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“…Like Clockwork”, Queens of Stone Age

Saturday, June 15th, 2013

Tive o prazer que conhecer os QOSA através do disco Songs For The Deaf (2002). Quando o ouvi pela primeira vez, lembrei-me da cena de um filme do Woody Allen, em que ele, num clube onde está a actuar uma banda de hard rock e, perante o barulho ensurdecedor e o ar assustador dos membros da banda, pergunta: «E no final ele vão fazer reféns»?.

queens-of-the-stone-age_like-clockwork-608x6082Foi o que imaginei depois de ouvir aquele disco desta banda californiana. O ambiente soturno das composições, a voz mais ou menos cavernosa do vocalista, a energia das guitarras e o ritmo frenético mas, ao mesmo tempo, algo fúnebre, fazia temer o pior.

E, no entanto, gostei.

Muito.

O disco seguinte, Lullabies to Paralyse (2005), já não me entusiasmou tanto e Era Vulgaris (2009), passou-me ao lado.

Saiu agora este …Like a Clockwork e estou rendido.

Da formação inicial dos QOSA já só resta o líder Joshua Homme, que nasceu há 40 anos, na Califórnia. O homem é o principal vocalista e também toca guitarra e baixo e cheira-me que os Queen of Stone Age é uma coisa muito dele, razão pela qual os outros músicos nunca aquecem o lugar.

Neste disco, Dave Grohl volta a estar na percussão e Nick Oliveri no baixo (depois de terem sido despedidos, foram readmitidos), mas temos algumas participações notáveis, como Tent Reznor (dos NIN) e Elton John (quem diria?).

E o disco é bom do princípio ao fim, com faixas muito fortes, como If I Had a Tail e Smooth Sailing, a mais comercial My God Is The Sun, mas todas muito recomendáveis.

Aconselho vivamente.

Ray Manzarek – mais uma porta que se fecha

Tuesday, May 21st, 2013

A primeira canção dos Doors de que me lembro: Hello, I Love You.

ray manzarekCurta e eficaz. Destaque para o vozeirão de Jim Morrison e para as teclas de Ray Manzarek, que morreu ontem, vítima de cancro biliar, aos 74 anos.

Morrison e Manzarek formaram os Doors, em Chicago, em 1965, juntamente com Jonh Densmore (bateria) e Robby Krieger (guitarra).

Nos anos 60, em Portugal, ouvia-se António Calvário, Artur Garcia, Simone de Oliveira, Gianni Morandi, Sylvie Vartan, Adamo.

Ouvir, na rádio, uma canção dos Beatles, era quase uma cena clandestina.

A pouco e pouco, a pop britânica foi ganhando espaço e, às tantas, já era banal ouvirem-se as coisas mais soft: Herman’s Hermits, Bee Gees, Hollies; ou os americanos mais inofensivos: Beach Boys, Turtles.

Mais raro era escutar os Rolling Stones (Let’s Spend the Night Together foi considerado obsceno!) e os Doors.

Destes, o Light My Fire era o tema mais conhecido, embora fosse mais fácil ouvi-la na versão do José Feliciano, do que na dos Doors – e nunca foi a minha preferida.

Sempre gostei mais do já citado Hello, I Love You, e de Strange Days, Riders of The Storm, Love Me Two Times, para não falar no fundamental The End, sobretudo acompanhado das imagens de Apocalipse Now!, de Coppola.

Nos anos 60, as bandas (dizia-se, os conjuntos…) raramente tinham teclas nas suas formações. Lembro-me dos Animals, Spencer Davis Group, Procol Harum, Moody Blues – mas as teclas de Manzarek eram diferentes e, na música dos Doors, tinham muito mais importância que as guitarras.

Com a morte de Jim Morrison, os Doors morreram também, embora Manzarek tenha continuado a sua vida como músico.

Mas, como se sabe, o que já foi, não volta a ser.

Morreu Jon Lord

Tuesday, July 17th, 2012

Morreu ontem, aos 71 anos, na sequência de neoplasia do pâncreas, o teclista e fundador dos Deep Purple, Jon Lord.

Juntamente com os Led Zeppelin, os Deep Purple eram dos meus grupos preferidos, nos anos 60 e 70 (agora, dir-se-ia “bandas” e não “grupos” ou “conjuntos”), mas os Deep Purple tinham uma característica única, conferida por Jon Lord e que era a tentativa de fazer a fusão entre o rock e a música dita erudita.

Em 24 de Setembro de 1969, Lord conseguiu que o seu “Concerto for Group and Orchestra” (cá está, “grupo” e não “banda”…) fosse tocado no Royal Albert Hall, pela Royal Philarmonic, conduzida por Malcolm Arnold.

Há quem diga que estas tentativas eram como a água no whisky – estragavam o rock e estragavam a música erudita.

