Archive for the ‘Coisas da Vida’ Category

“Estão a dar telemóveis?” – ridícula campanha eleitoral

Tuesday, May 14th, 2019

Nos anos que se seguiram ao 25 de Abril, as arruadas, os comícios, os desfiles, tudo isso fazia sentido. Estávamos a experimentar a democracia. Depois de quase 50 anos de bico calado, era natural que as massas se quisessem exprimir publicamente, gritando palavras de ordem e agitando bandeiras.

As campanhas eleitorais dos primeiros anos de democracia foram mais uma novidade que o 25 de Abril proporcionou, bem como os tempos de antena e os debates televisivos.

Mas agora, na era dos smartphones, as campanhas eleitorais são cada vez mais ridículas.

A actual campanha para as eleições europeias é bem disso um exemplo. Ver os candidatos a fazer exactamente aquilo que faziam os seus antecessores há 40 anos, visitando os mercados, beijando as peixeiras, empanzinando-se em almoçaradas, descendo a Rua de Santa Catarina ou a Rua do Carmo, com bandeirinhas e cartazes, acompanhados de bombos e cornetas ou de jovens histéricos aos saltos e vivas, tudo isso é ridículo!

Os telejornais mostram imagens das acções de campanha e não posso deixar de pensar que os políticos, cada vez mais desprezados, se dão ainda mais ao desprezo.

O Rangel, com aquela barba mal semeada, o Marques, que nasceu sem lábios, a Marisa, com as suas costas largas, o João Ferreira, de barba aparada, o Melo que não corta o cabelo, já não convencem ninguém.

Mas há agora uns Partidos novos.

São novos, mas usam estratégias velhas.

Vi ontem uma acção de rua de um Partido de um tal Morais, um daqueles que diz que está acima de toda a corrupção do Estado, que se fosse ele, iam todos presos, porque ele é o homem mais honesto ao cimo da Terra. O Partido chama-se Nós Cidadãos. E vi meia dúzia de apaniguados, brandindo bandeiras amarelas, com a palavra “NÓS”, em letras garrafais, e a palavra “cidadãos”, em caixa mais baixa.

O grupo passeava-se pelas ruas do Porto e um grupo de idosas acercou-se da comitiva. Uma delas perguntou: “estão a dar telemóveis?”, pensando que se tratava de uma acção de propaganda da operadora de telecomunicações NOS.

Dizia outra velhinha: “Ele quer ir para a NOS? Eu dou-lhe o meu voto!”

Ditosa pátria que tais filhos tem…

Títulos de jornais

Monday, May 13th, 2019

Devo ser dos poucos Homo Sapiens que ainda lê jornais todos os dias. Falo de jornais em papel, claro.

Uma coisa que me irrita solenemente é aquilo que considero ser a preguiça jornalística.

Deve ser essa preguiça que leva a títulos destes (no Público de hoje).

Ora, se todos os dias são detidas cinco pessoas, quem será que as liberta para que possam ser presas, novamente, no dia seguinte?

Este erro semântico é sistemático.

Bastaria que o jornalista titulasse assim: “Em média, cinco pessoas por dia são detidas…”

Ou ainda: “Violência doméstica: cinco detidos por dia, em média”.

Outro tipo de título que me irrita é o que encerra erros ortográficos, como este, publicado no Sol de sábado passado.

O Matteo Salvini, além de ser um perigoso direitista, “custumava”?

Do verbo “custumar”?

Que porra de verbo será este?

Como é possível, com os correctores informáticos, continuar a cometer erros destes?

Será que o corrector sublinhou a palavra “custumava” e o Sr. João Campos Rodrigues achou que o corrector estava enganado ou, por outro lado, tão preguiçoso como o colega do Público, nem sequer reviu o texto?

Enfim, eu é que sou chato…

Militares à bulha!

Sunday, May 12th, 2019

Na semana em que todas as notícias se concentraram na ameaça de demissão do primeiro-ministro devido à chamada “coligação negativa”, entre a Direita (PSD e CDS) e a Esquerda (PCP e Bloco), o pasquim Sol, escolheu outro tema para primeira página.

