Bonifácio, Camané e o ombro do teu cão

João Bonifácio entrevista Camané, para o suplemento Ípsilon, do Público.

O fadista Camané decidiu fazer um espectáculo, interpretando canções de Jacques Brel, Aznavour e Sinatra, entre outros.

De Brel, Camané interpretou “Ne Me Quittes Pás”.

Recordo parte da letra dessa magnífica canção:

“Laisse-moi devenir/ L’ombre de ton ombre/ L’ombre de ta main/L’ombre de ton chien”

Comenta João Bonifácio: “É das canções de amor mais desesperadas que já alguém escreveu: «Deixa-me ser o ombro do teu cão…»

Camané acrescenta: «Ele queria ser o ombro do cão dela porque queria estar ao pé dela, não queria que ela o deixasse. E nessa fase da canção existe o desespero: nem que seja uma mosca à tua volta, o ombro do teu cão, qualquer coisa, mas que eu possa estar ao pé de ti.»

O ombro do teu cão?!

Quer dizer: nem o jornalista Bonifácio nem o fadista Camané sabem que “ombre” significa “sombra”!

Desse modo, os versos «deixa-me ser a sombra da tua sombra/ a sombra da tua mão/ a sombra do teu cão», transformaram-se em «deixa-me ser o ombro do teu ombro/ o ombro da tua mão, o ombro do teu cão».

Repito: o ombro do teu cão?!

O jornalista Bonifácio não fez o trabalho de casa, não percebe patavina de francês, não consultou o dicionário e – pior! – não achou estranho que Brel, com aquela sua interpretação sofrida e pungente, estivesse a dizer uma patetice tão grande, como «deixa-me ser o ombro do teu cão».

Por seu lado, o fadista Camané, interpreta uma canção sem se preocupar muito com o que está a cantar; para ele, tanto lhe faz estar a cantar um poema soberbo, como um chorrilho de asneiras. Para ele, é tudo chinês (ou francês, tanto dá…)

Já agora, por que não traduzir “Ne Me Quittes Pas” por “Não Me lixes, Pá!”?

25 Responses to “Bonifácio, Camané e o ombro do teu cão”

  1. Pedro says:

    Já li várias vezes e ainda não acredito. Será possível? Fui à cozinha olhar para o meu calendário: não é primeiro de Abril…

    O “ombro do teu cão”!? E eles discutem isto assim… sem sequer pensar duas vezes? E o “jornalista” não chegou à redacção questionando-se sobre a passagem em causa, tendo ido pesquisar um pouco?

    Mas também… um gajo que escolhe usar como nome artístico “Camané”, só pode ser um bimbo…

  2. Artur says:

    Outros grandes êxitos de Camané: de Sinatra – “Stranglers in the night” e “I’ve got you under my skirt”; de Brel – “Les Flamengs” (uma canção sobre queijos); de Lennon-McCartney – “For No One”, aquela em que McCartney canta “o dia parte-se, a tua mente doi” (the day breaks/ your mind aches)

  3. zezé says:

    Oh meus amigos, ora bamos lá a ber uma coisita…, por que é que em bez de estarmos para aqui a desancar nos moços, que fizeram alegremente figura de palhaços e sem o saberem, não fazemos todos um abaixo assassinado, embiamos para o jornal que publicou tamanha enormidade, juntado a seguinte relamaçõn: “é inadmissíbel que deixem publicar tamanhas pataquadas no bosso jornal. Será que num existem rebisores de texto, ou coisa que o balha, ou estão todos de baixa? Fuago, num há o direito ( presumo que também num deba haber o esquerdo!.., Penso eu de que).

    Zezé da Mata

  4. paco says:

    Parece que o jornal também deu pelo gato e publicou um texto do provedor que pode ser lido http://www.publico.clix.pt/homepage/provedor/04.ruiAraujo/textos/2007.04.29.mudaDiscoTOcaMesmo.asp

    Diverti-me com a gaffe e com o texto do Artur.

  5. Elso Lago says:

    Muito bom… jornalismo de alto nível!

  6. José-Luis FERREIRA says:

    ..então, Meninos!

