“Cultura – tudo o que é preciso saber” – de Dietrich Schwanitz

cultura.jpgGraças a um poder de síntese formidável, Schwanitz consegue, em cerca de 500 páginas, ensinar-nos tudo o que convém saber, para se ter uma Cultura, digamos, razoável.

O livro começa com a História europeia, continua com a Literatura, fazendo-nos um resumo de uma dúzia de obras fundamentais, passa pela História da Arte, pela História da Música, fala, depois, dos grandes filósofos, terminando com algumas considerações finais, as quais incluem o “que convém não saber”, porque ser culto também implica saber o que não se deve saber…

O tom do livro alterna entre o humor fino e frases inextricáveis, de difícil compreensão. É, portanto, impossível dizer qual é o tom geral desta obra, que seria muito mais fácil de ler se o autor estivesse sempre bem disposto. Segundo parece, Schwanitz morreu o ano passado, vítima de ataque cardíaco e não me custa pensar que, enquanto estava a escrever este livro, deve ter tido alguns maus momentos.

Mas quando estava bem disposto, a sua produção é um fartar de rir.

Para começar, o autor fala-nos nas obras fundamentais da cultura ocidental, como a Ilíada, a Odisseia e, claro, a Bíblia. No que respeita a esta última, depois de nos contar, muito resumidamente como Deus criou Adão e Eva e o Paraíso, comenta:

«foi assim que se deu o acontecimento que viria a ser conhecido como pecado original, com todas as suas consequências: a descoberta do sexo e da vergonha, a invenção da parra e da moral, a expulsão do jardim, a condenação a um trabalho remunerado regular e o estreitamento da bacia devido à postura vertical com o acréscimo de um nascimento correspondentemente prematuro e, já agora, doloroso, um prolongado período de dependência total da criança, prazos educacionais prolongados e uma sobrecarga generalizada para a mulher, devido ao seu papel de liderança por ocasião do pecado original».

Para além de alguns momentos de humor, como este, o livro está cheio de aforismos muito acertados. Como este, a propósito da revolução americana: «as revoluções não eclodem quando as pessoas passam pior mas sim na altura em que pensam que pouco as separa de estarem melhor».

Schwanitz parece não nutrir grande simpatia pela psicanálise. A propósito dos psicanalistas, diz: «a psicanálise (…) criava os problemas cuja solução apregoava. Isso tornava o mercado insaciável. Quanto mais a psicanálise se divulgava, maior era a necessidade de reforços. Era como uma bebida que faz sede: uma espécie de necessidade que se reproduz a si própria, breve, uma droga».

Esta citação mostra que o autor não é imparcial. De facto, ao explicar-nos o que é importante para a nossa cultura, Schwanitz toma partido e dá-nos a sua opinião.

É também o caso desta citação, a propósito da Universidade e das novas “ciências”: «cada vez mais especialidades envergaram o traje da ciência e estabeleceram-se nas universidades apesar de, na realidade, não passarem de práticas academicamente nobilitadas: é o caso do jornalismo, das artes teatrais, da investigação sobre o ensino das línguas, da direcção artística, da politologia e de diversas disciplinas psicológicas situadas algures entre o xamanismo e a banha da cobra».

O livro poderia ser ainda mais interessante se o autor não estivesse tão preocupado em escrever para alemães e se o texto não fosse, por vezes, tão complexo (a menos que haja, de vez em quando, algumas coisas que se perdem com a tradução).

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