Estava o Mário Nogueira a choramingar pelo facto dos partidos da Direita lhe terem tirado o tapete que lhe tinham estendido três dias antes, estava a Sãozinha a tentar justificar a cambalhota que deu e o Rio a fingir que não tinha dado – enfim, estava Marcelo caladinho, o que é algo de inédito (pois se ele até aparece junto do eléctrico que capotou, no próprio dia em que isso acontece, e nada diz no dia em que o Costa ameaça demitir-se!) – em resumo, estava o país suspenso deste magno problema e o Sol preocupava-se com este soco intermilitar.

Não li a notícia toda, nem sei quem são os protagonistas – e não quero saber.

No entanto, o título permite-me diversas conclusões e outras tantas dúvidas.

Se fosse ao contrário? Se fosse um general a dar um soco num tenente-coronel, seria aceitável?

E se o soco fosse noutra região anatómica, sem ser a cara?

O General Chaves acusa o tenente-coronel Ferreira de lhe dar um soco assim que ele abriu o vidro do carro. Será que, se Ferreira tivesse, primeiro, feito continência, e só depois desferisse o soco, tal seria mais correcto, do ponto de vista da condição militar?

E quanto à testemunha ocular? Quem seria? Disse essa testemunha que encontrara o general “a sangrar como um touro” – seria a testemunha um aficionado tauromáquico?

Se o general estivesse a sangrar como um bezerro, o crime seria menos grave?

Poderíamos desculpar o tenente-coronel Ferreira se o general Chaves estivesse apenas a sangrar como um cordeirinho?

Isto sim, são assuntos importantes!

Mais um emigrante que regressa

Friday, May 10th, 2019

A política governamental de apoio ao regresso dos portugueses que foram obrigados a emigrar durante a intervenção da troika em Portugal, continua a dar os seus frutos.

Para além dos milhares de portugueses que regressaram, beneficiando, assim, de um desconto simpático no IRS, coube agora a vez ao urso pardo, que emigrara há mais de 170 anos.

O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas confirmou a presença de um urso pardo, instalado no Parque Natural de Montesinho, mas adiantou que o animal poderá regressar a Espanha em breve.

Esperemos que Mário Centeno, deixe de ser urso, e isente o bicho do pagamento total do IRS.

Pode ser que, assim, o urso fique por cá…

O Brasil militariza-se

Friday, May 10th, 2019

Em breve, todos os brasileiros usarão uniforme.

Bolsonaro está a militarizar o Brasil.

Em algumas escolas, os miúdos são obrigados a fazerem formatura logo pela manhã, sob o comando de um militar. Depois, cantam o hino nacional.

Antes, à entrada da escola, rapazes e raparigas (perdão, meninas – raparigas, no Brasil, é outra categoria…), são inspeccionados por militares: eles não podem trazer brincos ou outros adornos considerados femininos e elas terão que usar saias decentes e nada de maquilhagem.

Durante os intervalos, militares armados patrulham os recreios

E o mais engraçado, é que alguns pais acham a ideia muito boa. Vamos a ver se continuam a achar graça quando um dos seus filhos aparecer em casa, de kalachnikov em punho…

Para além desta militarização das escolas, Bolsonaro também liberalizou o uso de armas.

Segundo o Público, o presidente do Brasil vai “alargar o número de pessoas com direito a ter armas de fogo. À luz da lei, políticos, advogados, jornalistas, proprietários rurais, motoristas de pesados, entre outros”, passam a poder possuir uma arma de fogo.

Podemos imaginar, daqui a uns tempos, advogados, em pleno tribunal, fazendo as alegações finais, de coldre e revólver à cintura; ou jornalistas a entrevistarem políticos, de pistola apontada, ao que os oponentes poderão responder, empunhando caçadeiras de canos serrados. E os motoristas de pesados escusam de fazer greve – basta apontarem armas ao patronato, exigindo aumento de salário.

Bolsonaro devia ter alargado ainda mais o decreto, permitindo a ex-presidentes do Brasil o uso e porte de arma.

A esta hora, Lula e Temer já não estariam presos.