    ESSE BONIFÁCIO É, APENAS, MAIS UMA BESTA EVIDENTE!
    MAIS UM RUDIMENTAR E SOLERTE ANALFABETO, MASCARADO DE “JORNALISTA”…
    …ainda bem que não perdemos o sentido trágico d’humor que – ele, como tantos outros inspirados papa’gaios – nos oferecem, nos “pattent foods” enlatados dos jornais que cada vez menos são lidos.
    O “Inimigo Público”, esse sim, pode não ser jornalisticamente correcto, mas é o único pasquim interessante da Imprensa em Portugês vernáculo!

    BONIFÁCIO pode parecer possidónio, mas atinge a dimensão monumental da cretinice cultural. Viva o BONIFÁCIO e o chefe de Redacção …dele!

  7. Mário Castro says:

    Quando já ouvi na RFM uma jornalista, no noticiário das 20,00, referindo-se ao mau tempo que assolava Lisboa, que a “Antemperie” (transcrição fonética) continuava, tudo é possível…

  8. luar says:

    Vocês desculpem mas eu não quero acreditar que isso seja verdade, não quero, não posso, não consigo….
    Digam que não é!!!!!

  9. Alsotom says:

    Não li, não ouvi, mas acredito porque o nosso meio artístico está cada vez mais conspurcado por pseudo intelectuais que não passam de “intelectualóides de merda” que não sabem nada de nada.

  10. Pois-Pois é-Pois-Pois como assim ???
    Pois-Pois-Portanto-Vejo muitos dos debates que estão no top da ocupação dos tempos de antena-Pois-que se oiça como falam os “mandantes” privados e públicos, que se deduza daí (no que dizem e não no como) e dos “falantes” do noticiário seja em português seja quando é “VANCÔVER” ???PORTANTO a caça ao dinheiro simples, ao emprego sem responsabilidade (ensinar será só emprego ???) – Pois portanto-oiçam-se os futebolistas – Pois portanto, porque é que o único paíss do mundo que celebra o seu dia “nacional” reverenciando a LÍNGUA (e não a tomada da Bastilha), pois como não se há-de DEGRADAR o que resta ?? – A LÍNGUA-o instrumento da comunicação e da venda do que resta no país-Pois, portanto, “a minha Língua é a Pátria portuuesa” – viva que”pátria ?

  11. Maria Papoila says:

    Só me ocorre sugerir que tanto o entrevistador JB como o fadista Camané não metam a foice em seara alheia e se tiverem que o fazer que frequentem um curso intensivo de francês.
    Tamanha ignorância para além de vergonhosa é inadmissível.
    “Quere-se dizer” o significado das palavras não tem importância alguma pois que para cantar basta saber soluçar com a garganta ….

  12. Edite Estrela says:

    > De Brel, Camané interpretou “Ne Me Quittes Pás”.

    Já que estamos numa de criticar o Francês dos outros, aproveito para dizer: “‘pas’ não leva acento, ó caramelo”

  13. Aqui está um jornalista que não fez o trabalho de casa (e trabalha no Público! Xisca!!!) e um cantor pouco informado…

  14. Artur says:

    Para Edite Estrela: será que és mesmo a estrela da Edite? Se és, é pena:
    1º passei por cima de outro erro do Bonifácio: “quittes” estava escrito só com um “tê”
    2º o “Pás” de “Ne me quittes pas” tem a ver com o final do texto, onde escrevo – “não me lixes, pá!”
    Percebeste?
    Posso explicar novamente – existe um sonoridade semelhante entre “ne me quittes pas” e “não me lixes pá”; sendo assim, fiz uma graçola com isso. Se calhar, é fraca para o teu sentido de humor… mas enfim, pas (desculpa, pá), é o que se arranja.
    3º Obrigado por me chamares caramelo, meu rebuçadinho…

  15. Gonçalo Falcão says:

    A questão não é tanto a do meio artístico mas do meio música. O nivelamento por baixo já vai no subsolo e Bonifácios e Gomes é o que mais há. Desde que tenham as noites livres para andar nos concertos, internet de banda larga em casa para poder sacar umas informações e um desconhecimento generalizado para poderem dizer bem e dar muitas estrelas a quase tudo, está feito o contrato. A música é de longe a área mais mal tratada pelo jornalismo português. É arrepiante o grau de desconhecimento desde o Expresso ao Público. Por incrível que vos possa parecer o Correio da Manhã, nesta área, é para mim o mais credível… ao que chegámos… Quase que dá saudades do Luis Maio e dos outros que encharcavam as páginas dos Setes dos anos 80.
    Só nos safamos desta gente quando houver uma wikipedia automática a dar estrelas e a fazer textículos sobre os discos. Até lá, andam estes todos contentes.

