“Funeral Divertido”, de Ludmila Ulitskaya (1997)

Alik é um russo emigrado nos Estados Unidos, pintor sofrível, que está à beira da morte. Confinado à cama, os seus últimos momentos são rodeados de uma série de personagens mais ou menos caricatas, incluindo a sua actual e a sua ex-mulher, a sua filha adolescente e mais uma série de supostos amigos, todos russos, todos emigrantes.

Ulitskaya nasceu em 1943, nos Urais e estudou e cresceu em Moscovo, vivendo actualmente em Berlim.

Apesar de um dos principais protagonistas estar a morrer, o tom do livro é sarcástico e, apesar de ser traduzido do russo pela dupla de tradutores Nina e Filipe Guerra, dá a sensação de que algumas piadas ficam perdidas na tradução, que serão piadas demasiado russas, por assim dizer…

Gostei desta:

“O que importava era isto: ambos eram médicos de nascença, no mesmo sentido em que as pessoas nascem loiras, cantoras ou cobardes, ou seja, por imposição da natureza; havia em ambos o instinto da compreensão do corpo humano, um bom ouvido para a circulação do sangue, uma maneira especial de raciocinar”.

O livro foca-se nos emigrantes russos na América, mais especificamente, os judeus russos e a sua maior ou menor dificuldade em se adaptar.

“Alik, um homem do terceiro mundo, o da Rússia, aos trinta anos travou conhecimento com a Europa e a América. Primeiro, Viena e Roma (com todas as delícias italianas que não chegaram a saciá-lo durante quase um ano)… Só quando emigrou para a América e lá se fixou, sem sair das duas fronteiras, compreendeu a inveja americana velha Europa, com a sua decrepitude diáfana, o seu requinte e quase esgotamento cultural, assim como compreendeu a atitude arrogante, mas no fundo também invejosa, da Europa em relação à América espadaúda e elementar”.

Um curioso pequeno livro.