“Os Detectives Selvagens”, de Roberto Bolaño (1998)

Depois de ter lido “2666” e este “Os Detectives Selvagens”, não fiquei rendido a Bolaño, pelo menos, não ao ponto de o considerar “indiscutivelmente o escritor mais brilhante no actual panorama da literatura latino americana. Um autêntica lenda literária”, como se diz no El País, citado na contracapa de mais um calhamaço de 500 páginas.

Também não vejo onde “Os Detectives Selvagens” seja uma “visão brutal e lírica dos últimos trinta anos do milénio”, como diz Le Monde des Livres, também citado na contracapa.

Aliás, penso que “Os Detectives Selvagens” e “2666” são o mesmo livro ou, por outras palavras, Bolaño foi escrevendo e depois, decidiu dividir as milhares de páginas que escreveu em dois livros e, cá para mim, até trocou os títulos, tal como Boris Vian fazia.

De facto, onde é que há detectives? Em “2666” e não em “Os Detectives Selvagens”. E a data 2666, ou aproximada, aparece é em “Os Detectives Selvagens” e não em “2666”. Na página 496 do segundo livro, lê-se: «Porém Cesárea falara dos tempos que haviam de vir, e a professora, para mudar de assunto, perguntara-lhe que tempos seriam esses e quando viriam. E Cesárea dissera uma data: por volta do ano 2600. Dois mil seiscentos e picos”

“Os Detectives Selvagens”, tal como “2666” é uma sequência de pequenas histórias entre poetas, e não só. A acção principal decorre no México e a primeira parte do livro (“Mexicanos perdidos no México”) passa-se em 1975 e surge como um diário escrito por um jovem poeta, que pertence à corrente “real visceralista”. Já aí se fala em Arturo Belano e Ulisses Lima, duas personagens que percorrem todo o livro, sem nunca terem voz activa na narrativa. Há sempre alguém que fala deles, sobre eles, por eles – o que os torna ainda enigmáticos.

A segunda parte do livro, chamada “Detectives Selvagens”, decorre entre 1976 e 1996 e é formada por entradas, como se se tratasse de uma enciclopédia de histórias. Cada entrada pertence a um personagem, um local e uma data e é uma história, não necessariamente relacionada com as outras, embora se fale muitas vezes do tal Lima e do tal Belano. As entradas não têm ordem cronológica e a histórias decorrem maioritariamente na Cidade do México, mas também no Midlewest americano, Barcelona, Paris, Londres ou Telavive.

Joaquim Font, a partir da Clínica de Saúde Mental El Reposo, nos arredores da Cidade do México, diz, em Janeiro de 1977:

«Não se pode viver desesperado toda uma vida, o corpo acaba por dar de si, a dor acaba por se tornar insuportável, a lucidez escapa-se em grandes jorros frios. O leitor desesperado (ainda mais o leitor de poesia desesperado, esse é insuportável, acreditem-me) acaba por se antagonizar com os livros, acaba inelutavelmente por se transformar num desesperado sem apelo nem agravo. Ou cura-se! E então, como parte do seu processo de regeneração, volta lentamente, como que entre algodões, como que sob uma chuva de comprimidos tranquilizantes fundidos, volta, como ia dizendo, a uma literatura escrita para leitores serenos, repousados, com a mente bem centrada. A isso se chama (e, se ninguém lhe chama assim, eu chamo-lhe assim) a passagem da adolescência à idade adulta. E com isto não quero dizer que quando nos convertemos num leitor tranquilo se deixe de ler livros para desesperados. Claro que se lê! Sobretudo se são bons, ou passáveis, ou se um amigo os recomendou. Mas, no fundo, chateiam-no! No fundo, essa literatura amarga, cheia de armas brancas e de Messias enforcados, não consegue penetrá-lo até ao coração como, por outro lado, o consegue uma página serena, uma página meditada, uma página tecnicamente perfeita.»

Mais à frente, na página 321, André Ramirez, no bar El Cuerno de Oro, em Barcelona, em Dezembro de 1988, fala-nos de Eusébio!