  16. Magoonífico says:

    acho que alguém te roubou o post aqui

  17. Artur says:

    Pois é: roubaram-me o post. Enfim, antes o post que a pasta…

  18. gitas says:

    olha nem sei quem és e nunca te visitei, portanto não saquei aquilo do teu coiso!
    Recebi por email
    Passa bem!

  19. SP says:

    Humm parece que a coisa terá sido um pouco mais complexa. O erra não terá partido nem do entrevistador, nem do entrevistado.
    O João Bonifácio é, por assim dizer, um dos grandes críticos de música no activo e, é bom reparar, continua em ascensão.
    Este espezinhar onde se sente mole é, sobretudo, triste e infelizmente é acaba por ser uma das coisas que nos define enquanto portugueses. É que sabem, como devem saber, é preciso separar factos de interpretações.

  20. Artur says:

    Facto: “l’ombre de ton chien” não significa “a sombra do teu cão”
    Interpretação: Bonifácio e Camané não pescam nada de francês

  21. margarida says:

    eu acho incrível como é que vocês perdem tempo com estas merdas… vê-se mesmo que não lêem os textos do Bonifácio com atenção, se fossem meus alunos tinham todos medíocre!!!! hihihihi… hihihiiiiii :)))))))

  22. João Braga says:

    Os Limites da Ignorância

    Quando leio os jornais costumo, por falta de tempo, deixar os suplementos para ler mais tarde. Este mau hábito traduz-se numa pilha de papel como aquela que a minha mulher, há poucos dias, ameaçou depositar no “papelão”. Pressuroso, dispus-me a pôr a leitura em dia, tendo despertado a minha atenção uma entrevista de Camané ao “Y” do “Público” de 29 de Abril último.

    « Laisse-moi devenir/ L’ombre de ton ombre/ L’ombre de ta main/L’ombre de ton chien”

    Um jornalista, devastado pelo efeito dramático do poema de Jacques Brel, comenta “É das canções de amor mais desesperadas que já alguém escreveu: «Deixa-me ser o ombro do teu cão…»

    O artista em vésperas de cantar esta obra-prima de Brel confirma, desenvolve e elucida «Ele queria ser o ombro do cão dela porque queria estar ao pé dela, não queria que ela o deixasse. E nessa fase da canção existe o desespero: nem que seja uma mosca à tua volta, o ombro do teu cão, qualquer coisa, mas que eu possa estar ao pé de ti.»

    Uma mosca à tua volta? O ombro do teu cão? Já agora, por que não o ombro da tua mão? Ou mesmo o ombro do teu ombro?!

    Este é um diálogo absolutamente hilariante extraído de uma entrevista pretensamente séria, feita por um jornalista profissional (João Bonifácio) a um artista de projecção internacional (Camané), publicada no suplemento de um diário de referência.

    Duas almas confederadas num voo filosófico sobre os sombrios estados da alma! É um direito que lhes assiste.

    A nós, público atento desta passeata pelo reino do absurdo, cabe-nos o dever de exprimir algumas perplexidades sobre a língua francesa, sobre a anatomia da mão humana e a configuração óssea dos canídeos.

    Eximimo-nos naturalmente de conjecturar sobre os limites plausíveis para a ignorância propagada através de um órgão de comunicação social.

    A língua francesa foi chão que deu uvas. Et pour cause. Prova-o à saciedade a funda comiseração sobre os graus do desespero em que se embrenham jornalista e fadista, inspirados pela desgarrada súplica de alguém que foi rejeitado e se contentaria em pairar como um fantasma sobre o seu amor.

    Não me impressiona excessivamente que os dois filósofos do desespero humano não compreendam aquele idioma. Em França não se aprende português e eles lá vão sobrevivendo.

    Mas o que dizer sobre esta aberração do ombro ter ele próprio um ombro; da mão humana possuir, como alias os estranhos habitantes do planeta Uansafandango, a sua própria espádua? E o que pensar sobre o cão a quem nasceu também um ombro amigo?

    Antes da revolução francesa e mesmo antes da grande revolução anatómica que se abateu sobre a Terra, da Mouraria à Manchúria, da Porcalhota à Polinésia, do Bairro Alto à própria Bélgica, berço de Brel, não faria sentido afirmar “Permite que eu seja o ombro do teu ombro, o ombro da tua mão, o ombro do teu cão.”

