Milagres e manias

Pescando no FB descobri um texto publicado na Agência Eclésia e intitulado “Português vai acompanhar canonização de Madre Teresa para agradecer à santa que o salvou”.

Como me interesso por tudo o que seja milagre, desde o milagre das rosas até ao milagre económico do Passos Coelho, fui ler.

O tal português, chamado Pedro Castro, conheceu um padre chamado Brian e foi ele que lhe falou na madre Teresa.

Diz Pedro: “Eu conheci-o por acaso no Algarve numa altura em que estava doente, com uma doença gravíssima, com uma hepatite C, que estava num estágio já avançadíssimo de deterioração do fígado. E os médicos tinham-me dito que eu precisava absolutamente de tomar um medicamento muito caro, que tinha acabado de sair”.

Não ligando ao facto de a hepatite C do Pedro estar em estágio, toda a gente se lembra do caso deste medicamento inovador, que salvou a vida a milhares de doentes com hepatite C. Antes do acordo entre o ministério da Saúde de Paulo Macedo e o laboratório produtor, o tratamento custava largos milhares de euros.

“A única hipótese era vender a minha casa”, frisa Pedro Castro, cuja história ganhou um novo rumo após o encontro com o padre Brian. – continua o texto publicado na Eclésia.

E foi então que a madre Teresa interveio.

Como?

Ora leiam:

“O sacerdote incentivou-o a esperar e a ter confiança na Madre Teresa, entrou em contacto com Calcutá e a sua intenção foi colocada junto da campa da religiosa, onde todos os dias é celebrada Missa por essas intenções.

A seguir, o que aconteceu foi um conjunto de acontecimentos enormes que levou a que Portugal fosse o país do mundo que mais depressa passou a custear esse tratamento para a Hepatite C”, conta Pedro Castro, que desde então passou a olhar para a vida com uma perspetiva diferente.

O católico português diz não ter dúvidas de que houve “uma intervenção da Madre Teresa” para ajudar a resolver a situação.

Portanto, bastou colocar a intenção junto à campa da madre Teresa e o nosso ministro da Saúde chegou a acordo com o laboratório!

Não percebo por que carga de água o nosso primeiro-ministro não pede a este padre Brian para colocar, junto da campa da madre Teresa, a intenção de nos livrarmos do défice, subirmos os salários, acabarmos com o desemprego e desenvolvermos a economia.

Se calhar, a madre Teresa era capaz de não dar uma ajuda porque António Costa não é crente – mas podíamos pedir à Sãozinha Cristas, que ela sim, é uma católica devota!

Só não percebo por que razão temos que colocar a intenção junto à campa. Pensava eu que o corpo pouco importa – o que interessa é a alma; e essa deve estar bem elevada, lá no Céu, e não enterrada sob sete palmos de terra.

Pelos visto, não percebo nada de milagres e de santos.

Do milagre, passemos agora à mania…

E de manias percebe Afonso de Albuquerque, psiquiatra, 81 anos, um dos fundadores da Sociedade Portuguesa de Sexologia.

Em entrevista ao Público, conta vários episódios da sua clínica, todos relacionados com obsessões sexuais.

Este, por exemplo:

“uma freira, há uns trinta anos, veio ter comigo, e foi preciso muita coragem para o fazer, disse-me que se masturbava 30 vezes por dia, o que a fazia sofrer brutalmente, porque não podia compatibilizar aquilo com a sua vida religiosa. Mas não era capaz de parar.”

Trinta vezes por dia?!

A irmãzinha não devia fazer mais nada, caramba!

É o que dá a solidão dos conventos!

E o psiquiatra continua:

“Tinha também uma depressão. E tratei a depressão, que foi talvez a parte mais simples, mas nesse processo de saída da depressão ela deixou de se culpabilizar tanto, e deixou de se masturbar tanto”.

E Afonso de Albuquerque deixa-nos em suspenso: a freira deixou de se masturbar tanto… o que quer isso dizer? Das 30 vezes por dia passou para 25… 20… 10 vezes?

E afinal, o que pretendo eu com estes dois exemplos, além de gostar de uma blasfémia de vez em quando?

No fundo, o que eu pretendo é provar que, nestas coisas da religião, há sempre muito exagero.

Nem a madre Teresa de Calcutá foi responsável pela aprovação da comparticipação do medicamento contra a hepatite C, nem a freira do Albuquerque se masturbava 30 vezes…

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