Farto de professores

A primeira meia hora de todos os telejornais da hora do almoço, foi dedicada à chamada Marcha da Indignação. Dizem que 70 mil professores vão desfilar, em Lisboa, contra a política da ministra da Educação, nomeadamente, a avaliação.

Esta simples frase faz com que me apeteça fazer as seguintes perguntas:

1ª. Há 70 mil professores em Portugal?

2ª. Todos os professores estão contra a política do ministério?

3ª. Mesmo que estejam contra a política do ministério, os professores não se sentem incomodados pelo facto de estarem a ser manipulados pelo partido do Jerónimo de Sousa?

4ª. Os professores não têm vergonha quando são filmados pelas televisões, dentro dos autocarros, a cantarem quadras populares contra a ministra, como se fossem grupos excursionistas, a caminho de Fátima?

5ª. Os professores – que são os responsáveis pela educação dos futuros dirigentes de Portugal – não têm vergonha de, em vez de apresentarem alternativas à política do Governo, optarem por protestar, nas ruas?

6ª. Os professores não percebem que estão a colaborar no show mediático? Não percebem que esta Marcha da Indignação está a ser coberta, pela comunicação social, como se de um Benfica-Sporting se tratasse?

7ª. Sejamos claros: os professores têm medo de ser avaliados?

8ª. Não vos parece um bocado ridículo ver professoras cinquentonas, gordas, de cabelo oxigenado, a cantar palermices dentro de autocarros e a deixarem-se filmar por repórteres de televisão?

9ª. Repito: há 70 mil professores em Portugal?

Sobre esta questão, várias abordagens são possíveis.

Posso fazer uma abordagem político-partidária e rir-me com o facto de ver os sindicatos dos professores do PSD, a reboque dos professores do PCP.

Mas posso – e devo – fazer uma abordagem de cidadão comum e dizer que, quando fui aluno (durante 19 anos), tive professores bons, muito bons, medíocres e abaixo de cão, tive professores, como o de matemática, do 6º ano, tão confuso e baralhado, que me deu, por engano, um teste já corrigido e eu tive que “errar” duas perguntas para não ter 20 valores! Professores tão loucos, como um de Geografia, que adormecia, à secretária, a contar histórias que ia inventando, à medida que as contava.

Será que todos os professores merecem subir de escalão e de categoria – quer faltem, quer sejam assíduos, quer cumpram, quer não cumpram?

Não vos parece lógico que a inexistência de uma avaliação (pode não ser esta) favorece os medíocres?

Não vos parece razoável que os professores sejam adeptos de uma avaliação rigorosa e proponham alternativas ao sistema da ministra que, pelos vistos, é muito mau?

Como cidadão comum, também posso falar como encarregado de educação. Tive dois filhos no sistema de ensino. Ambos fizeram um curso superior. De um e de outro dos meus filhos, me recordo de dois ou três professores. Professores que influenciaram, pela positiva, o desenvolvimento dos meus filhos.

Ainda hoje, tantos anos depois, me lembro dos meus professores bons e dos professores bons dos meus filhos – mas tenho a certeza que todos eles, os bons, os maus e os vilões, estão, agora, reformados por igual.

Discutam o método – mas não discutam o princípio.

Por muito que vos custe, não somos todos iguais…

27 thoughts on “Farto de professores

  1. Toda agente tem direito à sua opinião mas, para a expor a em público, seria bom informar-se minimamente acerca do assunto em causa. Vou responder a algumas das questões.
    – Há em Portugal cerca de 150 mil professores e se metade deles entraram nesta marcha da indignação temos aqui um problema grave de saúde mental ou então, a hipótese que não coloca de haver algo profundamente errado com a política educativa ganha alguma consistência.
    – A quase totalidade dos professores quer a avaliação. Não quer é a forma burocrática, injusta e desrespeitadora, contrária aos interesses de todos, principalmente dos alunos.
    – Os professores não têm culpa nem são responsáveis pelos oportunistas que se colam e pretendem ganhar visibilidade com esta situação.
    – Plenamente de acordo que há, sempre houve e certamente que continuará a haver bons e maus em qualquer profissão. Não coloca a hipótese de o mesmo ser passível de ser aplicado aos políticos e respectivas políticas, educativas, neste caso?
    – Não há sindicatos do PSD, do PC nem de qq outro partido.
    – Aos professores não foi dada, até hoje, oportunidade de apresentar alternativa, o ME tem agido de forma autista e hipócrita e essa é uma das principais razões deste protesto.
    – Os professores sabem que não somos todos iguais mas o ME parece não saber. Neste caso está a castigar e desrespeitar uma classe inteira

