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“A Minha Luta -4: Dança no Escuro”, de Karl Ove Knausgard (2010)

Friday, February 3rd, 2017

Karl Ove Knausgard continua a sua luta, com o quarto volume deste projecto monumental, que consiste em contar a sua vida com pormenores insignificantes e, aparentemente, sem deixar de fora situações mais embaraçosas, como o facto de ter ejaculação precoce e ter demorado tanto tempo até conseguir perder a virgindade.

Este quarto volume narra a experiência de Knausgard como professor; pelos vistos, na Noruega é possível tal coisa: depois acabar o ensino secundário e com apenas 18 anos, Knausgard foi viver para uma pequena aldeia piscatória, no norte do país, onde deu aulas durante um ano.

Ao longo de 400 e tal páginas, Knausgard descreve as aulas, a casa onde viveu durante aquele ano, como ocupava os tempos livres, a atracção que sentiu por algumas das alunas e, sobretudo, as grandes bebedeiras. Ao que parece, todos os jovens bebem muito na Noruega e a bebedeira é frequente.

No final do livro, já depois de ter terminado o ano lectivo e de ter regressado a Bergen, Knausgard vai com um amigo a um festival qualquer de rock e aí, finalmente, depois de várias garrafas de vinho, lá consegue perder a virgindade com uma desconhecida gorducha.

Dos quatro volumes deste Minha Luta, este terá sido o menos interessante, na minha opinião.

Os outros volumes são: A Morte do Pai; Um Homem Apaixonado; A Ilha da Infância.

“A Ilha da Infância”, de Karl Ove Knausgard (2009)

Tuesday, February 9th, 2016

E cheguei ao fim da metade deste projecto colossal do norueguês Knausgard, com o título global, mais ou menos provocador, de A Minha Luta.

ilha da infanciaDepois de A Morte do Pai , o meu preferido até agora, e de Um Homem Apaixonado, este A Ilha da Infância custou-me um pouco a acabar.

Claro que são interessantes as descrições das aulas de natação, das idas à escola, das brincadeiras de um grupo de miúdos que teve o privilégio de viver uma infância ao ar livre, sempre de bicicleta de um lado para outro; no entanto, este terceiro volume da obra de Knausgard não tem nenhuma daquelas incursões teóricas e/ou filosóficas sobre a escrita, a pintura, a arte em geral, ou sobre as virtudes e os defeitos da espécie humana.

São 400 páginas de brincadeiras, alegrias e desilusões de um miúdo, muitas delas dedicadas ao seu ódio de estimação: o pai austero, sempre pronto a humilhá-lo e a castigá-lo; percebe-se agora bem o ódio que Knausgard destila pelo pai no primeiro volume.

Uma coisa me deixa um pouco perplexo: a infância de Kanusgard pode ter sido recheada de brincadeiras, mas raramente há um gesto de afecto; do pai, nem pensar, mas também a mãe me parece muito fria e ausente e a relação com o irmão mais velho é isenta da cumplicidade que quase sempre existe entre irmãos.

Na página 241, Knausgard resume bem a influência do pai:

«A minha mãe salvou-me, porque, se não estivesse estado presente, eu teria crescido somente com o meu pai e, nesse caso, ter-me-ia suicidado, mais tarde ou mais cedo, de uma maneira ou de outra.»

Noutra altura, Knausgard conta como tudo naquela família obedecia a rotinas e rituais, nomeadamente, comer-se uma maçã a meio da tarde. Certo dia, o pobre do Karl Ove terá comido duas, pensando que o pai não desse por isso; pois no dia seguinte, o pai obrigou-o a comer várias maçãs, uma atrás da outra, até ele quase vomitar, para lhe provar que uma maçã por dia era o número certo!

Aguardemos pelo quarto volume.

“Um Homem Apaixonado”, de Karl Ove Knausgard (2009)

Saturday, August 8th, 2015

E já está despachado o segundo tijolo dos seis que constituem este momumental projecto que é “A Minha Luta”, da autoria do norueguês Knausgard.

homem apaixonadoDepois de A Morte do Pai, este Um Homem Apaixonado tem, como pano de fundo, o segundo casamento do autor, com Linda, e o nascimento dos três filhos, Vanja, Heidi e Jon, em apenas 4 anos.

O título é um pouco enganador porque, apesar de apaixonado, Karl Ove passa o tempo a discutir com Linda que, ainda por cima, é bipolar.

O autor debate-se entre a vidinha de todos os dias, fazer, comer limpar a casa, mudar as fraldas aos miúdos, levá-los ao infantário, aturá-los, fazer o jantar, levar o lixo para os contentores e arranjar tempo para escrever.

Tal como no primeiro volume, ora levamos com a descrição pormenorizada de como Karl Ove limpa o chão da cozinha, incluindo que tipo de detergente usa, ora apanhamos com uma exposição demorada sobre Dostoievsky ou qualquer outro clássico.

