Leite e derivados

—Na concertação social (“concertação” com “cê”, porque vem de “concerto”; com “esse”, não, porque já não há “conserto”…), patrões, trabalhadores e governo chegaram a acordo: em 2011, o salário mínimo será de 500 euros.

Até lá, vai subindo devagarinho. Para o ano, será de 450 euros.

Manuela Ferreira Leite, distraída ou desconhecendo a decisão da concertação social, disse que Sócrates, ao fazer este aumento, “roça a irresponsabilidade”.

í“ Dra. Leite: é um aumentozinho de 24 euros mensais!

No que respeita ao leite, propriamente dito, e escolhendo o magro, tendo em atenção a doutora, 24 euros dá para comprar mais 27 litros de leite Matinal ultrapasteurizado por mês, partindo do princípio que cada litro custa 88 cêntimos. Quer dizer que o trabalhador, com o novo salário mínimo nacional, nem sequer vai poder comprar mais um litro de leite por dia, todos os dias do mês!

Quanto aos derivados: 24 euros dão para mais 40 iogurtes Longa Vida, a 2.19 cada pack de 4; ou mais 14 pacotes de 250 gramas de manteiga UCAL, a 1.69 cada um; ou 3 queijos e meio, tipo flamengo, da Agros, a 6.49 cada um.

A senhora acha que isto roça a irresponsabilidade?

“The Last King of Scotland”, de Kevin MacDonald

—Forest Whitaker ganhou o óscar de melhor actor, em 2007, pelo seu desempenho neste filme, encarnando um Idi Amin Dada muito convincente. Enfim, nunca vi o Idi Amin ao vivo e, nos anos 70, os meios de comunicação não eram tão intrusivos como hoje em dia; portanto, é difícil dizer se Amin tinha o humor assim tão lábil, ou se ele não seria, até, muito mais sinistro.

Whitaker faz Amin parecer uma criança grande que, de vez em quando, perde as estribeiras e não hesita em mandar matar e torturar.

Nos anos 70, a fama de louco de Idi Amin só era ultrapassada pela de Bokassa, o presidente da República Centro-Africana que, depois de chegar ao poder, decidiu coroar-se Imperador…

Neste filme, a história é-nos contada pelos olhos do Dr. Nicholas Garrigan (James McAvoy), um jovem médico que decide ir trabalhar para o Uganda, porque sim, e acaba por se tornar o protegido de Amin, exactamente por ser escocês. O ditador tinha uma fixação pela Escócia, desde que serviu, como ajudante de cozinha, no exército britânico (o Uganda pertence í  Commonwealth).

As “excentricidades” de Idi Amin ficaram célebres; algumas delas podem ser consultadas aqui.

Não te posso ver nem pintado

—É este o título genérico de “um novo percurso pela Colecção Berardo”, um percurso que privilegia a “figuração na pintura destes últimos cinquenta anos”.

Podia dizer qualquer coisa deste género: como não sou especialista em arte moderna e contemporânea (nem em arte nenhuma, diga-se de passagem), não posso comentar a exposição porque posso a estar a fazer juízos errados.

Podia dizer e já disse, mas quero crer que a Exposição da Colecção Berardo não é só para especialistas.

E como não especialista, tenho que ser sincero e dizer que a coisa não me entusiasma.

Destaco o quadro do Andy Warohl (“Judy Garland”), duas obras de um tipo chamado Damien Deroubaix e uma instalação de Jakub Nepras, chamada “Babylon Plant” e que consiste na sobreposição de três vídeos.

De resto, confesso que passei pelos corredores e pelas diversas obras sem grande interesse. Já nem me choca a obra que inclui bosta de vaca envernizada.

Ainda dei uma olhadela í  exposição “Espaços Sensíveis”, da Colecção de Arte Contemporânea da Fundação “La Caixa”, mas foi só para me irritar um pouco mais.

Numa sala, passa um filme a preto e branco, aos soluços, interrompido por clarões de segundo a segundo e, antes de entrarmos na sala, um cartaz avisa que os epilépticos não devem entrar, ficando, assim, privados de contemplar aquela magnífica obra de arte. Sortudos!

Noutra sala, uma série de cubos pretos, de diversos tamanhos, banhados por uma luz amarela. Noutra ainda, um linóleo geométrico no chão e uma figura de bronze, sentada num muro.

Dispenso.

“Lions For Lambs”, de Robert Redford

—Redford realizou este filme que põe e causa a actual política externa norte-americana, nomeadamente a sua “guerra contra o terror”.

O filme desenvolve-se em três cenários.