Eu gostei e ainda gosto, de vez em quando, de ouvir o disco, que foi editado em 1977 e que saiu em cd em 1990.

Lord começou a estudar piano aos 5 anos e era fã de Bach e isso nota-se nos seus intermináveis solos, em que o fraseado “clássico” é bem evidente.

Em 1968, formou os Deep Purple, juntamente com o baterista Ian Paice.

A banda teve várias formações, mas estes dois mantiveram-se até que, em 2002, Lord abandonou as lides.

A formação com mais sucesso foi a que contou com Lord, Paice, Ian Gillan (voz), Richie Blackmore (guitarra), Roger Glover (baixo).

Lord é co-responsável pelos grandes êxitos dos Deep Purple, desde “Speed King”, passando por “Smoke on the water”, “Child in time” e muitos outros.

Aqui fica um solo de Jon Lord, para ir recordando:

http://www.youtube.com/watch?v=5fZBiqVjEhw

“Life” – de Keiht Richards, com James Fox

Sunday, April 22nd, 2012

Diz-se que, quando o mundo acabar, restarão as baratas e Keith Richards. Ao ler esta autobiografia percebe-se porquê.

Numa linguagem adequadamente coloquial, o guitarrista e co-fundador dos Rolling Stones conta-nos as histórias da sua vida – e muitas histórias tem ele para contar!

Começamos pela infância de Keith, na Inglaterra do post-guerra, e ficamos a saber que os pais viviam com dificuldades. Filho único da Doris e do Bert, Keith cedo se destacou pelo mau comportamento:

Na página 62 conta-nos a perseguição que ele e outros moviam a um miúdo que se «julgava um generalzinho, só por ser capitão da equipa desportiva, o melhor da turma, e o representante de todos os delegados. Andava sempre de peito inchado e era muito arrogante com os miúdos mais novos. Decidimos pagar-lhe da mesma moeda. Lembro-me bem dele, chama-se Swanton. Chovia e fazia frio. Primeiro, despimo-lo, depois perseguimo-lo até ele trepar a uma árvore. Só lhe deixámos o boné com as fitinhas douradas. Muito depois de ele descer da árvore, o Swanton viria a tornar-se professor de estudos medievais na Universidade de Exeter.»

A memória de Richards é prodigiosa, lembrando-se de como e quando e com quem tocou o quê – ou então, foi capaz de manter uma espécie de diário, estes anos todos, o que pareceria improvável para um tipo que, como ele, foi heroinómano muitos anos, para além de ter experimentado todo o tipo de drogas, lícitas e, sobretudo, ilícitas.

Richards conta-nos como nasceram os Rolling Stones, uma banda despretensiosa, que apenas queria tocar blues de Chicago mas que, quase por acaso, começou a fabricar grandes êxitos. Um dos primeiros foi As Tears Go By, que valeram a Richards, as primeiras libras a sério.

Diz ele, na página 181: «Ainda me lembro do primeiro dinheiro a sério que recebi. (…) Punha-me a olhar para as notas. Contava-as, voltava a admirá-las. Tocava-as, cheirava-as. Não fiz nada com elas! Só as guardei numa caixa, enquanto pensava: “Foda-se! A massa que eu tenho!” Não queria comprar nada em particular e também não a queria estoirar. Pela primeira vez na vida, tinha dinheiro… “Talvez compre uma camisa nova, cordas novas para a guitarra”. Mas era, sobretudo: “Nem acredito nesta merda!” Com as fuças da rainha bem impressas, assinadas pelo tipo certo. Nunca tinha tido tanto dinheiro nas mãos., mais do que o meu pai ganhava num ano, ele que se matava a bulir.»

Richards era mesmo um pobretanas e, graças à música, tornou-se num milionário, proprietário de Bentleys e de várias mansões em, pelo menos, três continentes.

Autor de muitas das músicas dos Stones (Mick Jagger, embora também componha, dedica-se mais às letras), Richards vai-nos contando os altos e baixos da banda, a morte de Brian Jones, a saída de Bill Wyman, a entrada e a saída de Mick Taylor, a entrada de Ronnie Wood e, por vezes, não é nada meigo para com os seus companheiros.

Critica muito Brian, pelo seu gosto pelo vedetismo e por andar sempre tão drogado que pouco contribuía para a banda, fala, amargamente, dos desentendimentos com Jagger, nos últimos 20 anos, mais coisa menos coisa, o que não os impediu de continuar a compor e fazer mega-digressões. De Charlie Watts, o baterista, só diz bem…

Fala-nos, também, das suas namoradas e esposas e, claro, da sua dependência da heroína.

