“O Desfufador”, de Valério Romão (2025)

Tenho feito um esforço, juro que tenho, mas desisto hoje, na página 262.

Quando li a entrevista ao autor, Valério Romão, no Ipsilon, do jornal Público, pensei que ia ser um livro que me iria divertir e, por alguma razão, lembrei-me de António Rebordão Navarro e do seu livro de 1972, “O Discurso da Desordem”, que li em março de 1973, com apenas 20 anos, deslumbrado com aquela narrativa revolucionária.

A entrevista que o Público publicou sobre este “O Desfufador” até falava no velho Mário-Henrique Leiria. Coitado! Daria voltas na campa se estivesse para aí virado! Mas o que é que o pobre do Mário teria a ver com isto?!

“O Desfufador” é um livro que não incomoda ninguém porque ninguém o pode levar a sério, quando um dos seus personagens principais é o Alex, um anão que tem “corpo de pónei e sarda de cavalo”. Mas que merda de piada é esta?!

A ironia do Mário-Henrique não tem nada a ver com este chorrilho de palermices!

E eu sei o que estou a dizer…

O que é isto, afinal?

“Ao que o homem pobre não se pode negar (…) era transformar o sonho em fumo (…) ele que sempre sonhara ir ao cu a uma gaja e nunca o tinha feito”

Ou isto, na página 145:

“… quanto à execução de um orçamento cuja leitura e avaliação por parte do eleitor comum estaria, normalmente e em termos de prioridades, bem abaixo da sujeição a uma colonoscopia caseira às mãos de um tio parkinsoniano munido de uma mangueira de bombeiro”

Não, não me sinto ofendido, nem sequer me ruborizo por esta linguagem – simplesmente acho-a infanto-juvenil, como mais este exemplo absolutamente idiota, na página 181:

“a prova de que o português, em focando-se e trabalhando em grupo (!!! Exclamações minhas), é capaz de expulsar qualquer um e reclamar o que é seu. E havia que afastar da cachimónia a ideia de pequenez lusitana, a ladainha do povo simpático sempre enrabado pela sarda estranja, dos bons costumes a troco da gorjeta liliputiana…”

O autor parece enfeitiçado pelos termos “camurço” e “sarda”.

Chega de exemplos.

Fiz em esforço do caralho para ler esta preciosa merda até quase às 300 páginas e assusto-me só de pensar que ainda vai sair mais um volume.

A culpa é apenas do tipo do Público, cuja entrevista me fez despertar o interesse por esta miséria.

Volta Rebordão Navarro!

“Maligna Ofélia! Deves estar na tarde de domingo num café de domingo, com famílias passadas a papel químico, filhas iguais às mães, filhos iguais aos pais, criados baralhados nas contas, queixando-se dos joanetes e um cego que senta numa cadeira vazia e toca duas músicas antigas num acordeão ainda mais antigo, enquanto o seu acólito, um tipo de oleosa, doentia gordura explodindo no intervalo das rugas, passa de mesa em mesa uma caixa-mealheiro onde os cavalheiros depositam o seu pequeno óbulo”.
(in “O Discurso da Desordem”, 1972)

Mas o que me deu nesta cabeça, para me lembrar deste pequeno-grande livro do Rebordão Navarro quando li a entrevista ao autor deste “O Desfufador”.

Cenas…

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