    Muito menos faria sentido editar uma tal barbaridade. E o que dizer de um fadista que fecha os olhos, buscando no mais recôndito da alma o sentimento adequado a aspirar a ser, sem pestanejar, todo este chorrilho de baboseiras?

    Tempo houve em que, por menos, se decapitavam reputações.

    João Braga

    Post-Scriptum: Peço desculpa aos leitores de “O Coiso” por ocupar este espaço todo para lembrar aos leitores do “Público” que ombre, em português quer dizer sombra e que ombro, em francês, se diz épaule.

  23. Lover says:

    Vim aqui ter graças ao artigo sobre o Concerto de Leonard Cohen, pelo Sr. João Bonifácio, muito provavelmente, estaremos a dar demasiada importância, ouvi dizer, quando literalmente me manifestei ofendida com tal artigo…
    mas a verdade, é que gostos à parte, comprar um jornal para ter acesso a informação e sofrermos expressa desinformação e “deturpação” é realmente uma vergonha…foi o que senti ontem ao ler o Público…
    gostei deste post e dos comentários…foi aliás aqui que fiquei a saber que o Sr. Bonifácio é Jornalista…pela sua isenção no relato de um concerto como o de sábado passado, só o deve ser em part-time, ou faltou-lhe a disciplina do código de ética…ou talvez seja apenas a minha enorme Admiração pelo Leonard Cohen, como Poeta, Cantor e homem…que não me permitem ver a qualidade do Jornalismo!
    viva a democracia e a liberdade de expressão!…
    GFF

  24. Tânia says:

    Eu sou uma sigo o seu blog há já algum tempo, e encontrem este post que vem, extraordinariamente, a propósito da crítica feita por este notável jornalista (chamar-lhe-ei jornalista?), ao Super Bock Super Rock http://ipsilon.publico.pt/musica/texto.aspx?id=236852#Comente !
    De facto, este senhor não é só débil no que respeita a linguas estrangeiras.
    Eu citei num dos meus comentários o seguinte:vou escrever aquilo que li num outro lugar (blog coiso.net). Trata-se de uma entrevista, ja antiga, feita por este senhor ao cantor Camané. Sr. Bonifácio enuncia expeditamente que a canção “Ne me quittes pas” (de Jaques Brel, cantada por Camané num dos seus espectáculo´s), é uma “das canções de amor mais desesperadas que já alguém escreveu: “Deixa-me ser o ombro do teu cão…”. Relembro a letra: “Laisse-moi devenir/ L’ombre de ton ombre/ L’ombre de ta main/L’ombre de ton chien”. Note-se que OMBRE significa SOMBRA não lingua francesa, ao contrário do que esperava o jornalista do Público, não significa OMBRO. Deixe-me citar o Sr.: “Ai jesus”.
    Peço desculpa qualquer incomodo, por citar o seu blog. Parece-me a mim que temos ideias similares à cerca deste senhor. http://ipsilon.publico.pt/musica/texto.aspx?id=236852#Comentarios.

    **

  25. [...] João Bonifácio, a hora de ponta do Ípsilon e o «ombro do cão» Posted on 22 Julho, 2009 by Carriço Não me lembro de ver no Ípsilon uma crítica com tantos comentários. Obra de João Bonifácio, que escreve uns parágrafos acerca de um dos muitos festivais de música que marcam o Verão nacional. Não perdi – nem perco – grande tempo com a forma como o texto é apresentado, tendo-me contentado com uma leitura na diagonal. O crítico, nota-se bem, não gostou do que viu e não gostou do que ouviu. Nota-se também que tem pouca simpatia pelos artistas que compunham o cartaz do referido festival. Está no seu direito. Uma crítica é sempre subjectiva, encontre ela maior ou menor aceitação. Quando muito, errou o Ípsilon ao enviar João Bonifácio para fazer uma crítica que se sabia ter grandes hipóteses de ser negativa ainda antes de ser conhecida. Já li neste suplemento muitas críticas com que concordei e muitas outras com que discordei. De certeza que algumas delas seriam de João Bonifácio, mas a atenção que lhes dispenso não chega para conhecer as inclinações e preferências do jornalista. Pior que os excessos e antipatias de uma crítica é a falta de um mínimo de rigor. Pior: a capacidade de arrastar um entrevistado para esse mesmo erro. Novamente obra de Bonifácio, à conversa com Camané. Isto sim, vale a pena espreitar. [...]

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