O muro

Ontem, a RTP e a SIC proporcionaram-nos reportagens formidáveis, directamente da Líbia (se calhar, a TVI também, mas eu não vejo a TVI por uma questão de princípio)

Bem, eu não tenho a certeza se aquilo era mesmo na Líbia, mas parece que sim. Os jornalistas estavam mesmo na Líbia, mais precisamente, em Tripoli.

Mais precisamente, num hotel da capital líbia, cheio de jornalistas.

Mais precisamente, atrás de um muro.

E o muro foi a estrela das reportagens.

Na RTP, Paulo Dentinho, deitado no chão, atrás do tal muro, falava para o microfone e tinha um telemóvel na outra mão. Ao fundo, ouviam-se estampidos.

Na SIC, Cândida Pinto, deitada no chão, atrás do mesmo muro, fazia a mesma figura.

Os tais estampidos eram, supostamente, tiros.

Os repórteres, com ar de quem está com cólicas abdominais, iam descrevendo o óbvio: estamos aqui, o hotel é ali, ouvem-se tiros… tudo afirmações definitivas.

Do lado de cá, um José Rodrigues dos Santos, aos gritos, e um Rodrigo Guedes de Carvalho, aos berros, tentavam sacar mais informações dos seus colegas. Mas eles limitavam-se a debitar vulgaridades.

Os repórteres como sujeitos da notícia.

A notícia deixou de ser a guerra civil líbia e passou a ser o repórter, deitado no chão, atrás de um muro…

No mínimo, ridículo.

Tags: , , ,

7 Responses to “O muro”

  1. Pisca says:

    Desde umas coisas lindas da Candinha, feitas em Luanda no ano de 1992, que a dita cuja me mete vomitos, e sei porque me contou quem com ela lidou directamente
    É muito dada a coisas “feitas” para passar em horário nobre, assim se faz carreira
    Onde andará aquela peça onde dizia para um fulano “dispara agora para filmarmos”, no Hotel Turismo em linha com o Comando da Policia, ali na baixa de Luanda, quem conhece sabe onde é

    • Artur says:

      Acusações graves… a tal Cândida, tem aspecto de ser alba…ou albicans… (piada para entendidos…)

      • Pisca says:

        Se conseguir encontrar um interessante livro de Carlos Albuquerque, correspondente da RTP em Luanda, e que acompanhou o que sucedeu nos anos de 1992, vai ver muito mais, o que se montou e foi feito a pedido de Lisboa
        Parece que o livro anda esgotado/escondido ou algo assim, eu tenho por aí em casa

  2. Fernando Couto e Santos says:

    Tens toda a razão, Artur!

    Tive a mesma reacção que tu perante esta situação tão ridícula.
    Estes fulanos querem, de facto, ser eles próprios a notícia.
    Provavelmente ainda vão ser contemplados com algum prémio pelo risco que correram e reclamar futuramente algum subsídio de risco.

  3. Pedro says:

    Estava exactamente á procura de material sobre este “evento” televisivo. procurava-o porque vi originalmente esta peça jornalística – de qualidade espectacular, diga-se – num noticiario matutino, em que passavam uns pés descontraídos por diante da camera, isto enquanto o Paulo Dentinho se cagava literalmente de medo pelos supostos disparos. Só tive pena de nao ter isso gravado, sería material de primeirissima qualidade.
    É claro que logo após, no jornal da tarde, esse pormenor delicioso foi cortado…

Leave a Reply