Portugal, diminuiu em 2018. Enquanto, no ano anterior, foram realizados 859 transplantes, em 2018, foram apenas 757.

Ao ouvir esta notícia, o cidadão médio dirá que é mais uma prova do desinvestimento no SNS. Agora, até os transplantes diminuíram!

Mas, depois, se formos procurar mais informação, ficamos a saber que, no ano passado, o tempo de espera para um doente ser transplantado diminuiu 3% e que o número de óbitos de doentes à espera de transplante diminuiu 2,9%, o que é um dos números mais baixos, a nível internacional.

Quem é que ouviu estas duas informações serem transmitidas nos telejornais?

O copo do SNS continua meio cheio para uns, geralmente os que dele necessitam, e meio vazio para os restantes…

Venezuela, quem tem razão?

Sunday, February 24th, 2019

A pergunta é quase insultuosa.

Ao vermos as notícias das televisões e dos jornais, parece óbvio que Nicolas Maduro é um ditador sádico, que impede a ajuda humanitária entrar num país depauperado, com pessoas a morrer à fome e por falta de medicamentos, enquanto Juan Guaidó é um democrata do caraças que, apesar de se ter autoproclamado Presidente interino, tem toda a legitimidade para dirigir esta República das Bananas.

A RTP tem um enviado especial, Helder Silva, que está há vários dias na Venezuela, fazendo um excelente trabalho jornalístico, todo baseado nas coisas más que Maduro faz à sua população e nas coisas boas que Guaidó quer fazer.

Por mero acaso, vi uma reportagem da BBC, noutro canal, em que o repórter entrevista gente do povo, a viver em bairros miseráveis, com frigoríficos ridiculamente vazios, mas que continua a apoiar Nicolás Maduro e a sua chamada revolução bolivariana, que já vem de Hugo Chávez.

As coisas nunca são pretas ou brancas.

Nem apoiar indefectivelmente Maduro, como faz o PCP, nem apoiar sem reservas Guaidó, como faz a comunicação social em bloco, para além do PSD, por exemplo. O cabeça de lista às eleições europeias pelo PSD, Paulo Rangel, viajou até à fronteira entre a Venezuela e a Colômbia, integrado numa delegação do Partido Popular Europeu, para apoiar a entrada da ajuda humanitária proveniente dos Estados Unidos.

E aqui entra o Trump que, ao mesmo tempo que prende os mexicanos que tentam entrar no território dos EUA e quer construir um muro que os impeça de imigrar, está a enviar camiões cheios de comida e medicamentos para ajudar os venezuelanos, desde que sejam contra o Maduro.

Nada disto é branco, nem preto – há por aí muitos cinzentos que, no entanto, não fazem parte da nossa comunicação social.

Enquanto isto, no Iémen, muitas crianças morrem à fome, vítimas de uma guerra interminável, para a qual contribui a Arábia Saudita que, como sabemos, é alimentada pelo armamento americano.

Enfim, o Iémen parece que é mais longe, são todos muçulmanos e, pelos vistos, têm menos valor que os venezuelanos, segundo a comunicação social…