  2. Como me disse há pouco tempo um ex-professor meu:

    “Estou a precisar de sair daqui outra vez. Está a fazer-me falta ir para um sítio normal.
    Lá fora os alunos não são nem mais, nem menos inteligentes que os daqui… a grande diferença é que lá eles são respeitados.”

    Note-se que este senhor tinha as aulas sempre cheias e nos dias de greve, quem fazia greve era o livro de ponto pois, e passo a citar:
    “eu estou de greve mas, tenho um compromisso convosco que assumi antes de ter sido agendada esta greve.”

    Dos perto de 100 mil anunciados nos jornais, quantos serão desta “casta”?

  3. Eu gostava era de ver esses gajos todos a trabalhar no sector privado onde essa merda dos escalões nem existe e um gajo trabalha 30 ou 40 anos sem sair da mesma secretária nem receber um aumento.

    Bando de sevandijas!

  4. Caro Xeringador: toda a sua argumentação deixa de fazer sentido, a partir do momento que diz que “não há sindicatos do PSD, do PC ou de qq outro partido”. Em que país é que você vive, afinal? Em Portugal, desde sempre que os sindicatos foram manipulados pelos partidos políticos e vai demorar várias gerações até que isso deixe de ser assim – a menos que os sindicatos, tal como os conhecemos, acabem por desaparecer.

  5. Nessa perspectiva enfio a carapuça e concordo com o comentário supra, do Artur, que subscrevo na sua quase totalidade. Aceito a crítica de conotar alguns sindicatos com ideologias e partidos políticos. Não quer dizer que deva ser assim mas, infelizmente, tem sido. Há partidos que, em nome da defesa dos trabalhadores, dizem apoiar os sindicatos. Na prática pretendem apenas fazer oposição ou, se possível, destruir o que de bom esteja a ser feito. Se daí resultarem benefícios para os trabalhadores, tudo bem, mas o seu objectivo foi sempre partidário, na procura de visibilidade, protagonismo ou, se possível, minar a parte contrária. Infelizmente, tenho constatado que há muitos sindicalistas que ainda não perceberam isso, outros vão percebendo, demasiado tarde e alguns não querem perceber e assim sendo nunca chegarão a perceber.
    Agora o que não se pode concluir porque é falso e injusto é, como fez o Sr Rangel n’O Público (http://img136.imageshack.us/my.php?image=anormaloidejpgct9.jpg) dizer que esta onda de contestação é apenas resultado de uma orquestração do partido comunista.
    Tenho pena que a comunicação social que tem o dever de informar não o tenha feito e, em vez disso, apenas nos tenha chateado a todos com o excesso de cobertura dado ao assunto. E, além disso, a parte de informar não os seduziu como se vê pela forma como as pessoas, em geral, vêem esta contestação. O Pedro que disse o que disse e certamente que o fez de boa fé, de acordo com a sua visão das coisas. Mas se lesse o actual estatuto dos professores que é bem pior que o seu, seja qual for a sua profissão, não teria feito aquele comentário.
    Ana Avoila, uma estudiosa das questões laborais, que nada tem a ver com os professores, concluiu, horrorizada, que o estatuto dos professores é do pior que tinha visto, mesmo demasiado mau para ser verdade. Tanto assim é que, já se perspectivam no horizonte, algumas tentativas para que seja extensivo a outras profissões e por parte dos empresários, que alguns aspectos se apliquem também ao sector privado. Portanto, caro Pedro, tenha cuidado com o que pede, porque lhe pode ser concedido.

