Archive for July, 2006

Guerra no Médio Oriente – Teste de respostas múltiplas

Sunday, July 30th, 2006

1. Neste conflito, Israel luta contra:

A – O Hezbollah
B – O Líbano
C – O Irão e a Síria
D – Os palestinianos
E – Todas as anteriores

2. Por que razão a Al-Qaeda ainda não realizou nenhuma acção de retaliação contra Israel, desde que este conflito começou?

A – Porque o Hezbollah é xiita e a Al-Qaeda é sunita
B – Porque a Al-Qaeda odeia os xiitas tanto como os sionistas
C – Porque está à espera de uma trégua para relançar o conflito
D – Porque os atentados no Iraque lhe estão a ocupar o tempo todo
E – Todas as anteriores

3. Por que motivo Bush não convence os seus aliados israelitas a suspenderem os bombardeamentos?

A – Porque lhe dá jeito que Israel gaste os mísseis Patriot todos, de modo a poder vender-lhe versões mais modernas
B – Porque Israel lhe está a fazer o favor de atacar um aliado do Irão, sem que os EUA se metam no assunto
C – Porque Bush pensa mesmo que Israel tem todo o direito de bombardear o sul do Líbano
D – Porque Bush ainda não percebeu muito bem onde raio fica o Líbano
E – Todas as anteriores

4. Não será um exagero destruir vilas e aldeias e matar centenas de civis por causa de dois soldados raptados?

A – Sim, mas se Israel não reagisse, o Hezbollah era muito capaz de raptar mais três ou quatro soldados
B – Não, porque a vida de dois soldados israelitas tem um valor incalculável
C – Sim, mas os civis libaneses são avisados que vão ser bombardeados e só morrem porque querem
D – Sim, bem… não, quer dizer, que importância tem isso?
E – Todas as anteriores

5. Qual o papel da União Europeia neste conflito?

A – Nenhum
B – Papel de parva
C – A União quê?
D – Esta pergunta não faz sentido
E – Todas as anteriores

A correcção deste teste será feita pelo Sr. Koffi Anan ou, no seu impedimento, pelo general Loureiro dos Santos, já que o Nuno Rogeiro deve estar de férias.

Cavaco – o fim de um mito

Saturday, July 29th, 2006

cavaco_duvidas.jpg

Longe vão os tempos em que o primeiro-ministro Cavaco Silva afirmava, convicto, que nunca se enganava e raramente tinha dúvidas.

Essas duas características – juntamente com o facto de nunca ler jornais – constituíam os super-poderes de Cavaco.

Foram esses super-poderes que convenceram o povo e que o levaram a eleger Cavaco como Presidente de todos os portugueses.

E agora, a propósito de uma coisa de nada, de uma colecção de arte moderna ou lá o que é, uma verdadeira mariquice, eis que Cavaco tem dúvidas!

Diz o Presidente: “o diploma suscita dúvidas, principalmente no que refere à distribuição de poderes entre o Estado e o coleccionador” (Joe Berardo).

Ora, se Cavaco tem dúvidas numa questão tão comezinha, o que acontecerá, por exemplo, quando Portugal tiver que tomar uma decisão mais importante, como, por exemplo, declarar guerra ao Hezbollah ou demitir Laurentino Dias por não acreditar na inocência de Nuno Assis, no caso do dopping?

Pior: se Cavaco já tem dúvidas, não tarda nada, está-se a enganar!

Dias negros esperam a nossa querida nação!

Uma reforma Alegre

Friday, July 28th, 2006

A rádio portuguesa está mais pobre: Manuel Alegre reformou-se.

O conhecido deputado do PS e ex-candidato à Presidência da República passou à reforma, depois de ter sido director de não-sei-o-quê, na RDP, há não-sei-quantos-anos, durante um período que não chegou aos doze meses.

O seu reconhecido e admirado trabalho na referida área, foi agora recompensado com uma reforma de três mil e tal euros.

Alegre até ficou espantado. Dizem que já nem se lembrava que tinha trabalhado na RDP. Decidiu acumular a reforma com o ordenado de deputado e, sendo assim, apenas receberá um terço da sua reforma.

Não me quero comparar com o deputado-poeta, mas a verdade é que trabalhei na RTP, entre Maio de 1974 e Dezembro de 1977, como jornalista. Claro que nunca cheguei a director de não-sei-o-quê, mas fui, durante alguns meses, chefe da edição da noite. Coisas da Revolução…

Portanto, se menos de um ano de trabalho na RDP, valem uma reforma de três mil euros, eu devo ter direito a uma reforma principesca pelos dois anos e meio de trabalho na RTP.

Vou já meter os papéis na próxima segunda-feira.

Sopranos – 4ª série

Thursday, July 27th, 2006

sopranos4.jpgA família Soprano continua a fazer-nos companhia aos serões, agora com a 4ª série, de 2002.

