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Há vidas muito difíceis!

Saturday, September 28th, 2013

Não conheço a Maria João Bastos, não me lembro de a ter visto alguma vez, quer ao vivo, quer no écran e se passasse por ela na rua, não a reconheceria – e tenho a certeza que ela também não me conhece…

No entanto, no passado sábado, ao folhear a revista Tabu, que sai com o semanário Sol, reparei em algumas páginas dedicadas a uma entrevista a essa tal Maria João Bastos.

Não tive pachorra para ler a entrevista, mas as pequenas caixas que acompanhavam as fotografias da actriz chamaram-me a atenção.

Um tipo lê uma dessas caixas, fica tão surpreendido com o que está a ler que decide ler as restantes.

E só pela leitura das caixas ficamos a saber quão dura e difícil tem sido a vida de Maria João Bastos.

Comecemos pela primeira caixa, que diz: «Em Equador, foi uma mulher de alta sociedade com um amor proibido. Teve aulas de inglês, equitação e valsa».

Parabéns para ti, Maria João! Passaste a saber falar inglês, dançar o Danúbio Azul e, o que é mais importante, aprendeste a montar, que é uma coisa que dá sempre jeito…

Passemos a outra caixa, mais surpreendente: «A menina selvagem de A Flor do Mar levou-a a passar um dia a observar macacos e uma semana no mato».

Há quem vá pentear macacos, a Maria João foi observá-los. Um dia inteiro, coitada da rapariga! E uma semana inteira no mato também deve ter sido uma grande espiga. Em que mato terá sido? Ou terá sido mata?…

Adiante. Terceira caixa: «Em Mistérios de Lisboa, enquanto interpretou esta mulher sofrida, só usou perfume de alfazema».

Muito deve ter sofrido a Maria João, pobrezinha! Ela que está habituada ao Jimmy Choo, ao J’Adore, ao Channel nº5, só cheirava a alfazema!

Quarta caixa: «A estrela de Destinos Cruzados, intérprete de Pancadinhas de Amor, obrigou-a a ter aulas de canto e dança».

Nesta altura, a moça já sabe montar, valsar, falar inglês, imitar macacos, cantar e dançar. Ufa!

Mas há mais: «Para dar vida à criminosa da série Bairro, fez treinos bi-diários de ginásio, teve aulas de tiro e frequentou o Bairro Padre Cruz».

Vejam lá se a vida da Maria João não é uma estafa: treinos bi-diários! E teve aulas de tiro o que, pelos vistos, a preparou para frequentar o Bairro Padre Cruz porque, como se sabe, para frequentar aquele bairro é preciso saber usar uma arma!

Interrogo-me: como terá a Maria João frequentado o Bairro Padre Cruz? Subiu e desceu a rua principal algumas vezes, roçou o cu pelas esquinas, deu umas voltas de carro?… Mistério…

Última caixa e a mais dolorosa: «No filme Giacomo Variations, protagoniza uma cena ao lado de John Malkovich que a obrigou a estar 24 horas sem atender o telefone, apenas a ver filmes do actor».

Caramba! Um dia inteiro sem atender o telefone! Uma verdadeira tortura! Não sei o que será mais difícil: usar só alfazema, estar um dia inteiro a observar macacos ou passar 24 horas sem atender o telefone!

Mas uma coisa é certa: há vidas muito difíceis, porra!

“Skyfall”, de Sam Mendes

Thursday, November 1st, 2012

Só em 1981 vi o meu primeiro 007. Foi o For Your Eyes Only, com o Roger Moore, no S. Jorge.

Antes disso, achava que os filmes do 007 eram mais um produto da decadência da sociedade burguesa, que eram uma patetice pegada, inverosímeis e inúteis.

E não é que são mesmo?

E não é que, por serem isso mesmo, os filmes do 007 são bem divertidos?

Depois daquele meu primeiro 007, vi todos os que ficaram para trás, graças ao dvd, e fui ao cinema ver todos os que vieram depois.

Digamos que é assim uma espécie de tradição, como ir à Feira do Livro – um tipo pode não comprar livro nenhum, mas acha piada ao passeio.