  6. Começo por afirmar que o tenho como um homem inteligente. Apesar disso e se perante os argumentos expostos pelo Xeringador apenas consegue opor a questão da proximidade dos sindicatos a esta ou aquela força politica, então parece-me estar a fazer uma reflexão muito ligeira e superficial sobre esta matéria. Há muito mais para além desse mísero aspecto.

  7. Então, Pedro, para si, o que é aceitável é trabalhar 30 ou 40 anos sem sair da mesma secretária, nem receber aumentos.
    E quem não considerar isso acitável, faz parte dos bandos de sevandijas…
    ok…
    de facto, com mentalidades destas, este governo vai continuar por largos e “bons” anos!!!

  8. MBento: pode dizer o que quiser, mas o que passa para a opinião pública é a imagem do Mário Nogueira, à frente da manif, segurando um grande cartaz dizendo “Marcha da Indignação”; atrás, ordeiramente, 100 mil carneirinhos. Depois, a reportagem cola com outra do Jerónimo de Sousa, arengando às massas sobre o Código do Trabalho: ou o Sócrates muda não-sei-o-quê ou vai levar com uma manif ainda maior. No meio de tudo isto, quem quer saber das queixas dos prof?…

  9. Por hábito, só discuto com pessoas que sabem fundamentar as suas posições e, por isso, procuro transmitir aos meus alunos os grandes princípios da argumentação e os diversos tipos de argumentos que podem, de um modo ético, sustentar as suas teses ou posições.
    Não admito, pois, que o meu caríssimo Artur, que é médico por culpa dos seus professores, cujos fihos são licenciados também por culpa dos professores, chame «carneirinhos» a um grupo profissional que tudo tem feito para que as escolas funcionem em Portugal e para que, apesar da incompetência dos sucessivos governos de todas as cores e das políticas educativas anacrónicas que pretenderam instaurar, têm contribuído para
    que os alunos tenham um relativo sucesso. Convido-o a visitar uma escola, a ver o que nela se faz, o que fazem os professores, como leccionam as suas aulas, como conseguem trabalhar com 28-30 alunos em cada turma, como contribuem para a inclusão dos mais excluídos e como dão atenção, também, aos melhores alunos. Acredite que não é fácil trabalhar nas condições em que os professores trabalham! Sugiro, também, que leia o estatuto da carreira docente, o estatuto do aluno, o Decreto-Lei sobre a avaliação de desempenho e, já agora, e se tiver tempo e paciência, leia o projecto de Decreto-Lei da gestão dos estabelecimentos de ensino. Se ainda tempo lhe sobrar, compare o sistema educativo português com o francês, Suíço, britânico, alemão e australiano. Veja, então, as «mordomias» dos professores em Portugal, comparativamente com os direitos dos professores de outros países.
    Para o Senhor Pedro… pergunto: o que andou a fazer na escola para agora, que está empregado, passar o tempo sentado a uma secretária?

  10. Sr. Prof: a emoção turva-lhe a razão. Eu escrevi: “a imagem que passa…” Porque é isso que passa para a opinião pública. Para a comunicação social, uma manif de 100 mil é um óptimo espectáculo. Claro que há profs. esforçados, excelentes profissionais e que mereciam medalhas por educar os filhos dos outros. Mas esses não deveriam ser os primeiros a exigir uma avaliação? Não se importam esses bons profissionais de serem confundidos com os profs que estão sempre de atestado? É que, “o que passa” para a opinião pública é que os profs não querem a avaliação. E se não querem esta, por que não propõem outra? É que “o que passa” para a comunicação social é o Sr. Nogueira e milhares de carneirinhos atrás…
    Aliás, o seu post dava pano para mangas, mas acrescento só mais estas 3 questões:
    – quanto ao facto de “não admitir que…”, não tem outro remédio…
    – não sou médico por causa dos prof que tive; sou médico por inúmeras razões; os prof são apenas uma delas
    – o ministro da saúde foi para a rua após manif de utentes, não de médicos; não acha estranho os alunos e os pais não se manifestarem contra esta reforma do ensino – ao fim e ao cabo, eles deviam ser o objecto dessa reforma

  11. Gabriela: aceitável? Eu disse que era aceitável? O que me parece inaceitável é a gigantesca massa de incompetentes que navega nesse mar de promoções automáticas que é o serviço público.