Esta série termina com a separação de Tony e Carmela, depois de ela ter descoberto que o marido andava enrolado com a ucraniana perneta. Pelo meio, Corrado livra-se da prisão, depois de o seu julgamento ter sido anulado, graças às ameaças que os capangas fizeram a um dos jurados; Christopher passa três semanas numa clínica de desintoxicação, depois de, completamente pedrado, se ter sentado em cima do caniche de Adriana, asfixiando-o; Adriana começa a colaborar, timidamente, com o FBI; Tony passa-se da cabeça e mata Ralph, esquartejando-o em seguida; e mais, e mais…

Aparentemente livre dos ataques de pânico, Tony desiste da psicoterapia e começa a pensar em voos mais altos, iniciando jogos de bastidores para eliminar a concorrência de Nova Iorque. Parece que, por aquelas paragens, a corrupção de alguns autarcas também é corrente, e todos – mafiosos, autarcas e sindicatos – lucram com um enorme negócio de construção civil, em Newark.

Mas a 4ª série termina com Tony em baixo, novamente: aceita abandonar o lar, desiste da compra da casa da praia e quase que volta a telefonar à Dra. Melfi, marcando nova consulta.

A qualidade da série mantém-se alta e a caracterização das personagens faz com que, às tantas, um tipo até tenha pena do pobre Tony Soprano – o que ele sua para dar uma boa vida à mulher e aos filhos, e como é incompreendido!

Deus é o senhor

Monday, July 24th, 2006

A Marta fez-me chegar este anúncio:

 

antunes.jpg

A última frase do anúncio é deveras misteriosa. Depois de ficarmos a saber que o Sr. Antunes realiza transportes e mudanças para todo o país, e após uma descrição sumária dos serviços prestados e do respectivo preço, levamos com a frase:

“Feliz é a nação cujo Deus é o Senhor”

Qual a relação entre esta frase mística e os serviços prestados pelo Sr. Antunes?

Que nação será essa, em que Deus é o Senhor? O Irão? A Arábia Saudita? O Vaticano?

Aguardamos explicações do Sr. Antunes.

A menos que Antunes seja o senhor…

The Raconteurs – “Broken Boy Soldier”

Monday, July 24th, 2006
raconteurs.jpgFoi o Pedro que chamou a atenção para esta nova banda norte-americana e, como ele escreveu, no Macacos, que algumas das suas canções soavam aos Beatles, comprei o disco. Um pouco de nostalgia sabe sempre bem.

E foi uma excelente surpresa.

A banda é formada por Jack White (voz, guitarra e sintetizadores), dos White Stripes, Jack Lawrence (baixo), Patrick Keeler (percussão) e Brendan Benson (guitarra e voz).

É verdade que alguns temas soam a coisas que os Beatles fizeram, mas não só. Todo o disco é um revivalismo do rock dos anos 60 e da primeira metade dos anos 70.

O primeiro tema, “Steady, as she goes”, podia muito bem ter sido composto por Lennon e McCartney; “Intimate secretary” soa a algumas das coisas que George Harrison fez, no período em que andou metido na meditação transcendental e no LSD; “Call it a day” tem harmonias vocais que fazem lembrar “Rubber Soul”.

Mas há outras “influências”: “Hands”, soa a Marc Bolan e T. Rex; “Broken Boy Soldier”, podia ser dos Stones; os Bee Gees dos primeiros tempos, não desdenhariam “Together”; qualquer banda de segundo plano dos anos 60 (tipo Small Faces, Lovin’ Spoonfull ou Hollies) poderia ter composto “Yellow Sun”; “Store bought bones” tem um início de teclas que faz lembrar os Nice e os Emerson, Lake and Palmer. Finalmente, “Blue Veins” é um blues que parece ser tirado de “Then Play On”, dos Fleetwood Mac, no tempo em que o Peter Green ainda pontificava.

Dito desta maneira, até parece que The Raconteurs se limitaram a fazer um disco a imitar todas estas bandas dos anos 60 e 70.

Não é verdade. Quase toda a música popular soa a qualquer coisa que já foi feita antes. E se estes quatro putos, muito provavelmente, cresceram a ouvir rock dos anos 60, por que não fazer um disco assim?

Fizeram muito bem e eu gosto!

Veleiros no tejo

Sunday, July 23rd, 2006

A 50ª Grande Regata Tall Ships passou por Lisboa. Dezenas de grandes veleiros exibiram-se no Tejo e misturaram-se com muitos outros veleiros, mais pequenos. Hoje, a partir das 11 horas, as águas do rio estavam a abarrotar de velas.

É um privilégio poder passear pelo Ginjal e ver o Tejo assim tão cheio de vida!

Ao contrário do que é costume, hoje o cais do Ginjal, tinha muita gente. Vieram todos para ver os grandes veleiros, como o italiano Américo Vespuccio ou a portuguesa Sagres.

veleiros.jpg

O cais do Ginjal está abandonado há décadas. Com um panorama privilegiado sobre Lisboa e o seu imenso rio, o Ginjal é um conjunto de edifícios abandonados das antigas fábricas de conserva de peixe. Esses edifícios, em ruínas, albergam agora bandos de imigrantes romenos e não só, que, aos poucos, foram ocupando os espaços ao abandono. O lixo acumula-se: garrafas de cerveja, latas, plástico. Ao fundo do cais, cerca de dois quilómetros para lá de Cacilhas, em direcção à ponte sobre o Tejo, grandes barracões abandonados são, agora, depósitos de lixo. Ao longo do cais, os pescadores de fim-de-semana atiram para o chão as caixas dos iscos, os papéis onde embrulham as sandes do lanche e as eternas garrafas de mínis.