Gosto deste 007 interpretado pelo Daniel Craig. É duro à brava, machão quanto baste, raramente sorri, fala pouco e é mais humano, no sentido de que até chora!

E também gostei deste Skyfall.

A clássica cena de abertura, que é sempre uma perseguição, é bem esgalhada, e a cena final é épica, uma espécie de Home Alone para adultos. O argumento é engenhoso, mas não muito complexo (ninguém quer pensar muito, quando vai ver um 007), e Javier Bardem faz um vilão excelente.

Vale a pena.

“The Girl With The Dragon Tattoo” (2011), de David Fincher

Saturday, January 28th, 2012

Fincher conseguiu uma excelente adaptação do livro de Stieg Larsson. Li “Os Homens que Odeiam as Mulheres” em agosto de 2009 e ontem, ao ver o filme, recordei tudo o que li e pareceu-me que nada de importante ficou de fora.

The Girl With The Dragon Tattoo” é filmado a um ritmo alucinante, sem momentos de quebra. O ritmo é logo marcado pelo genérico, que nos dá muitas informações sobre a história, que só quem já leu o livro reconhece, e pelo tema musical que acompanha essa sucessão de imagem – a excelente “Imigrant Son”, dos Led Zeppelin, numa versão superior de Trent Reznor e Karen O.

E depois, a fotografia de Jeff Cronenweth, é cinzenta, quase a preto e branco, o que vai muito bem com a história e com a luz própria da Suécia, durante o Inverno.

Como já é público, Stieg Larsson morreu pouco depois de ter assinado o contrato para publicar a sua trilogia Millenium. Grande fumador, regressava à redacção da sua revista, a Fox, quando deparou com o elevador avariado. Decidiu subir os sete andares e morreu, pouco depois de chegar lá acima.

Se estivesse vivo, era bem capaz de aprovar a escolha de Rooney Mara para interpretar o papel de Lisbeth Salander, a verdadeira heroína desta história.

Mara pegou bem na personagem e, para quem leu o livro, é uma Lisbeth convincente.

Quanto a Daniel Craig, também não tem grande dificuldade em personificar o jornalista/investigador Mikael Blomkvist.

Mas o principal culpado do excelente resultado final deste filme é David Fincher.

Desta vez, tenho que aplaudir quem decidiu traduzir “The Girl with the Dragon Tattoo” por “Os Homens que Odeiam as Mulheres”, que é a tradução correcta do título original do livro, que é “Man Som Hatar Kvinnor”.

“Midnight in Paris”, de Woody Allen

Thursday, September 29th, 2011

E vão 36 filmes do Woody Allen.

Até “Matchpoint” (2005), não falhei nenhum. Desde então, cansei-me um pouco de Woody Allen e só vi “Vicky Cristina Barcelona” (2008) e “Whatever Works” (2009), tendo falhado outros três filmes.

Mas Allen ainda não perdeu o jeito e este “Midnight in Paris” está bem esgalhado.

Ao estilo de “The Purple Rose of Cairo” (1985), o protagonista (Owen Wilson) torna-se personagem da sua própria fantasia.

Em “A Rosa Púrpura do Cairo”, o herói (Jeff Daniels), viu tantas vezes o mesmo filme que acabou por saltar para dentro da tela e contracenar com os personagens.

Em “Midnight in Paris”, o medíocre argumentista Gil Pender (Wilson a fazer de Woody Allen), salta no tempo para os anos 20 parisienses, ao entrar num velho Peugeot, à meia-noite.

Nesses saltos no tempo, Pender vai conhecer Picasso, Hemingway, Dali, Gertrudes Stein (Kathy Bates), Luis Buñuel, Man Ray, Cole Porter – enfim, todos os seus heróis e também Adriana (Marion Cotillard), que foi amante de Modgiliani e de Braque e que vive agora com Picasso.

Esta nova realidade, que Pender passa a viver, todas as noites, depois da meia-noite, afasta-o cada vez mais da sua realidade, isto é, da sua fútil noiva e dos seus futuros e execráveis sogros.

