Archive for February, 2007

O mar reconquista a Costa

Sunday, February 25th, 2007

Praia da Costa de Caparica, 1984

costa1984.jpg

Praia da Costa da Caparica, 2007

costa2007.jpg

“Volver”, de Pedro Almodôvar

Sunday, February 25th, 2007

volver.jpgAlmodôvar gosta de filmar mulheres. “Volver” é uma história sem homens: apenas Paco, companheiro de Raimunda (Penélope Cruz), faz uma curta aparição, bebendo cerveja, enquanto assiste, na televisão, a um jogo de futebol, ao mesmo tempo que olha, lubricamente, para as pernas da filha adoptiva. No dia seguinte, estava morto.

A crendice popular, de que os mortos podem regressar à Terra, se tiverem deixado alguma promessa por cumprir, faz com que algumas das personagens de “Volver” não se apercebam que a mãe de Raimunda (Carmen Saura), afinal, não regressou dos mortos. Afinal, ela nunca chegou a morrer. O corpo carbonizado da mulher, na cama, ao lado do corpo do pai de Raimunda, era da amante, a mãe de Agustina, a “hippie” da aldeia.

O argumento é de telenovela e, talvez por isso mesmo, a irmã de Agustina é produtora de um “reality show” televisivo, dedicado a encontrar pessoas desaparecidas.

Mas, entre o “kitch” e a pieguice, o humor de Almodôvar parece levar a melhor e o filme é recomendável.

No entanto, Penélope Cruz parece um pouco deslocada naquele ambiente, demasiado sofisticada para uma empregada de limpeza que vive num subúrbio de Madrid e está casada com um morecão. Em resumo: os seus decotes são pouco realistas…

ER – 7ª série

Saturday, February 24th, 2007

er_7.jpgA série de 2000/2001 de “Emergency Room” continua a ser de alta qualidade, com alguns daqueles episódios que nos deixam sem fôlego, tal a quantidade de coisas que acontecem naquelas urgências.

As personagens mais antigas enfrentam novos dilemas: o Dr. Greene descobre que tem um tumor na cabeça, mesmo na altura em que decide casar-se com a Dra. Corday que, entretanto, está grávida. No decorrer desta série, casam-se, ela dá à luz uma menina, Greene é operado por um neurocirurgião novaiorquino, submete-se a radioterapia e vai trabalhar logo no dia a seguir…

Quanto a Carter, depois do internamento, consegue livrar-se da adição aos analgésicos e tenta arrastar a asa à enfermeira Abby que, no entanto, continua a entender-se com o Dr. Kovac, ao mesmo tempo que atura uma mãe bipolar (uma oportunidade para vermos Sally Field fazer um dos seus papéis excessivos).

Benton continua com Chloe que, no último episódio, talvez tenha sido contaminada por um doente seropositivo, enquanto a Dra. Weaver descobre que, afinal, é lésbica, conseguindo sair do armário, já no final da série.

ER é uma daquelas séries que pode continuar indefinidamente, uma vez que o principal personagem da série é o próprio serviço de urgências e os casos clínicos que lá vão parar, mas penso que, em comparação com as primeiras séries, esta 7ª se rende mais às audiências, mostrando alguns casos muito rebuscados, que dificilmente encontram paralelo no dia-a-dia de uma urgência, mesmo que seja em Chicago.

 

Sócrates, dois anos depois

Saturday, February 24th, 2007

O governo de José Sócrates está há dois anos no poder.

Todos estão contra ele mas, se houvesse eleições agora, Sócrates tornava a ter maioria absoluta.

Os portugueses ladram, mas não mordem…

socrates_aperta.jpg

Morte por sistema de travagem

Saturday, February 24th, 2007

A D. Virgínia morreu de repente. Era obesa, diabética, hipertensa e tinha dislipidemia mista. Um típico síndroma plurimetabólico, como agora lhe chamam. O risco de morte súbita era elevado.

A D. Virgínia confirmou as estatísticas.

O marido veio à consulta dois meses depois.

Motorista reformado, o Dr. Rudolfo é homem e poucas falas.

«Não sofreu muito, a sua senhora… foi de repente» – disse eu, depois de lhe apresentar os meus sentimentos.

«Pois foi» – confirmou o Sr. Rudolfo – «Deu-lhe um ABS…»

Eu já nem me espanto, mas tento corrigir:

«Pois… teve uma trombose…»

«Não, não!» – interpõe o Sr. Rudolfo – « Foi mesmo um ABS!»

Para o Sr. Rudolfo, motorista reformado, ABS e AVC não passam de sistemas de travagem rápida – do carro, ou da vida…

Jardim já não é o que era

Sunday, February 18th, 2007

O incrível Alberto João Jardim disse, aos jornalistas, que não havia ninguém em Portugal que “tenha testículos” para aceitar que o referendo sobre o aborto não foi vinculativo.

Desta vez, AJJ foi comedido. Não disse, por exemplo, que “Sócrates não tem tomates”, ou mesmo que “o governo não tem colhões”.

Ficou-se pelos testículos.

Está mais moderado, o líder madeirense.