    Não são todos? Pois não, mas são muitos. Pagam os bons pelos maus, coitadinhos.

  12. Caro Manuel Tavares, eu faço o meu trabalho todos os dias da melhor maneira que posso e sei. Muito pouco do que sei fazer hoje em dia tem a ver com a escola – não sejamos hipócritas: a escola teve evidente impacto na minha vida, mas relativamente pouco nos skills que uso no dia a dia para a ganhar.

    Mas o que eu não espero é progressão automática de carreira. Aliás, honestamente, não espero qualquer progressão de carreira, porque no sector privado tenho que ser avaliado anualmente para merecer uma palmadinha nas costas e é tudo.

    Deve ser bom saber que faça bem ou faça mal, seja muito bom, responsável e dedicado ou passe os dias em casa de baixa, a minha carreira vai sempre subindo degrau a degrau.

  13. Meus caros: os professores querem avaliação! Não querem esta e, sobretudo, o modo como a pretendem operacionalizar. Estou habituado a avaliações … e externas! o que se torna, naturalmente, mais independente. Haja critérios claros, rigorosos e elimine-se, tanto quanto possível, o grau de subjectividade e, sobretudo, não se abra a porta para processos sumários subtilmente encapotados de «avaliação de desempenho». Nos argumentos que apresentam um grau enorme de desconhecimento da realidade. O meu convite mantém-se de pé. Ao Artur, um repto: faça como alguns dos seus colegas, alguns deles bem conhecidos e «ilustres» e colabore com as escolas nos projectos de promoção e educação para a saúde. Verá que, para além da experiência enriquecedora, ficará com uma outra perspectiva da escola e do pessoal docente. Meu caro Pedro, hoje já não há professores que permanecem meses a fio de «baixa», felizmente. Por outro lado, a progressão na carreira não era assim tão automática como pensa. Havia uma avaliação! Basta que consulte o antigo estatuto da carreira docente e tomará conhecimento do tipo de avaliação que existia. Não era a melhor, por certo, mas existia. Quanto aos «incompetentes» do serviço público… bom, meu caro, poderei dar-lhe muitas provas dos incompetentes do sector privado que assaltaram os sectores públicos. Apenas com uma diferença: enquanto que os «incompetentes» do sector público ganhavam 1000 €, os incompetentes do sector privado que assaltaram ou, por compadrios e outros parentescos, se instalaram no sector público, passaram a ganhar 4 e 5 mil Euros. E nós, povo estúpido, incompetente e «carneirinhos» a pagar cada vez mais impostos.

  14. Coloquei este último comentário do Prof Tavares porque sou um democrata do caraças. Mas foi o último. Ele que encha o seu próprio espaço e deixe o meu respirar (não há professores de baixa prolongada?… Ó Tavares, deixa-me rir, pá!)

  15. *risos*
    engraçado… é que as baixas médicas aqui “faladas” são passadas por médicos que atestam a sua honra.
    Como o Artur é um democrata do caraças, o melhor é eu não tentar comentar mais…se não, não o vejo publicado.
    O seu ao seu dono!

  16. O Artur chamou a atenção para o silencio dos encarregados de educação. Pois bem, eu tenho dois filhos, a minha filha mais velha entrou para a escola pública em 1985, o meu filho saiu o ano passado, em 2007. Passaram 22 anos. Ao fim de tanto tempo direi que estou, necessáriamente, dentro do assunto.
    Os meus filhos tiveram bons professores, digamos que aí um terço.
    Eram interessados e faziam o que estava ao seu alcance, por vezes com muitas dificuldades, em situações dificeis.
    A esses professores, normalmente eram os directores de turma, queixávamo-nos dos colegas, que faltavam sucessivamente (era normal no fim do ano uma disciplina ter tido menos 20 aulas que as previstas), da falta de interesse que alguns manifestavam face ás disciplinas que ministravam, e os directores de turma respondiam-nos: “tem razão mas eu não posso fazer nada”, e a negligência continuava.
    Se a qualidade do ensino chegou onde chegou, as culpas têm que ser apontadas a muitos professores.
    Os sindicatos defendem-nos como se todos fossem iguais.
    Públicamente têm que o fazer, mas fazem mal, deviam proteger os competentes, aqueles que são dedicados ao ensino, e essa é que seria uma posição pedagógica.