Na página 329, a propósito de uma das muitas curas a que se submeteu: «Não sei bem qual é a ideia que as pessoas em geral fazem de uma verdadeira crise de privação. (…) O corpo revira-se todo de dentro para fora; rejeita-se a si mesmo durante três dias. Sabes que depois disso há-de acalmar, mas serão os três dias mais longos da tua vida. É então que te perguntas: “Por que raio me sujeito eu a isto, quando podia estar a viver uma puta de uma vida perfeitamente normal de estrela de rock cheia de pasta?” Em vez disso, estás ali aos vómitos e a trepar pelas paredes. Por que é que te sujeitas a isso? Não sei, continuo sem saber. Com a pele arrepiada e as tripas num remoinho, braços e pernas aos safanões incontroláveis, vomitas-te e cagas-te ao mesmo tempo, tens merda a sair-te do nariz e dos olhos. À primeira vez que acontece a sério, um homem sensato diz: “Estou agarrado”. Mas nem isso impede um homem sensato de voltar à carga.»

Uma boa parte do livro é dedicada às digressões dos Stones, começando pelas primeiras, em ambiente familiar, com um ou dois autocarros, até às mais recentes, que envolvem centenas de pessoas e de veículos. Os acompanhantes dessas digressões podem ser, por vezes, bem curiosos, como um tal Dr. Bill (nome fictício), que acompanhou a banda na digressão de 1972.

Richards conta, na página 333: «Mas o Dr. Bill estava ali, sobretudo, para caçar pachachas. Sendo ele um médico jovem e atraente, foi coisa que não lhe faltou. Mandou fazer cartões de visita: “Dr. Bill”, digamos assim, “Médico dos Rolling Stones”. Antes do concerto começar, ele escrutinava cuidadosamente o público e entregava vinte ou trinta cartões às gajas mais boas que encontrasse, mesmo que estivessem com namorado. No verso do cartão, o nome do hotel e o número da suite. E mesmo as tipas com namorado apareciam, mais tarde, para o visitar. Mostravam o cartão na recepção e o Dr. Bill sabia que de entre seis ou sete miúdas, pelo menos uma ou duas havia de comer, só por lhes prometer que as apresentaria aos Stones.  Queca garantida todas as noites. Além disso, tinha uma mala cheia das mais variadas substâncias, Demerol ou qualquer merda que lhe pedisses.»

Problemas com as autoridades teve Richards de sobra, tendo estado detido várias vezes, a maior parte delas por posse de droga. Mas, certa vez, na Austrália, a razão foi outra.

Conta ele, na página 355: «E ainda houve a pequena temporada que eu e o Bobby passámos com duas gajas que engatámos em Adelaide. (…) Tinham ácido, que nem é uma das minhas drogas preferidas, mas tínhamos dois ou três dias de folga em Adelaide, as tipas eram jeitosas e viviam num pequeno bungalow hippie no cimo de uma colina, muitas velas e incenso e candeeiros a petróleo cheios de fuligem. (…) E quando tivemos que partir para Perth, na outra ponta da porra do continente, , dissemos-lhes: “Por que é que não vêm connosco?” Vieram mesmo. Estávamos todos mais pedrados que o Grand Canyon quando entrámos no avião. A meio caminho entre Adelaide e Perth, saíram de repente as duas da casa de banho, seminuas. Tinham-se estado a comer lá dentro e saíram aos saltos e aos risinhos, as destrambelhadas das tipas. (…) E, de facto, detiveram-nos aos quatro por algum tempo, depois de aterrarmos.»

Quase no final do calhamaço, Keith Richards conta o episódio recente, em que caiu de uma árvore, tendo feito uma fractura do crânio e respectivo hematoma subdural. E diz, na página 562: «Receitaram-me um medicamento chamado Dilantin, que torna o sangue mais espesso. Por causa disso, não voltei a snifar coca, que o torna mais liquefeito, tal como a Aspirina. Foi o Andrew quem mo explicou, na Nova Zelândia. “Faça o que fizer, acabou-se a cocaína!” Tudo bem, pá. A bem dizer, já tinha dado à narina quanto chegasse para uma vida inteira; não sinto a falta da coca nem um bocadinho. Acho que foi ela que se fartou de mim.»

De facto, com tantos excessos cometidos ao longo de quase 70 anos, chegamos à conclusão que foram as drogas e o álcool que se fartaram deste Rolling Stone genuíno.

“Life” é um livro que se lê com agrado, como um conjunto de histórias mais ou menos divertidas e, ainda, como um testemunho de um dos protagonistas da revolução que a música pop-rock causou nos usos e costumes do mundo ocidental, nos finais da década de 60.

Como bónus, Richards explica-nos como afina as suas mais de cem guitarras, com 5 cordas e em open tunning.

Nina Simone – The best

Sunday, April 15th, 2012

Nina Simone é uma daquelas cantoras/pianistas difíceis de classificar: jazz, blues, soul, rock?

