“A Vida e as Aventuras do Rapaz Relâmpago”, de Bill Bryson

rapazrelampagoÉ sempre um prazer ler um livro de Bill Bryson.

Embora seja mais conhecido pelos seus livros de viagens, Bryson escreve sobre quase tudo – aliás tem um livro chamado “Breve História de Quase Tudo”.

E escreve sempre de um modo muito divertido.

Este livro aborda a América da década de 50, do século passado, a década da prosperidade norte-americana e, também, a década em que Bill Bryson, nascido em 1951, cresceu.

Os pais de Bryson eram jornalistas no Register de Des Moines, no Iowa – o pai, jornalista desportivo, a mãe, de temas femininos e, pelos vistos, a infância do futuro escritor foi feliz e despreocupada.

No livro, Bryson relembra esses tempos, sempre com muitos e curiosos pormenores estatísticos.

Na década de 50, na América “éramos felizes e indestrutíveis. Não precisávamos de cintos de segurança, de airbags, de detectores de fumos, de água engarrafada, nem da manobra de Hemlich. Não eram necessárias tampas à prova de crianças nos medicamentos. Passeávamos sem capacete quando andávamos de bicicleta, e sem joalheiras e cotoveleiras quando andávamos de skate. Sabíamos, sem que precisassem de nos lembrar por escrito, que a lixívia não era um refresco e que, quando exposta a um fósforo, a gasolina tendia a entrar em combustão. Não nos precisávamos de preocupar com aquilo que comíamos, pois quase todos os alimentos eram benéficos: o açúcar dava-nos energia, a carne vermelha tornava-nos fortes, o gelado proporcionava-nos ossos saudáveis, o café mantinha-nos alerta e produtivos”.

Tempos felizes, esses, onde até o tabaco era aconselhado pelos médicos…

Mas também existiam modas irritantes, como o aeromodelismo (e só a malta com mais de 50 anos, sabe do que estou a falar). “O modelismo tinha fama de ser muitíssimo divertido mas, na verdade, não passava de uma provação misteriosa que tínhamos de enfrentar de tempos a tempos, como parte do processo de juventude. Os modelos pareciam sempre divertidos, é verdade. As ilustrações nas caixas representavam aviões de combate de um pormenor maravilhoso (…). Mas, quando chegávamos a casa e abríamos a caixa, o conteúdo revelava ser de um cinzento-chumbo, ou de um verde-azeitona uniforme, consistindo talvez em sessenta mil partes minúsculas, algumas pouco maiores do que um protão, todas ligadas de uma qualquer forma orgânica e inseparável a varetas de plástico semelhantes a palitos de coquetel. Os tubos de cola, em contraste, eram enormes, do tamanho de seringas de pasteleiro. Por muito pouca força que se empregasse, vomitavam sempre pelo menos meio litro de uma gosma viscosa transparente cujo único instinto era aderir a qualquer objecto estranho – um dedo humano, os cortinados da sala, o pêlo de um animal de passagem – e transformar-se num fio infinitamente comprido.”

Tantas vezes que isto me aconteceu, no início da minha adolescência, até desistir, definitivamente de construir modelos de aviões, ou barcos, ou automóveis.

Bryson é dois anos mais velho do que eu, e enfrentou a possibilidade de ir para guerra do Vietnam um pouco antes de eu enfrentar a possibilidade de ir para a guerra colonial. Em ambos os casos, o que nos safou foi estudar.

Diz ele: “Em 1968, um quarto dos jovens americanos estava nas forças armadas. Quase todos os outros frequentavam a escola, estavam na prisão ou eram o George W. Bush”.

Impagável, este Bryson!

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