ASAE – onde estás tu?

Andam por aí duas publicações semanais que me fazem muita confusão.

Corrijo: andam por aí muitas publicações que me fazem confusão. Mas estas duas mais do que as outras.

E incomodam-me mais porque, as outras, limitam-se a estar disponíveis nas bancas e, embora fique perplexo como é possível existirem tantas revistas sobre a programação da televisão, tantas revistas sobre as chamadas celebridades e as suas vidas privadas, tantas revistas com gajas boas na capa – embora fique perplexo como há leitores para tanto lixo, deixo-as lá estar, não as compro, não as folheio, não me incomodam muito.

Agora, estas duas a que me refiro, são distribuídas gratuitamente com o Diário de Notícias de sexta-feira (Notícias TV) e com o Sol (Gingko).

Não vou perder muito tempo com a Notícias TV. Apenas direi que é a única publicação que eu conheço que destaca sempre a idade das pessoas que surgem fotografadas nas suas páginas. E é graças a esse facto que fiquei a saber que Pepê Rapazote tem 37 anos, que Leonor Poeiras tem 28 anos e Dália Madruga, 29. Claro que não faço ideia de quem são estes tipos, mas isso é outra questão.

A revista é completamente idiota e destinada a indivíduos pouco exigentes em número de neurónios e traz, logo na contra-capa, um anúncio muito interessante, apelidado de “a descoberta sexual mais importante do século XXI”.

Trata-se do “Desir’ Patch”, um adesivo com “efeitos imediatos e duradouros”, quer no homem (“aumenta a frequência das erecções e favorece ejaculações mais potentes”), quer na mulher (“proporciona um desejo irresistível de prazer e multiplica a frequência e a intensidade dos orgasmos”).

O anúncio garante que o adesivo “não contem qualquer produto químico, hormonal ou substâncias nocivas de qualquer natureza”. Nesse caso, que raio terá o adesivo para dar assim tanta tesão à malta? O anúncio explica que a coisa é “à base de extractos vegetais e óleos essenciais”. O que é que isto quer dizer?

E onde é que a gente deve colocar o adesivo? Na pilinha ou no pipi? Não! “Basta aplicar na parte de baixo dos rins”.

Pronto! Tinha que ter algum defeito! Eu não me sinto inclinado a experimentar o Desir’ Patch, mas a malta que o quiser usar vai ter que fazer um corte na região lombar, para conseguir colocar o adesivo “na parte de baixo dos rins”.

Deve doer, porra!

E tira a tesão a qualquer um, só pensar em colocar seja o que for “na parte de baixo dos rins”!

A outra revista que me faz confusão é a Gingko, que tem um subtítulo: “equilíbrio pessoal, profissional e ambiental”. São 120 páginas de coisa nenhuma, banalidades e trivialidades em bom papel, com bonitas fotografias. Na página 18, por exemplo, ensinam-nos “Como fazer compras no supermercado”. São 9 regras de ouro, a primeira das quais diz assim: “ainda em casa faça uma lista com todos os produtos de que necessita”. Boa! E eu que nunca me lembrei de fazer uma puta de uma lista antes de ir ao supermercado!

Obrigado Gingko!

Mas a piéce de resistance está na página 42 e seguintes. Sob o título “Tempo de equilíbrio” podemos ler um texto sobre a terapia quântica.

Breve pausa, para todos se rirem um pouco.

Pois a terapia quântica faz-se com um Scientific Consciousness Interface Operations (SCIO), desenvolvido pelo engenheiro da NASA, Bill Nelson.

Diz o artigo: “o SCIO está equipado com sensores que se ligam à cabeça, pulsos e tornozelos. Assim, reconhece, analisa e quantifica o estado em que os vários órgãos se encontram.”

Como? Como é que o tal aparelho, que parece uma espécie de modem antigo, da extinta TV Cabo, sabe como é que está a funcionar o meu pâncreas, o meu baço ou as minhas vesículas seminais?

Adiante…

“O Trivector mede a voltagem, a amperagem e a resistência, para calcular a indutância, a condutância e a ressonância durante um teste onde compara as frequências ressonantes do corpo com cerca de 12000 elementos e compostos”.

Doze mil elementos e compostos? Será que se estão a referir ao sódio, potássio, cálcio, fósforo e afins? Doze mil?!

E como é que o aparelho trata o nosso organismo doente?

Simples.

“O sistema de retroacção biológica/biofeedback permite ao SCIO medir a ressonância das frequências de rectificação que alteram a própria rectância do organismo.”

Rectância do organismo?!

Colocar na parte de baixo dos rins?!

Estes gajos não são presos nem nada?!

Onde pára a ASAE quando é precisa?!

11 thoughts on “ASAE – onde estás tu?

  1. Muito bom. Também me faz muita confusão o que vejo escrito em certos “jornais” e revistas. É tão ridiculo que se torna engraçado.
    Vim aqui parar seguindo um link do “macacos” e palpita-me que vou voltar. Gostei muito do seu sentido de humor.

  2. É inacreditável, estou farto de me rir. Perguntar-te-ia se tinhas inventado tudo, mas, infelizmente, tenho cá muitas revistas que o meu sogro traz das sobras da gráfica onde trabalha e já li de tudo um pouco sobretudo em grandes publicações como a “Super interessante” e essa magnífica revista que é a “Focus”.

