“Crónicas de Uma Pequena Ilha”, de Bill Bryson

cronicaspequenailha.jpg“Notes From a Small Island” foi publicado em 1995 e os ingleses não devem ter ficado muito satisfeitos com o título que Bryson escolheu; no entanto, comparando com a Austrália, a Inglaterra não passa de uma pequena ilha.

Como é habitual, a leitura destas crónicas de Bryson é muito divertida e escolhi alguns nacos, quase ao acaso.

Sobre a passividade e a paciência dos ingleses:

“Sempre achei lamentável – de um ponto de vista global – que uma experiência tão importante, no que diz respeito à organização de uma sociedade, fosse calhar ao povo russo quando afinal o povo britânico teria lidado com ela muito melhor. Tudo aquilo que é necessário para levar a cabo um sistema socialista rigoroso é algo que, afinal, faz parte do instinto do povo britânico. Para começar, gostam de passar por privações. São bons a trabalhar em união face a uma situação adversa, em benefício de um bem comum como é evidente. São capazes de se manter em filas durante tempo indeterminado, de forma paciente, e aceitar com resignação impar uma necessidade de racionamento, restrições leves e uma súbita e preocupante escassez de bens essenciais, como só alguém que já alguma vez esteve num supermercado à procura de pão, numa tarde de sábado, poderá compreender. Sentem-se à vontade face a burocracias sem rosto e, como a Sra. Tatcher provou, são tolerantes para com as ditaduras. Possuem um dom especial para dizerem piadas acerca da autoridade, sem a desafiarem de facto, e ficam deveras satisfeitos com a derrocada dos ricos e dos poderosos. A partir dos 25 anos, a maioria dos britânicos veste-se como os alemães da parte leste. Em resumo, as circunstâncias são todas a favor.”

Sobre o grande amor dos britânicos pelos animais: 

“Não existe nada que me faça sentir mais inadaptado na Grã-Bretanha do que a atitude dos seus habitantes para com os animais, à excepção da crença inabalável que possuem em relação às previsões climatéricas e o gosto geral por piadas que envolvam a palavra «bottom». Sabiam que a National Society for the Prevention of Cruelty to Children foi fundada 60 anos depois da Royal Society for Prevention of Cruelty to Animals, e como uma derivação desta? E sabiam que, em 1994, a Grã-Bretanha votou a favor de uma directiva da União Europeia que requeria a fixação de períodos de descanso para os animais de carga, mas contra a que estabelecia períodos de descanso para trabalhadores das fábricas?”

Sobre a imprevisibilidade do clima, na Inglaterra: 

“Tenho um pequeno recorte, já um bocado velho, que trago comigo e do qual me sirvo, às vezes, para me divertir. Foi tirado de um boletim meteorológico que vinha no Western Daily Mail e diz: «previsão: tempo seco e quente, mas mais fresco e com alguma chuva».”

Sobre a cultura geral dos ingleses:

“Ao fim e ao cabo, é um país onde a grande final de um programa como Mastermind é frequentemente ganha por motoristas de táxis e guarda-freios. Nunca cheguei à conclusão se isto é impressionante ou assustador – se é um país onde os maquinistas conhecem Tintoretto e Leibniz, ou um país onde as pessoas que conhecem Tintoretto e Leibniz acabam como maquinistas.”

São quase 350 páginas de devaneios de um americano, passeando por Inglaterra, tomando nota das idiossincrasias dessa pequena grande ilha, sempre com muito humor. E ficamos a saber que, afinal, não é só em Portugal que os patos-bravos dão cabo das cidades, construindo monstros de vários andares e descaracterizando as cidades do interior.

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