Sinal dos tempos?

Sinceramente, fiquei desiludido com AJJ.

Ele, que costuma ser um homem com tomates para dizer o que lhe vai na alma, não teve tomates para dizer tomates.

Ou colhões.

Só testículos.

Está a amolecer.

Não tarda nada, está a elogiar Sócrates.

jardim_testiculos.jpg

Saudades de Santana

Sunday, February 18th, 2007

Carmona Rodrigues e a sua equipa estão a conseguir algo de impensável: os lisboetas começam a ter saudades de Santana Lopes.

Com a confusão que existe na Câmara de Lisboa, já há por aí muito boa gente a perguntar o que é feito do Sr. Lopes. Ele, ao menos, não fingia o que não era. Todos sabíamos com o que podíamos contar. Ninguém se espantava com as suas broncas.

Agora, o Sr. Carmona, não: tem aquele ar de gajo porreiro, de pessoa honesta e compenetrada do seu trabalho. Depois, vai-se a ver e é buraco atrás de buraco.

Volta Santana, estás perdoado!

carmona.jpg

Um exemplo a não seguir

Friday, February 16th, 2007

Ainda há um pouco a mania, entre nós, de copiar as coisas que se fazem lá fora.

Mas nem tudo o que se faz lá fora é bom.

Um exemplo: Hugo Chavez (aquele democrata, que é Presidente da Venezuela e que agora governa por decreto), tinha um programa semanal de rádio e televisão, chamado “Alô Presidente”. Era transmitido aos domingos e durava quatro horas. Coisa leve. Durante essas quatro horas, Chavez arengava aos venezuelanos, fazendo propaganda da sua política, atacando os seus adversários e, quem sabe (eu nunca vi o programa), dando dicas sobre culinária, ponto de cruz e arranjos florais.

Pois agora, Chavez decidiu que o programa passaria a ser diário, de segunda a sexta, embora só com hora e meia de duração.

Imaginem, só por um momento, um programa semelhante, com o Presidente Cavaco Silva.

…Socorro!…

Vendam a cocaína!

Friday, February 16th, 2007

Portugal foi o segundo país da Europa que maior quantidade de cocaína apreendeu em 2006: mais de 34 toneladas.

Melhor que nós, só a Espanha, com 47 toneladas.

O Público faz as contas: a 45 euros a grama, a cocaína apreendida renderia mais de 1,5 milhões de euros – cerca de metade do que vai custar o aeroporto da Ota.

Ó Sócrates: estás à espera de quê, pá?

Criança triste, criança alegre

Friday, February 16th, 2007

Segundo um relatório da Unicef, divulgado ontem, uma em cada cinco crianças portuguesas diz que está triste.

Todos os órgãos de comunicação social parecem chocados com este resultado. Não percebo porquê.

Com o aumento do desemprego, o deficit, os cortes nos benefícios sociais, a eliminação do Benfica, pelo Varzim, a continuação de Carmona à frente da Câmara de Lisboa e Salazar à beira de ser votado o melhor português de sempre, o que me admira é que, em cada cinco crianças portuguesas, haja quatro felizes!

Aliás, este relatório da Unicef é altamente preconceituoso.

Por exemplo: não é a gravidez, uma fase da vida tão bonita para qualquer mulher, a taxa de natalidade não está a baixar perigosamente, não é verdade que, qualquer dia, não há população activa em quantidade suficiente para pagar as reformas aos velhotes? Então, qual é o mal de Portugal ser o terceiro país da Europa com maior taxa de gravidez na adolescência, sendo apenas suplantado pela Hungria e pela Inglaterra? Não deveríamos ter mais grávidas – e quanto mais cedo, melhor?

Outro exemplo: parte-se do princípio, altamente discutível, que a escola é uma coisa boa. É apenas mais um preconceito. E o relatório da Unicef diz que, no que respeita à educação, Portugal está em último lugar, na tabela dos 21 países estudados.

No entanto, se partirmos do princípio que a escola é uma seca, é normalizadora, que incute nas crianças os valores burgueses da classe dominante, então, os nossos putos estão de parabéns, porque são os que mais se borrifam para a escola, isto é, os que se revoltam contra essas regras arbitrárias de que é preciso saber ler e escrever e contar, para ser alguém na vida.

O relatório assinala, ainda, que Portugal é o país onde mais crianças são vítimas de “bullying”. Note-se que, dos 21 países estudados, também faz parte os Estados Unidos onde, de vez em quando, há uns rapazinhos que resolvem entrar lá na escola deles e matar uma série de colegas e professores. Apesar disso, os americanos queixam-se menos de “bullying” do que os portugueses.

Várias conclusões a tirar: ou os americanos não confundem “dying” com “bullying”, ou os putos portugueses são uns queixinhas, logo desde pequeninos e não toleram que lhes chamem “peida gadocha”, “caixa de óculos” ou “pernas de alicate” e acham logo que isso é “bullying”.

Aliás, se Portugal está em primeiro lugar, no que diz respeito ao “bullying”, não se percebe por que raio não inventou um termo português para esta treta.

“Porrada”, por exemplo, é um excelente termo.