    As revistas femininas são também todas elas geniais com intermináveis listas de como dar prazer a um homem quando, como todos sabemos empiricamente, o velho “aparece nua, traz cerveja” continua a aplicar-se a 100%.

  3. Caro Artur,
    Sigo regularmente o seu blogue e desde já lhe dou os parabéns por me conseguir fazer rir com a sua perspicácia e com as suas sátiras. Admiro-lhe também a forma como consegue ver para além do óbvio, o que não sendo difícil, é algo raro. E acho que todos os contributos para desmascarar a comunicação social e a sua falsa informação, são bons e necessários.
    Fico também contente de ter visto pela primeira uma crítica à revista Gingko, projecto no qual contribuo. Começava a ser entediante que todo o feedback fosse elogioso e agrada-me ter algum contraditório, para melhor ter noção do verdadeiro valor do nosso trabalho. Podia ficar ofendido por ter comparado a Gingko à outra revista, mas percebo perfeitamente a relação entre a parte de baixo dos rins e a rectância do organismo…
    A sua crítica à Gingko, infelizmente, não me ajuda em nada. Você usa os mesmos processos da comunicação social que você critica, o que não é de admirar, porque todos nós fazemos, à nossa maneira, como vemos fazer. Mesmo quando nos rebelamos contra o mestre, não é fácil alterar ao mesmo tempo a substância e a forma. Ter um blogue a criticar o que a comunicação social (propaganda social) faz de errado sem usar as mesmas ferramentas que ela sempre utilizou (nada que os gregos não tenham inventado) é algo que não se pode esperar de imediato. Sobretudo de um blogue com pendor humorista – o que o torna muitas vezes incompatível com a verdade.
    Paciência. Mais tarde, quando o projecto Gingko que ainda é como uma planta frágil no meio de uma selva de papel, estiver mais consolidado, tentarei escrever um texto satírico com alguma profundidade sobre a revista e dedico-lho. Cumprimentos.

  4. Mário: doi sempre quando vemos o nosso trabalho ser vilipendiado por outros. Peço desculpa por isso, mas não podia deixar passar a história da rectância do organismo (e nem falei na Ana Maria Lucas!…)
    Se calhar fui um pouco injusto com a Gingko, no seu todo. Está prometido que quando receber o nº6, escreverei um texto só sobre o vosso projecto. No entanto, desde já lhe dou os parabéns pela frase “planta frágil no meio de uma selva de papel”, não só pela carga poética, mas também porque acerta na mouche, se calhar, sem querer: há, de facto, cada vez mais revistas e jornais e cada vez menos selva…

  5. Muito bom!

    Descobri este blog recentemente e gostei bastante… mas este post, sobretudo com o comentário do Sr. Mário foi das coisas mais divertidas que li nos ultimos tempos.

    :)

  6. Quanto àquela maquineta inventada pelo senhor da NASA…eu já passei pela experiência! Puseram-me os ditos electrodos por todo o lado e dai saiu o resultado! Depois mostro-te para te rires! Acertou em algumas coisas, como é o exemplo da minha querida escoliose e herança renal…(mas também entre 1200 opções não era dificil). Agora, os outros resultados é que são giros! É que o maravilhoso aparelho avalia e quantifica inclusivamente o teu nivel de agressividade, de fome, de sono, de capacidade de liderança, de sentimentos suicidas e até mesmo quanto é que tu és religioso…. é de chorar a rir!

  7. Minha querida: para detectar a tua escoliose, não é preciso aparelho nenhum – basta olhar para ti. Quanto à herança renal, a situação é tão vaga que, das duas uma: ou tu tens e a máquina acerta, ou tu não tens, mas ficas sempre na dúvida… será que posso vir a ter?…

  8. Desir’ Patch…

    Não costumo ir na onda do consumismo, mas como anda tudo doido por aí, e muita gente de cultura superior até vai à bruxa…
    Também li este anúncio nas tais revistas pirosas, e até já fiz pesquisa, mas acho que vou experimentá-lo! Quanto ao corte debaixo dos rins, isso fica pra outra altura; coloca-se sobre a pele e já está!
    Depois darei notícias…

  9. Falando na ASAE, vou também dizer o que penso!
    Por aquilo que tenho ouvido dizer, esses “aios” dos grandes fabricantes/produtores andam por aí a implicar com tudo e mais alguma coisa, mas nos sítios onde era preciso a intervenção dessa escumalha não aparecem!
    Frequento poucas vezes o mercado da Nazaré, mas das poucas vezes que lá estive já presenciei duas vezes o maior desleixo na higiene que pode haver.
    Ao dirigir-me aos sanitários das mulheres (já passei por esta cena duas vezes) o meu olfacto detectou que havia ali uma grande “cagada” – nem se podia respirar! Ainda tive tempo de ver uma empregada do talho a sair…
    Quando voltei novamente aos sanitários tive o grande prazer de ver que não havia ponta de papel higiénico nem de sabão…aonde é que as/os funcionárias/os do mercado lavam as mãos – eis a questão!
    Isto, sim, é um grande ataque à saúde pública. Os clientes compram carne, peixe, legumes, fruta, pão e todas as mercearias contaminadíssimas!

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