E podemos dizer que, ao fim e ao cabo, não se passa nada. Karl Ove discute com Linda ou com a vizinha de baixo, que é russa e faz barulho fora de horas, mudam-se de Estocolmo para Malmo, de vez em quando vai fazer leituras a Universidades, compra livros e discos, tem jantares com amigos, fala sobre tudo e nada com o seu amigo Geir e, quase no final do livro, vai jogar à bola com um grupo de conhecidos, cai e fractura uma clavícula, o que deixa Linda muito chateada porque, nos dois meses seguintes, terá que ser ela a tomar conta dos três miúdos sozinha.

Delicioso!

No entanto, notei uma incongruência no autor. Na página 457, numa conversa com Geir, Karl Ove diz:

«Lembro-me de a Tonje estar sempre a falar de uma coisa terrível que lhe tinha acontecido, muitos anos antes. (…) Ao fim de dois anos, acabou por me contar tudo. Eu não tinha bebido. E ouvi-a com toda a atenção, sem pensar em mais nada. Ouvi atentamente cada palavra que ela dizia e, depois, falámos muitas vezes sobre o assunto. Mas acabei por esquecer tudo. Passados poucos meses, já não lembrava fosse do que fosse. Nada.»

E o autor continua neste tom, lamentando-se por ter, na altura, apenas 35 anos e ter já a memória tão queimada… e no entanto, ao longo destes dois livros relata episódios do passado, até da sua adolescência, com grande profusão de pormenores, incluindo longos diálogos.

Estamos, portanto, perante uma autobiografia ficcionada, e não há mal nenhum nisso.

Só um pequeno pormenor, quanto à edição, da responsabilidade da Relógio d´Agua (tradução do inglês de Miguel Serras Pereira): talvez com a pressa de lançar o livro no mercado, existem vários erros, digamos, tipográficos, que uma revisão aturada teria evitado.

Por exemplo: “O tema da discussão eram agora” (página 38); “chávenas de café e piores numa bandeja” (em vez de pires, página 297), “Linda pusera em cima da mesa pratos da cozinha que trouxera da cozinha” (página 386). E há mais.

Fico à espera do 3º volume.

“A Morte do Pai”, de Karl Ove Knausgard (2009)

Monday, April 13th, 2015

Knausgard nasceu em 1968 em Oslo, capital da Noruega, e vive actualmente em Malmo (Suécia).

knausgardEstes dois factos simples talvez ajudem a perceber uma obra como esta. Talvez o facto de ser originário do norte da Europa, possa ajudar a explicar a frieza com que este escritor se expõe neste projecto, que envolve seis livros autobiográficos, sob o título genérico e provocatório de “A Minha Luta”.

O primeiro livro, “A Morte do Pai”, é sobre isso mesmo, a morte do pai de Knausgard; a relação entre ambos não terá sido a melhor e isso nota-se na amargura com que o autor descreve o seu pai, um professor de província, que se tornou alcoólico no fim da vida.

morte do paiNestas primeiras 377 páginas (parece que os seis livros somam 3500 páginas…), Knausgard conta-nos diversos episódios da sua infância e juventude, a sua relação com uma mãe, que me pareceu ausente, e com o irmão mais velho, que lhe serviu de modelo durante algum tempo. A certa altura, o livro centra-se na morte do pai e Knausgard descreve minuciosamente, os dias que passou com o irmão a limpar a casa onde o pai vivia e que se tinha transformado num armazém de lixo e garrafas vazias – e, nesses dias, reencontra a avó paterna, já um pouco demente e, também ela, dependente do álcool.

Minucioso é o termo.

Knausgard preenche páginas e páginas com a descrição minuciosa de coisas banais.

Um exemplo, na página 275:

«Tirei um saco plástico da gaveta, esvaziei os dois cinzeiros que estavam na mesa, fechei-o e deitei-o no saco de lixo preto meio cheio que estava no canto, arranjei um pano, limpei o tabaco e as migalhas da mesa, pus o pacote de tabaco e a máquina de enrolar a um canto, sob o parapeito da janela, abri a janela e prendia-a com o ferrolho.»

Ou este outro, na página 320:

«Na cozinha, despejei a água, torci o pano e pousei-o na borda do balde, e a minha avó sentou-se no seu lugar de sempre. Quando tirei o cinzeiro da mesa, ela levantou a cortina e olhou para fora. Esvaziei o cinzeiro, voltei, peguei nas chávenas, pu-las no lava-louça, humedeci o pano da cozinha, espalhei detergente na mesa e estava a limpá-la quando Yngve entrou com um saco em cada mão. Pousou os sacos e começou a tirar coisas. Primeiro aquilo que iríamos comer e que ele pousou na bancada, quatro filetes de salmão embalados a vácuo, um saco de batatas com vestígios de terra, uma couve-flor e um pacote de ervilhas congeladas, e depois todas as outras coisas, algumas que enfiou no frigorífico e outras no armário ao lado».

De salientar o pormenor dos filetes de salmão embalados no vácuo e das batatas com vestígios de terra…

E descrições destas abundam no livro.

Mas é assim a vida, não é?… feita de rotinas, de gestos mecânicos de coisas comezinhas.

Um dos livros mais marcantes dos últimos tempos.