  17. Oh Artur !!! Sou professora há 22 anos. Participei com muito orgulho na manifestação de 8 de Março e é com o mesmo sentimento que resolvi participar neste debate por si encetado. Saiba que as suas primeiras afirmações me deixaram indisposta de imediato. E essa indisposição foi aumentando à medida que ia continuando a ler… Mas… este seu comentário final ao prof Tavares, deixou-me com as entranhas perfeitamente revolvidas !!! E intitula-se o senhor de democrata !!!
    Poi é… quando os nossos argumentos se esgotam e já não temos armas para combater, a única saída é abandonar o combate, cortando a palavra ao adversário…
    (Ó Artur, essa é que dá mesmo vontade de rir, pá!)

  18. Para as senhoras professoras Gabriela e Clara, chamo a atenção para o comentário de António Dias que, como se costuma dizer, me tirou algumas palavras da boca. É mesmo isso que eu quero dizer. Acrescento que não tenho posição corporativa – foi contra as corporações que (também) se fez o 25 de Abril. Claro que há médicos que passam atestados a professores e, assim, colaboram na fanchonice. Lá por eu ser médico, não me sinto obrigado a defender toda a minha classe. Há médicos bons, maus, aldrabões, honestos, altos, brancos, pretos, competentes, incompetentes, burlões, abnegados – tudo o que vocês quiserem. Mas, quando aos professores, coitados, são todos tão bons e tão vilipendiados pelo ministério!
    Quanto à Professora Clara, publico o seu comentário, apesar de me tratar por pá, sem eu lhe ter dado autorização para isso.
    No que respeita ao entendimento que cada um tem de democracia, estamos conversados: a maioria dos eleitores escolheu o Sócrates. Vamos a ver se os professores têm coragem de, nas próximas eleições, ajudarem a eleger o Portas, o Jerónimo, o Louçã ou o Menezes.

  19. Caro Artur,
    Perdoe este tratamento a quem frequentou regularmente o seu bogue durante tanto tempo.
    Depois de ver a resposta que deu ao Manuel Tavares tirei “O Coiso” dos favoritos e decidi não comentar mais, nem sequer para dizer o que agora estou a dizer.
    Mudei de ideias e vim aqui, apenas para lhe dizer claramente o motivo do meu afastamento.
    Não tenho grande esperança que publique este comentário mas, se o não publicar, não me restará qualquer dúvida de que tomei a decisão acertada.
    Parabéns pela sua inteligência, perspicácia e humor e obrigado pelos momentos que por cá fui passando.
    Felicidades para si e para o seu blogue.

  20. Parece-me que se está a politizar muito uma questão que não é (ou não devia ser) política. A educação é um dos pilares da sociedade, mas a verdade é que o estado da educação em Portugal é miserável. E porquê? Será por causa do modelo de avaliação proposto pela ministra? Parece-me que não. Ainda há poucos anos eu andava na escola pública, e aquilo que eu via era o seguinte: professores pouco interessados, que “despejavam” a matéria perante alunos que ao fim de 15 minutos já estavam ou a dormir, ou a conversar com o vizinho do lado. É claro que há problemas relativamente ao tamanho das turmas, ao respeito que os alunos têm pelo professor, todos sabemos que as condições nas escolas não são as melhores. O que eu não concordo é com o facto dos professores colocarem sempre a culpa do estado da educação nos outros: no governo, nos alunos, nas condições, até nos encarregados de educação. A culpa nunca é dos professores. Mas a verdade é que até é, em parte. Tive professores bons, mas tive muitos mais que eram péssimos. Tive muitos que faltavam muito, que não conseguiam explicar a matéria… tive professores que mandavam toneladas de tpc, sem terem em conta o bem estar do aluno, professores cujo único interesse era que os alunos passassem de ano, e não que aprendessem… tive uma professora que usava a aula para desabafar sobre a relação amorosa que mantinha com um homem casado… Para concluir, gostava apenas de deixar uma ideia que li algures: os professores manifestaram-se por causa da avaliação, queixam-se do ataque do governo à sua classe, e que assim a educação não vai a lado nenhum, só piora. Mas nunca vi uma manifestação deste tamanho a exigir melhores condições nas escolas para os alunos de forma a, aí sim, melhorar a educação.