«(…) por fim zarpámos e deixámos para trás a laboriosa capital portuguesa, que eu imaginava, nos meus sonhos febris, como uma cidade negra, com gente vestida de negro, com casas feitas de ébano, ou de mármore negro, ou de pedra negra, talvez porque no meu delírio febril tivesse alguma vez pensado em Eusébio, a pantera negra daquela selecção que tão bom papel desempenhara no Mundial de Inglaterra de 1966».

Na página 408, é marco António Palacios, que nos fala na Feira do Livro, em Madrid, em Julho de 1994, sobre escritores:

«Visitar os escritores nas suas residências, ou abordá-los nas apresentações de livros e dizer a cada um exactamente aquilo que ele quer ouvir. Aquilo que ele quer desesperadamente ouvir. E ter paciência, pois nem sempre funciona. Há cabrões que te dão uma palmada no ombro e a seguir se te vi não me lembro. Há cabrões duros, e cruéis, e mesquinhos. Mas não são todos assim. É necessário ter paciência e procurar. Os melhores são os homossexuais, mas, cuidado, é preciso saber em que momento parar, é necessário saber com precisão o que é que se quer, de contrário pode-se enrabado debalde por qualquer velho mariconço de esquerda».

E finalmente, a terceira parte do livro, e a mais curta, intitula-se “Os desertos de Sonora”, passa-se em 1976 e é novamente um diário que descreve a viagem de quatro amigos, incluindo Lima e Belano, em busca dos locais por onde passou e viveu Cesárea Tinajero, a pretensa primeira poeta real visceralista, seja lá o que isso for…

Fecho o calhamaço, respiro fundo, arrumo-o na prateleira, satisfeito. Foi uma boa companhia durante cerca de dois meses, mas tão cedo não vou pegar em “O Terceiro Reich”, outro do Bolaño que espera para ser lido…

“2666”, de Robert Bolaño

Dizia Tom Waits, numa entrevista, há uns anos, que a única profissão que continuava a dar dinheiro, mesmo depois da morte, era a de rock star.

A de escritor, também. Nestes dois últimos anos assistimos a dois exemplos: o jornalista sueco Stieg Larsson, que morreu em 2004, aos 60 anos, de ataque cardíaco, antes de ver o estrondoso êxito da sua trilogia sobre o super-jornalista Mikael Blomkvist e o escritor chileno, Roberto Bolaño, morto aos 50 anos, em 2003, de insuficiência hepática, antes de ver o sucesso deste “2666”, já considerado como a primeira obra-prima da literatura do século 21.

Bolaño tem algo de comum com as rocks stars: uma vida de excessos, de bolandas de um país para outro, a participação em movimentos radicais, a eventual dependência de heroína, que teria levado à hepatite C e à consequente insuficiência hepática, e a consagração como grande autor, depois da sua morte.

“2666” é um calhamaço de 1025 páginas, que me levou meses a ler, aos bochechos, porque tenho mais que fazer e porque a sua leitura não é nada fácil. O livro divide-se em cinco partes e alguns defendem que devia ter sido publicado em cinco volumes separados. Não estou de acordo. Apesar da sua diversidade, “2666” forma um todo coerente, embora seja um intrincado de milhares de pequenas histórias, aparentemente sem grande relação entre elas.

O livro começa e termina com Benno von Archimboldi, um estranho e obscuro escritor alemão, que adoptou um pseudónimo italiano, para escapar a um crime de guerra – e dizer isto é dizer quase nada sobre o núcleo da(s) história(s).

A melhor definição deste livro é dada pelo próprio autor, na página 911, quando diz “a História, que é uma puta simples, não tem momentos determinantes, mas é sim uma proliferação de instantes, de brevidades que rivalizam entre si em monstruosidade”.

Também “2666” não tem um momento determinante, sendo constituído por uma sucessão de pequenos episódios, como se o autor tivesse tricotado as histórias e as fosse unindo umas às outras.

Uma coisa é certa: nunca li nada de parecido e a leitura de “2666” não deixa ninguém indiferente e deixa marcas. Profundas.