Já não se fazem comunistas como antigamente

Wednesday, May 8th, 2019

Mário Nogueira, líder da Fenprof, sindicato-mor dos professores, afirmou que considera a hipótese de se afastar do seu Partido de sempre, o Partido Comunista.

Esta decisão de ruptura surge depois de Jerónimo de Sousa, líder do PCP, ter ignorado os apelos de Nogueira, ao afirmar que o Partido iria votar contra as propostas da Direita.

Confusos?

Eu explico.

Há anos (daqui a pouco, há 9 anos, 4 meses de 2 dias), que andamos a discutir a possibilidade de os professores reaverem os anos em que as suas carreiras estiveram congeladas (que, como todos sabem, é desde o Cretácio Superior…).

Ora, acontece que, caso o Governo decidisse conceder aos professores todos os anos que eles estiveram congelados, logo os polícias, magistrados, auxiliares de acção educativa, jardineiros e afins, exigiriam o mesmo.

Eu próprio, que não passo de um reformado e pensionista (nunca percebi a diferença entre uma coisa e outra…), exigiria, também, que me descongelassem o último escalão da minha carreira. É que, quando me reformei (ou aposentei – qual será a diferença?…), estava colocado no penúltimo escalão da minha carreira há anos. Claro que, para subir para o último escalão, teria que apresentar um trabalho e ser avaliado por uma comissão; não seria uma subida automática, mas, mesmo assim, estou convencido de que conseguiria esse desiderato e, portanto, poderia ter-me aposentado (ou reformado…), com o escalão máximo da minha carreira.

Mas, enfim, o tempo não volta para trás, o que já foi não volta a ser e o passado fica lá atrás.

Não para o Mário Nogueira, que insiste, há anos, na recuperação dos tais nove anos e etc e tal.

Pois na quinta-feira, passou-se aquela cena curiosa, que consistiu numa coligação negativa, formada pelo PCP, Bloco, Verdes, PSD e CDS: todos votando a favor do descongelamento dos tais nove anos e tal, sem contrapartidas.

Mário Nogueira exultou, os líderes de todos os Partidos, menos o do Governo, também, e António Costa resolveu esticar a corda, ameaçando demitir-se.

O PCP e o Bloco mantiveram-se na deles, já que sempre defenderam o descongelamento dos nove anos e tal. Os deputados do CDS e do PSD, presentes na Comissão de Educação, aplaudiram; estavam a lixar o Costa, e isso era uma vitória.

Assunção Cristas estava contentíssima e Rui Rio desapareceu.

Claro que, a pouco e pouco, tanto o CDS como o PSD deram o dito por não dito, embora dizendo que nunca tinham dito o que tinham, de facto, dito.

Afinal, só aprovariam o descongelamento dos nove anos e tal se houvesse dinheiro, e se não houvesse dívida e se não chovesse…

O PCP e o Bloco, apressaram-se a dizer que, no fundo, até votariam a favor, mas como o CDS e o PSD punham como condição que não chovesse, não podiam ficar reféns da Direita e da Meteorologia…

Foi quando Nogueira vacilou e disse que teria que repensar o seu lugar no Partido Comunista.

Claro que os cerca de 100 mil professores ficaram aterrorizados. Então o seu líder comunista estava a hesitar?

A fé de um verdadeiro comunista é inabalável!

Eu sou do tempo em que os comunistas morriam pela sua causa.

Afinal, Nogueira é um fraquinho…

Crise Governamental

Tuesday, May 7th, 2019

A Dona Maria Celeste Lacerda caiu naquela Comissão de para-quedas; uma colega que fazia parte da Comissão há quase quatro anos estava grávida em fim de tempo e pediu-lhe para que ela a substituísse.

Um pouco atarantada, assistiu às discussões entre os deputados dos vários partidos e, entusiasmada, começou a dar as suas opiniões: era para encostar o Partido do Governo à parede? Nesse caso, valia a pena aquela aliança estranha entre os da Direita e os da Esquerda.

A Dona Maria Celeste Lacerda e as suas colegas do Partido da Direita, bem como os elementos do Partido de Direita-Mas-Menos estavam esfusiantes – não era habitual estarem de acordo com os deputados do Partido da Esquerda, muito menos com os do Partido Ainda-Mais-de-Esquerda – e esse facto deixava-os excitados, como, quando adolescentes, experimentavam algo de proibido.