  21. Mas afinal, porque é que os professores protestam tanto?

    Não existe uma causa única.
    Podemos dizer que é mais um conjunto de gotas que conseguiram saturar toda uma classe que está disposta a fazer-se respeitar.
    Só !

    F.A.Q.

    • É verdade que agora que os quadros das escolas estão mais estáveis, os professores já trabalham mais perto de casa?
    • – Não, muitos professores trabalham a mais de trezentos km das suas famílias, sem terem acesso a qualquer ajuda, e isto durante três anos. A partir do ano que vem, serão quatro anos longe da família.

    • É verdade que ao fim de três anos de ensino, os professores efectivam na escola onde estão colocados?
    • – Não, muitos professores trabalham durante 15 ou mais anos a ensinar, sem chegarem a lugar de quadro, mantendo assim um ordenado muito baixo.

    • É verdade que os professores não querem ser avaliados?
    • – Não, os professores sempre aceitaram ser avaliados, até porque a avaliação de professores é uma prática corrente e já antiga, no nosso sistema de ensino.

    • É verdade que um professor licenciado pode avaliar um professor com mestrado ou mesmo com doutoramento?
    • Sim, esta situação poderá ser muito frequente, nos próximos tempos, em Portugal.
    • Só para ter uma ideia, qual é o tempo médio de estudo numa instituição superior de uma licenciatura?
    • – Quatro anos.
    • E de uma licenciatura + mestrado?
    • – Antes de Bolonha (casos mais frequentes actualmente) quatro + três anos.
    • E de uma licenciatura + mestrado + doutoramento?
    • – Antes de Bolonha (casos mais frequentes) quatro + três + quatro ou mais anos na Universidade.
    • Quem estudou quatro anos na universidade vai avaliar quem estudou durante doze anos, na universidade?
    • – Sim.

    • É verdade que um professor de Educação Visual e Tecnológica poderá vir a avaliar um professor de Matemática ou de Língua Portuguesa?
    • – Segundo as regras agora instituídas, sim. Até poderá ser uma prática muito frequente.

    • É verdade que do sucesso dos alunos poderá depender o sucesso do professor?
    • – Sim, qualquer baixa nas notas dos alunos poderá ser fatal na progressão na carreira do professor. Com efeito, por um se perde e por um se ganha, esta situação verificou-se com uma extraordinária frequência nos concursos para professores titulares…

    • É verdade que os sindicatos querem que todos cheguem ao topo da carreira?
    • – Não, os sindicatos pensam que todos os professores que se esforçam realmente deveriam ter reais perspectivas de progressão na carreira, é justo que assim seja.
    .
    • É verdade que o mestrado e o doutoramento catapultam automaticamente o professor/estudante para o topo da carreira, ganhando até seis anos de tempo de serviço?
    • – Não, na quase totalidade dos casos, fazer mestrado ou doutoramento não serve rigorosamente para nada, principalmente no caso de professores com mais tempo de serviço, pois conta meramente como simples formação e não permite qualquer avanço na carreira.

    • É verdade que uma tese de mestrado ou de doutoramento não é considerada como sendo formação, obrigando assim o professor a fazer mais cinquenta horas de formação anual durante os seus fins-de-semana ou interrupções lectivas?
    • – É verdade, sim, a tese não tem qualquer valor formativo actualmente.

    • É verdade que os professore trabalham 35 horas por semana?
    • – Não, a maioria dos professores portugueses trabalham, neste momento, cerca de 50 a 55 horas por semana. Alguns professores trabalham cerca de 60 horas semanais.