Num deles, um Tom Cruise clássico representa o papel de um ambicioso senador republicano, com vontade de concorrer í  Casa Branca e que é responsável por uma nova estratégia na luta contra os talibãs, no Afeganistão. Este senador resolve conceder uma entrevista a uma jornalista experiente (Meryl Streep), dando-lhe a exclusividade da notícia dessa nova estratégia. Ao ouvir a descrição da nova estratégia de guerra, a jornalista lembra-se que ela já foi usada no Vietnam, com resultados desastrosos.

No decorrer da entrevista, a tensão entre o senador e a jornalista, é evidente: ele, absolutamente a favor a guerra contra o “Eixo do Mal”, ela, de pé atrás, mas com dificuldade em marcar a sua posição porque, após o 11 de Setembro, apoiou as posições agressivas de Washington.

O segundo cenário é o de uma Universidade: o professor, interpretado por Robert Redford, tenta convencer um aluno, supostamente brilhante, a voltar í s aulas, porque o país precisa dos mais inteligentes e dos mais capazes – e são esses que, na maioria das vezes, de divorciam da política.

O terceiro cenário decorre nas montanhas do Afeganistão, onde dois militares voluntários, ex-alunos do professor, estão a pí´r em prática a nova estratégia do senador, com resultados desastrosos.

Um filme denso, com uma mensagem política evidente, com excelentes interpretações, mas poucas hipóteses de ser visto por muita gente, devido í  densidade dos diálogos.

“Broken Flowers”, de Jim Jarmusch

—Um “pequeno” filme muito curioso, que ganhou o Grande Prémio de Cannes, em 2005.

Don Johnston fez fortuna na área dos computadores e está retirado e deprimido, sozinho no seu grande casarão. Teve fama de Don Juan mas a sua última namorada abandonou-o e ele está sem energia para sequer se levantar do sofá da sala.

É então que recebe uma carta anónima; uma antiga namorada revela-lhe que, 19 anos antes, teve um filho dele. O rapaz só agora soube quem era o pai e anda í  procura dele.

Don mostra a carta ao seu vizinho, que tem a mania que é detective privado e que lhe propõe que faça uma lista das namoradas que teve, 20 anos atrás. Don acede, contrariado. Não lhe apetece fazer nada – nem sequer conhecer um filho que não sabia que existia, mas acaba por fazer a tal lista, da qual constam 5 nomes de antigas namoradas.

O vizinho de Don, como bom detective amador, faz-lhe um dossier para cada uma das namoradas, compra-lhe bilhetes de avião, reserva-lhe quartos em hotéis e prepara-lhe um itinerário completo, de modo a que Don vá visitar cada uma das namoradas, tentando, assim, perceber qual delas é a mãe do seu filho.

O resto do filme mostra-nos o encontro de Don com cada uma dessas namoradas; e cada um desses encontros é uma nova surpresa.

Bill Murray faz um bom Don Johnston, ao jeito do personagem do “Lost in Translation”. Com aquela cara de deprimido permanente, Murray só tem que “act naturaly”.

“Broken Flowers”, espantosamente traduzido para “Flores Partidas”, é uma agradável surpresa.

“No Country For Old Men”, de Ethan & Joel Coen

—Já li o livro há uns meses, mas só agora arranjei tempo para ver o filme.

Parece que Cormac McCarthy escreveu este livro a pensar nos irmãos Coen. A adaptação do livro a argumento de filme está estupenda. Feito í  medida. Daí o óscar por melhor argumento adaptado.

Quanto aos restantes óscares:

O de melhor actor secundário, para Javier Bardem era de esperar; para se ganhar um óscar para melhor actor secundário, basta fazer um papel em que se fala pouco e se mantém a mesma carantonha, do princípio ao fim do filme – os tipos da Academia de Hollywood, com complexos-de-cinema-europeu, acham logo que isso é ser um grande actor e dão-lhe um óscar.

Tenho dificuldade em avaliar a justeza do óscar para melhor filme porque vi poucos filmes de 2007.

Quanto ao óscar para melhor realizador, os irmãos Coen merecem-no. O filme é seco, como o texto do livro e retrata bem a América profunda, í spera, cheia de espinhos.

Bardem faz um psicopata convincente, que mata com uma espingarda de matar gado. Inventou aquela cara e aquele penteado e mantém-nos ao longo de todo o filme. Bom. Decide a vida das pessoas com moeda ao ar. No fim, leva com um carro em cima, num cruzamento qualquer. A vida é uma sorte.

Josh Brolin é o caçador que, por acaso, encontra uma mala com 2 milhões de dólares, passando, assim, de caçador a caçado. É o americano convencido. Arrisca e lixa-se. Paciência…

Tommy Lee Jones é o xerife “old timer”, que tem dificuldade em adaptar-se ao novo tipo de crimes, demasiado amorais, para os seus padrões. A personagem do xerife está entre gerações violentas: o seu pai também viveu numa época difícil e selvagem, em que as pessoas não hesitavam em resolver qualquer diferendo ao tiro. Hoje em dia, voltámos ao mesmo.