Depois de algumas horas de discussão, todos chegaram a acordo e aprovaram um decreto-lei. Só o Partido do Governo votou contra.

No final da reunião, os deputados dos partidos da Direita e da Esquerda estavam tão contentes que, por pouco, não foram festejar para o mesmo restaurante.

A Dona Maria Celeste Lacerda regressou a casa, onde a criada já tinha o jantar na mesa e telefonou à sua líder, que lhe deu os parabéns – tinham conseguido encostar o primeiro-ministro à parede.

O mesmo se passou com Germano Gonçalves, líder do Partido de Direita-Mas-Menos. Também ele estava contente e também ele telefonou para o seu líder, dando-lhe conta dos resultados da reunião da Comissão. Escutou elogios, agradeceu e retribuiu – a estratégia do Partido estava a resultar! O facto de se terem unido aos Partidos de Esquerda não era novo – já o tinham feito no passado e, como toda a gente sabe, em política, vale tudo.

Nessa mesma noite, no entanto, o primeiro-ministro apareceu nas televisões ameaçando demitir-se se o decreto-lei cozinhado pelos Partidos de Direita e Esquerda, fosse mesmo aprovado.

A Dona Maria Celeste Lacerda, estava a comer o pudim flan quando viu, na televisão, o primeiro ministro a ameaçar.

Germano Gonçalves estava a fazer Sudokus, sentado na sanita, quando ouviu, no rádio da casa de banho, a declaração do primeiro-ministro. Gonçalves detestava as casas de banho do Parlamento e só em casa conseguia aliviar-se.

Lacerda e Gonçalves tentaram contactar com os respectivos líderes, mas as chamadas foram para o voice-mail.

Conceição Crostas estava em Paris, com o telemóvel desligado, porque decidira jantar num Hipopotamus, perto da Ópera e não queria ser incomodada. Quanto a Rui Frio, o líder do Partido de Direita-Mas-Menos, estava a chatear-se em casa, sozinho, treinando “ares de estadista”.

No dia seguinte, quando percebeu que a coisa era grave, Conceição Crostas invectivou o primeiro-ministro, atacou o Partido do Governo e corou, enquanto Rui Frio continuava a treinar poses de Estado, só reagindo dois dias depois, numa conferência de imprensa em que surgiu com ar grave, apesar de continuar com o cabelo a cobrir o colarinho. Esquecera-se de ir ao barbeiro…

No final, tanto o Partido de Direita como o Partido de Direita-Mas-Menos acabaram por votar contra o decreto-lei que tinham redigido juntamente com os Partidos de Esquerda e o primeiro-ministro não se demitiu.

No dia seguinte, Rebelo Primeiro, o Comentador, recomeçou a falar, para descanso do povo…

Os bons e os maus, segundo os media

Thursday, May 2nd, 2019

A comunicação social deixou de ser imparcial há muito tempo. Sobretudo nas televisões.

Hoje em dia, raramente podemos assistir à transmissão de uma notícia.

Segundo o Grande Dicionário de Língua Portuguesa (obra em doze volumes, da responsabilidade da Sociedade de Língua Portuguesa, editada em 1981, quando óptimo ainda levava o pê…), notícia significa “conhecimento, informação; nota, observação, apontamento; resumo, exposição sucinta de um acontecimento”, etc.

Gosto desta última definição: exposição sucinta de um acontecimento.

Exactamente o contrário do que se passa, hoje, em dia, na comunicação social televisiva.

O massacre informativo banaliza a verdadeira importância dos acontecimentos.

E a tomada de posição dos jornalistas, que deviam ser isentos e imparciais, desvirtua a realidade.

Os acontecimentos na Venezuela são um bom exemplo. A comunicação social decidiu que Juan Gaidó é bom e Nicolás Maduro é mau.