    • É verdade que os direitos dos professores que se inscreveram em mestrados e doutoramentos, antes da aplicação do novo Estatuto da Carreira Docente foram acautelados?
    • Não, os professores mestrandos e doutorandos perderam todo esse trabalho bem como todo os investimentos pessoal, financeiro e familiar feitos até aí e daí em diante. Os professores perderam o direito à progressão pela formação.
    • Assim sendo, vale a pena fazer mestrados e doutoramentos?
    • Não, todo esse investimento está comprometido à partida, a não ser que se esteja mesmo no início da carreira.

    • A formação acumulada (50 horas obrigatórias por ano multiplicados por quarenta anos previsíveis de carreira = pelo menos duas mil horas de formação altamente especializada) dá direito a algum título académico e respectivo reconhecimento remuneratório?
    • – Não, é só mais um item de avaliação bianual e não tem qualquer outra função.

    • É verdade que as aulas de substituição acrescentam algo à formação dos nossos alunos?
    • – Não, os alunos não recebem qualquer benefício ou formação extra por estarem a ser monitorizados por professores que não conhecem, que não são da disciplina que deveriam frequentar no momento ou do nível que frequentam.

    • As aulas de substituição acarretam alguma vantagem para alguém?
    • – Sim, os alunos estão fechados numa sala, não perturbam os colegas das outras aulas e permitem também mais tempo livre para a população activa.

    • Qualquer adulto poderia responsabilizar-se por essas aulas?
    • Sim, os professores consideram que os Encarregados de Educação têm aqui um papel privilegiado a desempenhar, com a sua experiência de Pais e com as suas vivências muito diversificadas: viriam enriquecer sobejamente estas aulas algo estéreis, no presente. Acreditamos que este modelo, importado dos Estados-Unidos irá dar grandes frutos, no futuro.

    • Os professores ainda têm de permanecer no seu posto de trabalho até que a morte por cancro ou por outra causa os leve?
    • – Sim, existem ainda vários casos identificados de professores que apesar de portadores de cancro e outras doenças terminais, se viram obrigados a permanecer no seu posto de trabalho até à morte, apesar de toda a pena e compaixão demonstradas pela nosso Primeiro Ministro, em Agosto último. Notícias vindas a lume vêm confirmar a continuação desta prática por parte de quem avalia as doenças dos professores. A Lei não está a ser cumprida e isto parece não incomodar ninguém. (vide Jornal de Notícias de 11/03/2008.)

    • Qualquer pessoa que tire um curso pode “dar aulas”?
    • – Sim, qualquer licenciado ou bacharel pode “dar aulas” nos centros de formação profissional e estabelecimentos similares, bastando para tal assistir a um curso de ciclo curto (alguns poucos meses). Para ser professor, a formação é muito mais exigente, pois implica uma longa preparação científica bem como uma exigente preparação pedagógica. Já vai longe o tempo em que “dar umas aulas” era o recurso de qualquer licenciado de qualquer área. O tempo dos “paraquedistas do ensino” já passou. Estes já foram destronados pelos detentores de habilitação profissional altamente especializados.

    • Os professores progridem automaticamente na carreira, bastando permanecerem no sistema?
    • – Não, muitos professores poderão nunca mais progredir na carreira, apesar de serem excelentes profissionais. O sistema de cotas de cinco por cento é tão drástico que transforma a progressão na carreira num valor que poderá facilmente aguçar cobiças e engendrar engenhosas arquitecturas, nem sempre favoráveis aos mais capazes.

  22. Este último comentário merece alguma atenção: não se fala, uma única vez, nos alunos! Notem bem! Que bom seria o sistema de ensino, em Portugal, se não existissem os sacanas dos alunos…

  23. Pois era! E eu que trabalho numa escola e, note-se não sou professora, sou psicóloga, reparo todos os dias que, realmente, era melhor não haver alunos, era tudo mais fácil! Que chatos estes miúdos, pá! Já agora, senhores professores, não existem crianças nem adolescentes MIMADOS, o mimo nunca é demais. O que existe são meninos sem limites, muitas vezes porque estão abandono. E também não existem meninos PREGUIÇOSOS. Existem meninos deprimidos, desmotivados e sem projectos de vida.

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