Os balcões de Sócrates

O choque tecnológico tem destas coisas.

O que dizer desta iniciativa: um balcão, nas lojas do cidadão, onde podemos tratar de todos os documentos, depois de nos roubarem a carteira?

É uma boa ideia. Sem dúvida.

Mas o nome…

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Balcão Perdi a Carteira.

Pode ser defeito meu, mas…

Na foto, publicada num jornal, uma funcionária pública, com ar deprimidíssimo, sobre um fundo vermelho, agressivo, aguarda a investida dos cidadãos. Diz o jornal que, logo no primeiro dia, este balcão foi visitado por mais de 100 pessoas. Vocês acreditam que, só num dia, mais de 100 pessoas perderam a carteira?

Estou a ser duro de mais. Claro que o balcão não se destina apenas a quem tenha perdido a carteira. É apenas uma maneira modernaça de dizer que o balcão serve para tratar de todos os documentos que, habitualmente, trazemos na carteira.

Sendo assim, e seguindo o mesmo raciocínio, proponho a criação dos seguintes balcões:

Balcão Assaltaram-me a Casa e Levaram-me as Pratas

Balcão Roubaram-me os Pneus e Deixaram-me o Carro, que Era um Chaveco

Balcão Levaram-me a Mulher-a-Dias Porque lhe Ofereceram um Ordenado Melhor e Inscrição na Segurança Social

Balcão Fui Despedido e Quero o Rendimento Mínimo

Balcão Sofro de Várias Doenças Crónicas, Vivo Numa Barraca, Estou Desempregado, Sou Toxicodependente e Sou de Outra Etnia

Balcão Fui Sodomizado e Não Vi Nada Porque Estava de Costas

 

Aceito outras sugestões…

A alcachofra selvagem do Dr. Santos

Chamo-me Santos e sou médico, mas não sou responsável pelas alcachofras selvagens. Juro!

Portanto, se receberem, na vossa caixa do correio, uma série de folhetos sobre a alcachofra selvagem, enviados pelo Dr. Santos, não tenho nada a ver com o assunto.

Mas tenho pena, confesso.

A alcachofra selvagem, a acreditar no Dr. Santos faz o seguinte:

– alivia e pára as dores (1)
– elimina as inflamações
– reconstrói a cartilagem
– lubrifica as articulações
– reforça o capital ósseo
– desperta a memória
– estimula as capacidades intelectuais
– melhora a vista, o ouvido e o olfacto (2)
– alisa os tecidos do interior, apaga as rugas e faz crescer o cabelo perdido (3)
– reduz a tensão arterial
– drena o sangue
– purifica as artérias
– elimina a diabetes e o colesterol (4)
– aumenta a resistência aos esforços
– desperta a libido
– provoca desejo, prazer
– aumenta consideravelmente o desempenho sexual
– reaviva o prazer e o tónus
– exalta as relações amorosas

(1) – se pára as dores, não é necessário aliviá-las…

(2) – se a janela da sua sala dá para um baldio cheio de ervas e lixo, depois de tomar a alcachofra selvagem, passará a ver uma praia paradisíaca, com um oceano azul-turquesa e uma areia fina e branca, porque a alcachofra “melhora a vista”.

(3) – o que serão os “tecidos do interior”? Será aquilo com que somos feitos por dentro? Faz crescer o cabelo perdido? Então, se o cabelo me estiver a cair pela casa fora, ele vai crescer se eu tomar alcachofra? Isto quer dizer que, quando eu chegar a casa, tenho o chão da sala cheio de cabelos enormes!

(4) – se elimina a diabetes, que interessa o colesterol?

Este Dr. Santos promete que, com 2 cápsulas diárias de alcachofra selvagem, qualquer velhote volta í  adolescência e tem a lata de mostrar a foto de um velho numa cadeira de rodas e, depois do tratamento, a fazer desportos radicais; e de uma velha, também numa cadeira de rodas e, depois, a andar de trotineta a velocidade estonteante.

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O mais grave é que o Dr. Santos tem um rosto e tem um apartado, no Estoril, no nome de um tal Centro de Vida Sã.

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Este Dr. Santos, tem a lata de prometer eliminar todas as dores em 2 dias, contribuir para o rejuvenescimento em 3 dias e alcançar o nirvana em 8 dias, que é como quem diz, voltar a mandar grandes quecas, apesar de se ter 95 anos e uma pila mais engelhada que o sovaco de um náufrago, perdido no Pacífico, sem água, há mais de três semanas!

A ASAE, que anda atrás dos ciganos que vendem Lacoste falsas e dos brasileiros que vendem bolas-de-berlim fritas em óleo saturado, não vão a casa deste Dr. Santos perguntar-lhe como é que ele pode prometer í s pessoas que elimina a diabetes com 2 cápsulas de alcachofra selvagem por dia?

Ou esta é uma daquelas coisas que só compra quem quer e está-se mesmo a ver que é aldrabice?

…é que as Lacoste dos ciganos, também…

O arcebispo e as camisinhas

Leio e não acredito.

O arcebispo do Maputo, Francisco Chimoio, acusa os europeus de infectarem propositadamente preservativos com o vírus da sida, «para acabar com o povo africano».

Ora tomem lá as palavras do arcebispo, em entrevista í  BBC, citadas pelo DN: «os preservativos não são seguros porque eu sei que há dois países europeus que estão a produzi-los com o vírus de propósito».

Claro que o arcebispo não disse quais eram esses países, mas acrescentou que a melhor maneira de evitar a sida, não é o uso de camisinhas, mas sim a abstinência. E ainda teve a lata de afirmar que os medicamentos retrovirais também estão infectados com o vírus da sida.