Mas Allen leva este “regresso ao passado” mais longe, já que Adriana gostaria de ter vivido na bélle époque e ambos acabam por fazer uma visita a essa era, onde encontram Degas e Gaugin, que gostariam de ter vivido no Renascimento. Para já não falar no detective que, a certa altura, começa a seguir Pender…

Woody Allen está em forma. Novamente.

PS – Há muito tempo que não ia ao cinema e já não me lembrava bem porquê. Hoje confirmei: sentámo-nos numa das salas vazias das Amoreiras às 13h e começámos a ver o filme às 13h25, depois de uma chuva de anúncios idiotas, com um som altíssimo!!! Cerca de 50 minutos depois, o filme é cortado à faca para um intervalo de sete minutos! Porquê?!

“Bad Company”, de Joel Schumacher (2002)

Saturday, December 4th, 2010

Mais um filme estilo-my-fair-lady, mas com espiões.

Um negro que vende bilhetes para espectáculos no mercado negro e joga muito bem xadrez (Chris Rock), tem um irmão gémeo que nunca viu na vida, que é um espião de alto gabarito, trabalhando para a CIA. Esse irmão é assassinado pelos mauzões e a Companhia vai buscar o aldrabão e vai transformá-lo num grande espião.

O homem encarregado desse trabalho é um agente interpretado por Anthony Hopkins.

Seguem-se as cenas de tiroteio, em que o novo espião começa a dar barraca para, depois, se transformar num herói.

A receita é conhecida, o argumento não tem surpresas e o filme não ultrapassa a mediania, mas dá para hora e meia de entretenimento.

“Burn After Reading”, de Ethan e Joel Coen

Saturday, October 23rd, 2010

“Destruir Depois de Ler” é mais uma daquelas comédias mais ou menos malucas que os irmãos Coen gostam de fazer, de quando em vez. Começaram com “Arizona Junior” e, sazonalmente, chateiam-se do “cinema sério” (“True Blood”, “The ManWho Wasn’t There” e etc) e fazem uma coisa destas (um “objecto cinematográfico com discurso de comédia”, como escreveria um crítico profissional). Nem sempre se saem bem. Se “The Big Lebowski” acabou por se tornar um clássico da comédia, e “O Brother, Where Art Thou?”, embora um pouco pateta, ainda se aguenta, “Intolerable Cruelty”, também com Clooney, é uma seca.

Mas este filme, de 2008, é muito recomendável. O resumo do argumento diz tudo: «a disk containing the memoirs of a CIA agent ends up in the hands of two unscrupulous gym employees who attempt to sell it.»

George Clooney, Frances McDormand, John Malkovich e um surpreendentemente pateta Brad Pitt, são os principais intérpretes e cumprem, com nota alta.

Foi o primeiro filme que vi, através do videoclube do Meo.

Zon down!

Meo rules!

“What Just Happened”, de Barry Levinson

Sunday, April 18th, 2010

Aqui está o exemplo de quem nem sempre um grande elenco consegue fazer um grande filme.

Barry Levinson, realizador de “Rain Man”, “Disclosure”, “Sleepers”, “Good Morning, Vietnam”, “Wag the Dog” e outros bons filmes, dirige um elenco do qual fazem parte Robert DeNiro, Sean Penn, Bruce Willis, Robin Wright Penn, Kristen Stewart, Michael Wincott, Catherine Kenner e Stanley Tucci e, no entanto, o resultado é fraquito.

DeNiro faz o papel de um produtor de Hollywood, Ben, que está na mó de baixo, não só por causa dos seus casamentos falhados, mas também porque está a tentar que o seu novo filme tenha sucesso, tendo de lidar com um realizador excêntrico, uma directora executiva dos estúdios que quer êxitos de bilheteira e um actor armado em super-estrela, que se recusa a rapar a barba, embora isso seja essencial para as filmagens.

Ben está enfadado com a sua vida, pessoal e profissional e nós também ficamos um pouco enfadados porque o filme não anda nem desanda.