A partir deste pressuposto, todas as notícias sobre a Venezuela pecam por parcialidade. Então, se o povo da Venezuela está à míngua, cheio de fome, com uma inflação galopante, sem medicamentos, morrendo nos hospitais por falta de assistência, vegetando à fome por falta de alimentos, como se explicam as manifestações a favor de Maduro, onde milhares de venezuelanos dançam, cantam e clamam pelo chefe supremo?

Mas Guaidó é apoiado pelos Estados Unidos e Maduro, pela Rússia – portanto, mais uma razão para os media considerarem Guaidó bonzinho e Maduro, um perigoso ditador.

Sendo apoiado pelos EUA, Guaidó tem o apoio de Trump. Ora, Trump é mau, segundo os media. É um bronco, mente constantemente, é obsceno, mal-educado e inculto – o contrário de Obama, que era bonzinho, muito delicado, tinha uma mulher inteligente, ambos pretinhos e tudo!

Trump é quase tão mau como Bolsonaro, que é nazi, retrógrado, reaccionário.

Quem já foi muito má e agora é excelente, foi Angela Merkel. No tempo da troika, a senhora era péssima; depois, quando decidiu acolher refugiados, passou a ser muito boazinha, sobretudo em compensação com aquele tipo da Hungria, que é mesmo muito mau.

No que diz respeito a França é que a coisa está mais complicada. Os coletes amarelos são maus porque partem montras, mas são heróis porque têm um luso-descendente entre os chefes, que até perdeu um olho numa manif. Claro que o Macron é mau, porque apoia os ricos e não quer saber dos coletes amarelos, mas se calhar é bonzinho porque vai reconstruir a Notre Dame em cinco anos…

E acho que chega para mostrar o meu ponto de vista.

Um acontecimento deve ser noticiado como aconteceu, sem mais devaneios ou pinceladas da autoria do jornalista que, assim, se quer tornar o centro da notícia.

É frequente ouvirmos os jornalistas queixarem-se das condições de trabalho, que a polícia não os deixou entrar, que o político não respondeu às perguntas, que a sala tinha má acústica. E este é o principal problema de algumas profissões.

O principal objecto da medicina são os doentes, da educação, são os alunos e do jornalismo, é a notícia.

O resto é encher chouriços.

PS – Como é possível que um jornal televisivo demore hora e meia e apenas se detenha sobre três ou quatro notícias?…

Necrologia partidária

Sunday, April 28th, 2019

O PS não se safa dos jobs for the boys, ou do mais recente familygate – tudo nomes anglo-saxões para os velhos jeitinhos.

Conheces alguém lá no Banco, ou na seguradora, ou no hospital, ou na repartição? Todo o português que se preze gosta de usar os conhecimentos, os favorzinhos, as atenções, as cunhas, para obter benefícios.

O PS, como partido dos portugueses genuínos, faz isso mesmo (aliás, como o PSD – e o PCP, o Bloco e o CDS só não o fazem porque não podem, isto é, porque não estão no Poder).

Ora, eu estou num lugar cimeiro, digamos, num Ministério, e preciso de colaboradores nas secretarias de Estado e nas Direcções-Gerais – quem vou convidar se não o meu filho, a namorada de um primo, o amigo de um cunhado, ou mesmo a minha esposa – conheço-os bem, sei que não me vão apunhalar pelas costas e, ainda por cima, até têm formação nessa área… portanto, concurso público?… para quê?!… para demorar meses a escolher um colaborador?…

Foi assim que, nesta campanha eleitoral, todos se lembraram que o Governo tinha, no seu seio, marido e mulher, pai e filha, e mais…

A partir daí, foi só começar a escavar e descobriram-se muitas outras ligações perigosas.

Tão perigosas que chegaram aos cemitérios!

Vocês lembram-se das esquisitas Associações de Amizade Portugal-Albânia, ou Portugal-Coreia do Norte?

Pois existe uma Associação dos Amigos dos Cemitérios de Lisboa (AACL)!

Isso mesmo: um grupo de pessoas que se juntam porque gostam de cemitérios – e gostam tanto que se auto-intitulam amigos dos cemitérios.

É que uma pessoa pode trabalhar com cadáveres, como fazem os especialistas em Medicina Legal, mas daí a gostar de cadáveres ao ponto de se dizer amiga deles, vai uma diferença muito grande.