Este país não é para velhos?

Não há nenhum país para velhos?

Liedson português? Então, quero ser espanhol!

Dizem os jornais que o processo está a andar e que, se as coisas correrem bem, Carlos Queirós já poderá convocar Liedson para o jogo da selecção, contra a Suécia.

Já agora, por que não promover a naturalização de Helton, para jogar a guarda-redes, Luisão e Léo, para a defesa, ao lado de Pepe, Derlei, para jogar ao lado de Deco e mais uma dúzia de brasileiros que jogam em Portugal?

A seguir, Cristiano Ronaldo, Paulo Ferreira, Ricardo Carvalho e Nani pediam a cidadania inglesa, Quaresma passava a ser italiano, Danny naturalizava-se russo e Miguel e Simão passavam a ser espanhóis.

Quanto a mim, reafirmo: se o Liedson jogar algum dia na selecção nacional, passo a ver os jogos da selecção espanhola.

De regresso a casa

Foram mais 420 km para regressar a casa.

—Antes de nos metermos na auto estrada, demos um salto a Póvoa do Lanhoso, que tem um castelo bem preservado, no cimo de um penhasco granítico, no Monte do Pilar.

A construção é tão antiga como Dona Urraca e tem histórias curiosas como a de Rodrigo Gonçalves, um dos seus inquilinos que, ao descobrir que a sua mulher dormia com um frade do Bouro, fechou a malta toda dentro do castelo e pegou-lhe fogo.

Consta que o frade e a esposa do Gonçalves nunca mais pecaram.

Parámos, depois, em Braga que, tal como Viana, merece uma visita mais prolongada.

Demorámos um pouco até encontrar o Bom Jesus, graças aos letreiros enganadores e í  minha teimosia em não aderir ao GPS, mas lá demos com ele.

—O Bom Jesus é uma daquelas construções barrocas que nos espantam pela paciência dos seus autores.

Datado de 1874, o conjunto arquitectónico destaca-se pela profusão de estátuas, escadaria acima, sempre com fontes centrais, deitando água, sucessivamente, pelos ouvidos, pelo nariz, pelos olhos – e só não deita água pela traqueostomia, porque Carlos Amarante, o arquitecto, não se lembrou.

Lá de cima, o panorama não é tão bonito como em Viana, porque não há rio, muito menos Oceano – só prédios de uma cidade que está cada vez maior.

No centro de Braga – cheio de adeptos do Portsmouth que, nessa mesma noite, haveriam de levar 3-secos do Sporting de Braga – demos uma volta pela Praça do Município, o Largo do Paço e a Praça da República, só para abrir o apetite para futura visita.

Gerês

Todo o dia de hoje foi dedicado a percorrer parte do Parque Nacional do Gerês.

Foram 168 km de curvas e contra-curvas, em mais um dia de sol, embora frio. As estradinhas mostravam os sinais da intempérie de ontem, com muitos ramos de pinheiro, caruma e pinhas espalhadas no asfalto.

Na Pousada forneceram-nos um mapa e fizemos o percurso mais óbvio: São Bento da Porta Aberta, Covide, Campo do Gerês, Vilarinho das Furnas, mata da Albergaria, com os seus marcos milenares, Portela do Homem e a fronteira com a Galiza, a Vila do Gerês, onde almoçámos, a Pedra Bela e o seu miradouro, a Cascata do Arado, Ermida, Fafião, onde nos perdemos, indo parar í  barragem de Salamonde. Daí, seguimos para Vieira do Minho e, depois, Cabeceiras de Basto, regressando í  Pousada ao fim do dia.

O Gerês é um local único e as imagens falam por si…

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Mata da Albergaria – são meia dúzia de quilómetros de terra batida, em estado aceitável, rodeados de vegetação luxuriante. Em dois ou três locais, os tais marcos milenares, que marcavam a estrada entre a Galiza e Braccara Augusta.

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Vista do Miradouro de Pedra Bela – foi aqui em cima, a mais de 800 metros de altitude, que soubemos que o nosso sobrinho-neto, Martim, já nascera! Lá ao fundo, o Cávado e a albufeira da barragem da Caniçada. Na encosta, í  direita, escondida pelo penedo, a Vila do Gerês.

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Rio Arado – no inverno, este rio e a respectiva cascata devem ser mais espectaculares. Mesmo assim, o sítio é muito bonito e, do outro lado da ponte, as pedras são maiores e mais redondas, fazendo lembrar o vale da Lua, na Chapada dos Veadeiros, Brasil.