Um pouco de tudo, sem dúvida.

Este disco, à venda na Amazon por meia dúzia de libras, tem 21 dos temas mais conhecidos da longa carreira de Simone (1933-2003).

Destaco os meus preferidos: “Ain’t got no, I got life”, “My baby just cares for me”, “Don’t let me be misuntersood”, “Do I move you”, “Nobody’s fault but mine” e a versão da canção dos Bee Gees, “To love somebody”.

“Bad As Me” (2011) – Tom Waits volta a atacar!

Thursday, October 27th, 2011

Começo por dizer que pode haver conflito de interesses, já que, desde os anos 80 do século passado que Tom Waits é o meu autor-intérprete-performer preferido.

Dito isto, saúdo largamente mais um disco do Tom Waits (dizem que é o 17º, se contarmos só o de originais). Tenho-os todos, claro.

Divido a carreira de Waits em duas fases: antes e depois do seu casamento com Kathleen Brennan.

Antes, Waits era um excelente bluesman, com muita influência do jazz. Atingiu o seu topo, na minha opinião, com a banda sonora de “One From The Heart“, filme de Coppola.

Foi durante as filmagens que Waits conheceu Brennan, que era funcionária da Zoetrope, a empresa produtora de filmes, de Coppola.

A partir da sua união com Brennan, Waits começou a explorar outras sonoridades, enrouqueceu mais a voz, e começou a juntar tangos, valsas, salsas e outras esquisitices ao seu reportório, mantendo, no entanto, os blues como norte. Mais recentemente, o rock acabou por absorvê-lo e até lhe deram um espaço no Hall of Fame.

Este “Bad As Me” tem 13 novos temas que já ouvi muitas vezes. Quero com isto dizer que, no fundo, Tom Waits está sempre a interpretar os mesmos temas, com os mesmos acordes, mas sempre com novas roupagens.

Quando começamos a ouvir o acordeão de “New Year’s Eve”, ou a percussão e a guitarra de “Get Lost”, dizemos “já ouvi isto em Mule Variations, ou em Raindogs, ou em Swordfishtrombones, ou em Real Gone, etc, etc.” – mas isso é bom! É bom ouvirmos um novo disco do Tom Waits e não ficarmos defraudados.

Tom Waits rodeia-se dos cúmplices do costume: Marc Ribot, na guitarra, Casey Waits, filho de Tom Waits, na percussão, Clint Maedgen, nos saxes, Ben Jaffe, no trombone e clarinete, entre outros.

Mas há dois novos cúmplices, o Flea, dos Red Hot Chili Peppers e Keith Richards. Olha que dois!

Richards e Jagger são citados por Waits no tema “Satisfied”. Richards toca o seu habitual riff de guitarra e Waits vai berrando que está Satisfied, numa alusão ao célebre “Satisfaction”, dos Rolling Stones. Keith Richards toca guitarra em mais algumas faixas e faz coro com a voz de Waits em “Last Leaf”, outra balada típica de Waits, embora também faça lembrar algumas das (poucas) canções que Richards compôs para os Stones.

“Kiss Me” é uma balada muito jazzy, em que Waits faz o seu habitual número de crooner; “Chicago” é uma espécie de melopeia, com o ritmo de um comboio; “Bad As Me” é mais uma daquelas furiosas interpretações de Waits – e todas as faixas são altamente recomendáveis.

Vai ficar no meu toca-discos durante as próximas semanas.

Obrigado, Doug Fieger

Wednesday, February 17th, 2010

Em 1973 saíram “Dark Side of The Moon”, dos Pink Floyd e “Houses of the Holy”, dos Led Zeppelin.

Depois disso, entreguei-me à música popular brasileira (Chico, Caetano, Gilberto Gil), à música portuguesa de intervenção  (Zeca, Zé Mário Branco, Sérgio Godinho, Adriano Correia de Oliveira…) e à chamada música erudita.

Papei de tudo, da Handel a Xenakis, de Mozart a Bartok, de Beethoven a Eric Satie.

Com o 25 de Abril, a coisa ainda se agravou mais. Era reaccionário gostar de rock’n’roll.

Foi em 1979, a fazer o estágio de Saúde Pública, em Armamar que, sem acesso ao gira-discos, recomecei a ouvir a Rádio Comercial e foi “My Sharona” que me fez voltar a bater o pé no chão, a compasso e, sem que ninguém visse, a abanar a cabeça, ao ritmo frenético dos Knack.

Deixei-me de preconceitos e recomecei a ouvir pop-rock.

O responsável foi Doug Fieger, líder dos Knack.

Morreu no passado domingo, com a minha idade, e um tumor cerebral.

Não conheço mais nenhuma música dos Knack, mas obrigado pela Sharona, pá!