Mais uma vez, o título em português (“Pânico em Hollywood”), não faz qualquer sentido.

“Les Invasions Barbares”, de Denys Arcand

Saturday, April 17th, 2010

Um sessentão rezingão e mulherengo, Remy, está na fase terminal de um cancro, num quarto de um hospital de Montréal. A sua ex-mulher pede ajuda ao filho de ambos, um jovem homem de negócios com pouco em comum com o pai.

O filho é um tipo ambicioso e rígido, cumpridor das regras do jogo; o pai é um ex-esquerdista, que foi adepto de todas as modas políticas, que bebeu, fumou e fodeu sem grande tino. Aparentemente, pouco têm a dizer um ao outro, mas a aproximação da morte do pai, faz com que ambos acabem por se aproximar também.

Para além de diálogos muito divertidos e inteligentes, o filme mostra-nos o aparente caos em que vivem os hospitais do Canadá. Nunca imaginei que pudesse ser assim tão parecido com os hospitais portugueses. Sempre pensei que o Canadá, como país inventado que é, tivesse um bom serviço de saúde.

O filme faz também uma feroz crítica aos sindicatos, aos quais é preciso subornar para se obter o que se devia ter direito.

Finalmente, o filme faz um apelo indirecto à eutanásia, já que Remy acaba por morrer com uma overdose de heróina, ministrada por uma das suas amigas.

O filme ganhou o óscar por melhor filme estrangeiro em 2004.

Uma sessão cultural no Império

Saturday, April 3rd, 2010

Quando escrevi sobre as sessões de cinema dos meus 18 anos, esqueci-me que também havia as “sessões culturais”, no Império – aquele cinema enorme que está agora transformado em templo da igreja Maná.

No dia 10 de Março de 1971, fui ver o “Easy Rider” – e não há dúvida que foi uma sessão cultural. Para mim – e para muitos como eu – este filme, realizado por Dennis Hopper em 1969, foi o primeiro a mostrar pessoas sob o efeito de drogas psicadélicas.

Com Dennis Hopper e Peter Fonda, “Easy Rider” é um “road movie”, em que dois amigos, montados nas históricas Harley Davidson, atravessam a América, de Los Angeles a New Orleans, em busca do sentido da vida (?). Lá para o meio do filme, aparece um advogado drogado, que acaba por ser assassinado e cujo papel é interpretado por um Jack Nicholson, em início de carreira.

A banda sonora ainda hoje é bem audível, com “Born to be Wild”, dos Steppenwolf à cabeça, e ainda “The Pusher”, da mesma banda, “I Wasn’t Born to Follow”, dos Byrds, “The Weight” por The Band, e outras mais “alternativas”, como uns tais “Electric Prunes” e o seu “Kyrie Eleison” (cheguei a comprar o álbum que, entretanto, desapareceu nas brumas da memória…).

Não há dúvida de que foi uma sessão cultural…

Soirées no Politeama

Sunday, March 28th, 2010

Eu sou do tempo em que as sessões de cinema eram apenas duas e tinham nomes franceses: a matiné e a soirée. Claro que também havia a sessão da meia-noite, no Politeama, mas era só ao sábado.

O Politeama era a sala preferida da malta, embora também gostássemos do Condes, do Avis, do Tivoli, do Império ou do S. Jorge.

Foi no Politeama que vi muitos westerns-spaghetti, com o Clint Eastwood ou o Giluliano Gemma.

No dia 21 de Janeiro de 1971, fui à sessão da noite ver “Borsalino“, um filme que Jacques Deray realizara no ano anterior. Alain Delon e Jean-Paul Belmondo formavam um par de actores franceses muito em voga e interpretavam os papéis de dois escroques marselheses dos anos 30.

Deray tinha ficado célebre entre a juventude portuguesa porque, em 1969, tinha realizado “La Piscine“, também com Alain Delon e ainda com a maminhas da Romy Schneider. Vi-as no Tivoli, muito emocionado…

O bilhete de cinema custava, em 1971, 19 escudos (0.09 euros).