Mas pronto – cada maluco com a sua mania – e esta associação reúne pessoas que são amigas dos cemitérios de Lisboa.

Pois o PSD descobriu que a maior parte dos membros da Associação são do PS: o presidente é Jorge Ferreira, fotógrafo do PS; o vice-presidente é Pedro Almeida, funcionário do PS no Parlamento; e entre os membros estão Inês César (sobrinha do líder parlamentar do PS, Carlos César) e a sua mãe, Patronícia (deputada municipal do PS), e o seu pai, Horácio (irmão de Carlos César), João Soares (filho de Mário Soares), e Diogo Leão (deputado do PS).

Na minha opinião, é assustador que tantos membros do PS sejam amigos dos cemitérios. No mínimo, cheira a almas do outro mundo…

Mas, afinal, o que é que esta Associação quer fazer com os cemitérios?

Pelos vistos, quer transformar o cemitério dos Prazeres, numa espécie de Parque Temático dos Mortos Ilustres, juntando, um mesmo local, os restos mortais de Agostinho da Silva, Lourdes Pintassilgo, João César Monteiro, Raul Solnado, Carlos Paredes, Al Berto, Laura Alves, Alfredo Marceneiro e outros…

Assim, os turistas poderiam visitar o cemitério e, passando perto dos jazigos respectivos, ouviriam a guitarra de Paredes, um poema de Al Berto, um fadinho do Marceneiro, etc.

Cobravam-se uns bilhetes e a autarquia teria mais uma fonte de riqueza…

O PSD denunciou esta tramóia, não porque esteja contra a ideia mórbida, mas apenas porque a Associação dos Amigos dos Cemitérios não inclui familiares do PSD…

Mas esta amizade pelos mortos não é apanágio dos partidos do centrão.

Também a extrema-direita, consubstanciada no inacreditável Partido Chega, liderado pelo não mesmo inacreditável André Ventura, exibe uma atracção pelos mortos. Atracção fatal, claro…

Pois o Chega entregou, no Tribunal Constitucional, cerca de dez mil assinaturas para obter a legalização.

Dessas dez mil, cerca de 2600 assinaturas foram consideradas inválidas porque alguns desses subscritores já tinham morrido.

O Tribunal dá, como exemplo, o Sr. Adelino Lopes, que facilitou a sua assinatura para a legalização do Chega e que, caso ainda fosse vivo, já teria 114 anos!

Por maioria de razão, o Partido Chega devia também fazer parte da Associação dos Amigos dos Cemitérios!

E o PSD, por se ter lembrado de levantar esta questão em pelo período eleitoral, merecia, também, um lugarzinho na Associação.

Aliás, todos deveriam ir parar ao cemitério dos Prazeres, onde estar morto deve ser um gozo…


25 de Abril Sempre!

Thursday, April 25th, 2019

Em novembro/dezembro de 1973 estávamos em plena crise petrolífera, por causa da guerra israelo-árabe.

As filas para as bombas de gasolina eram a regra e só podíamos pôr 20 litros por bomba. A 21 de novembro, os jornais noticiavam que a velocidade máxima tinha sido estabelecida nos 100 km/hora na autoestrada (ah! ah! ah!), que terminava ali para os lados de Aveiras de Cima, e 80 km/hora fora das localidades.

No entanto, a principal notícia ficava escondida e tinha a ver com os estudantes universitários.

Um decreto-lei determinava que as Universidades podiam recusar a matrícula a estudantes.

E porquê?

Porque tinham tido más notas? Porque não tinham conseguido a média necessária para entrar na Universidade?

Parece que não.

As Universidades podiam recusar a inscrição de estudantes que “justificadamente fossem considerados como prejudiciais à disciplina dos estabelecimentos”. (notícia de 25/11/1973)

Cerca de um mês depois, a 12.12.1973, o jornal República noticiava que a Faculdade de Letras tinha suspenso dez alunos e que no Instituto Superior Técnico, dois estudantes tinham sido presos depois da polícia ter invadido a sala de alunos.

E ainda há quem queira 300 salazares!…