“A Gorda”, de Isabela Figueiredo (2016)

Confesso que há muito tempo que não lia um livro de um autor português e confesso que fiquei muito surpreendido com este romance de Isabela Figueiredo, uma jornalista e professora de português, nascida em Moçambique e que veio para Portugal em 1975.

A gorda do romance, é também professora, filha de colonos portugueses, retornados a Portugal após o 25 de Abril e grande parte da acção decorre em Almada, Costa da Caparica, Cova da Piedade – e talvez, também por isso, identifiquei-me muito com esta história.

Maria Luísa é a protagonista e é uma lutadora: luta contra uma mãe castradora e um pai problemático, luta contra o seu corpo, cada vez mais pesado e disforme, luta contra uma paixão, que a consome e que não consegue ultrapassar.

A certa altura, Maria Luísa decide fazer psicanálise:

“A triagem remeteu-me para a psicanalista do Campo de Santana, na qual passaria os cinco anos seguintes a matar o papá. Recebeu-me num final de tarde em que combinámos as condições da terapia. Sugeriu, à chegada, que me sentasse num cadeirão à sua frente, mas respondi que o meu corpo não cabia no espaço formado pelo assento, e que, se tal viesse acontecer, nesse dia estaria curada.”

A relação entre Maria Luísa e a mãe é de conflito permanente:

“Digo, «estou muito constipada. Mal consigo abrir os olhos hoje, mãe, dói-me a cabeça e o corpo…». Logo me responde, «ora deixa-me cá. Estive para nem me levantar. É que nem consiguia vestir. Se tivesses as dores que tenho nos braços e na coluna, até chegar à cabeça… parecem facas a espetar-se. Já tomei dois Voltaren, mas faz-me um mal ao estômago! Tens de me trazer mais Omeprazol. O fígado também não anda grande coisa; sinto umas picadas. Depois é o intestino, tu já sabes, sempre o mesmo problema. Tens que ir à farmácia que me indicou a dona Luciana e perguntar se têm um medicamento novo cujo nome me há de mandar. É que não há nada, nada que me esvazie os intestinos, até tenho a barriga dura, carrega aqui! E com tudo isto não dormi nada!»”

Aconselho vivamente.

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