Em Moçambique, surgem, todos os dias, 500 novos casos de sida (calcula-se, porque saber, ninguém sabe). E é desta maneira que a igreja ajuda o seu povo: contribuindo para a sua ignorância e, no fundo, para a sua auto-destruição. Se a igreja condena o uso de camisinhas e até avisa: «cuidado, que as camisinhas estão infectadas!», a malta não vai usar preservativo – mas também não vai manter a abstinência, como o invejoso do arcebispo preconiza. Vai é continuar a propagar a doença e, desse modo, contribuir para o fim do povo africano, como Chimoio prevê, aliás.

Será que o homem é tolo, além de arcebispo, ou é esta a política oficial da igreja moçambicana?

Osculo-te, Santana Lopes!

E cá temos mais um sinal do apocalipse: o Sr. Lopes tomou uma atitude digna, correcta, com a qual estou de acordo, que merece o meu aplauso, que tem todo o meu apoio, que admiro, que eu gostaria de ter tomado – não posso ser mais encomiástico, pois não?

Claro que já toda a gente sabe o que foi, mas vou dizer na mesma, para que fique registado.

Estava o Sr. Lopes a ser entrevistado, na Sic Notícias, sobre as eleições no PSD, quando a jornalista o interrompe para passar a emissão directamente para o aeroporto da Portela, porque acabava de chegar o Mourinho (o José, aquele que foi treinador do Chelsea).

Quando a emissão regressou ao estúdio, o Sr. Lopes disse que aquilo não se fazia, que ele estava ali com prejuízo da sua vida pessoal e que o “país está louco”. Levantou-se e foi-se embora.

Grande Santana!

Podem dizer: ah e tal, o gajo anda sempre de braço dado com os jornalistas, agora reagiu assim porque ficou chateado, mas na próxima oportunidade já está, outra vez, ao beijo na boca.

Não interessa!

Pelo menos naquele momento, o Sr. Lopes mostrou, em directo, a saloiice dos nossos jornalistas que, no caso do Mourinho, andam completamente apaixonados. O homem cospe e vão-lhe recolher o cuspo; o homem espirra, e publicam-lhe os perdigotos na primeira página.

Sr. Lopes: peço-lhe desculpa pelas duras palavras que, em tempos lhe dirigi. Com esta sua atitude, acabo de lhe perdoar cerca de 45% das suas asneiras. Outro gesto como este e você fica pronto para regressar í  chefia do governo.

“Dreamgirls”, de Bill Condon

dreamgirls.jpgEstive na dúvida: alugo ou não alugo este dvd? Por um lado, não me apetecia muito ver um filme “musical”, por outro, tinha alguma curiosidade, até porque acho piada aos “hits” das Supremes.

Acabei por trazer o filme. É uma seca. í€s tantas, parece uma ópera rock de segunda categoria (haverá outras). Das Supremes, nada, a não ser o facto de a história ser mais ou menos parecida com a de Diana Ross (“que nunca Diana Ross por onde Jean-Jacques Rousseau…”, como se dizia no Pão Comanteiga).

A partir do meio do filme, o botão do fast-forward funcionava sempre que a dreamgirl mais gordinha começava a cantar, tipo Aretha Franklin, em dia de menstruação. Está bem, o Eddie Murphy faz um excelente soul singer, tipo Wilson Picket e admito que a Beyoncé Knowles é jeitosa todos os dias, mas é pouco.

No fim, um tipo fica aliviado por o filme acabar e com uma cãibra no indicador por ter passado muito tempo a carregar no fast-forward (é que são 125 minutos, caramba!).

“Letters from Iwo Jima”, de Clint Eastwood

cartasiwojima.jpgQuem diria que o piroso cowboy dos western-spaghetti se iria transformar numa realizador de culto, cada vez mais do agrado dos críticos europeus…

Juro que sempre gostei do velho Clint, mesmo quando o gajo provocava os “bad guys”, dizendo «make my day» e, depois, os matava sem dó nem piedade. Continuei a gostar dele, como cowboy, como sargento de ferro e até como artista de circo falhado (nos filmes da série Bronco Billy). Mas agora, o homem é um mestre.

Este filme, para além de um ritmo narrativo muito diferente do que é habitual nos filmes de guerra realizados por norte-americanos, tem também a particularidade de nos mostrar a guerra do lado dos japoneses. Em “Letters from Iwo Jima”, os heróis são os japoneses, o que não é nada habitual para um filme “made in Hollywood”.  

O filme narra a defesa daquela pequena ilha vulcânica que, supostamente, seria arrasada pela aviação e pela marinha americanas em três tempos, mas que, graças ao heroísmo dos soldados chefiados pelo general Kuribayashi, resistiu 40 dias.

Formalmente (ritmo, fotografia, montagem), pareceu-me exemplar.

Incompatibilidades

Tinha um hordéolo, vulgo, treçolho.

Mediquei-o com as gotas e a pomada habituais.

Sorriu e exibiu um teclado frontal só com teclas pretas e quase todas partidas. Perguntou:

– Posso beber vinho com estes medicamentos?

– Desde que não exagere… – respondi.

Viu-se que ficou contente. Levantou-se para se ir embora mas, antes, não quis deixar de fazer mais uma pergunta:

– E posso fumar cigarros para rir?

Fiz de conta que meditava um pouco e respondi:

– Isso, eu não aconselho… com esses dentes, o melhor é você manter-se sério…