Os poucos visitantes, muitos deles estrangeiros, que se aventuram pelo cais, habitualmente não vão além do elevador panorâmico que, ironicamente, está avariado, logo agora que, em época alta, o local tem mais visitantes. Mas, para além do elevador e do jardim que o rodeia, há outro cais para descobrir, e mais ruínas e mais lixo.

Suspeito que a maior parte da gente que vive em Almada e arredores nem sonha que tem aqui, no Ginjal, um passeio tão agradável.

E a Câmara de Almada, neste caso, ou está desinteressada ou valores mais altos se levantam.

(Mais fotos dos veleiros cruzando o Tejo, em direcção ao mar, podem ser vistas no Flickr).

“Made in America”, de Bill Bryson

Saturday, July 22nd, 2006

madeinamerica.jpgNeste calhamaço de quase 600 páginas, publicado em 1994, Bryson apresenta-nos a História informal da América. A sua leitura ajuda quem, como eu, por lá andou há pouco tempo, a compreender algumas das idiossincrasias desse imenso país que, apesar de ser uma manta de retalhos, não deixa de ter uma verdadeira unidade nacional.

São vinte um capítulos que abrangem a História não oficial dos EUA, desde o Mayflower à era espacial, com um enfoque muito especial na língua inglesa, tal como ela é falada pelos americanos.

No capítulo “Nomes”, Bryson conta que, quando a linha férrea estava a ser instalada no estado de Washington, em 1870, um dos vice-presidentes da companhia teve como tarefa dar nome a 32 novas comunidades que iam nascer, ao longo da linha. E então “deu nomes às comunidades de tudo e mais uma alguma coisa, desde poetas (Whitier) e peças de teatro (Othello), a tipos de comida caseira (Ralston e Purina).”

Verifiquei isso mesmo, ao atravessar o South Dakota, o Iowa ou o Wyoming e ao deparar em localidades com nomes como Gillette, Atomic City, Montpelier, Alcova, Dinossaur, Eureka, Medicine Bow, Ten Sleep.

Fiquei também a saber (embora já suspeitasse), que a maior parte dos mitos sobre os tempos dos cowboys foram inventados por Hollywood. Por exemplo, aquela história das caravanas dos colonos se disporem em círculos, para melhor se defenderem dos ataques dos índios, é uma aldrabice. Diz Bryson: “durante a maior parte da viagem as carroças avançavam em filas paralelas com distâncias entre si que podiam ir até 15 quilómetros, a fim de evitar a poeira umas das outras e também os sulcos das rodas daqueles que tivessem por ali passado antes deles – o que criava mais um obstáculo à formação do tal círculo defensivo”.

No que respeita à comida americana, é verdade que ele não presta, mas também é verdade que os próprios americanos parecem ter vergonha dela, ao inventar nomes estrangeiros para coisas que eles inventaram.

Diz Bryson: “O Russian dressing é desconhecido pelos russos, assim como a variedade americana de French dressing é desconhecida para os franceses. A vichyssoise não foi criada em França mas em Nova Iorque, em 1910, e o queijo Liederkranz não veio da Alemanha, nem sequer da Áustria ou da Suíça, mas de Monroe, em Nova Iorque, onde foi criado em 1892. Em Espanha, o chilli com carne era desconhecido até ao momento em que foi lá introduzido pelo Novo Mundo. Salisbury steak não tem nada a ver com a cidade inglesa famosa pela sua catedral (foi chamado assim por um americano – o Dr. J. H. Salisbury), nem o Swiss steak tem o mais pequeno pedigree alpino. Chop suey (baseado no cantonês para ‘miscelânea’) surgiu pela primeira vez em San Francisco nos finais da década de 1800 (e não na China). O bolinho da sorte foi criado em Los Angeles na segunda década do século XX. Ainda mais recente é o chow mein, que apareceu em 1927.”

Uma das características mais marcadas dos americanos parece ser transformar a mais pequena novidade numa verdadeira mania, e fazê-lo de tal maneira, que suplantam sempre todos os restantes povos. Os exemplos são inúmeros, ao longo do livro, desde os patins aos centros comerciais. Bryson diz-nos que, assim que a bicicleta atravessou o oceano e se instalou na América, por volta de 1882, os americanos aderiram de tal forma à novidade que, em 1895, existiam cerca de dez milhões de bykes nos EUA.

Byke” é um dos milhares de termos novos, introduzidos na língua inglesa, graças aos americanos, que têm uma predilecção especial por abreviar palavras. Os exemplos são, também, aos milhares, desde “vic“, em vez de victim, até “fab“, em vez de “fabulous“. Outra coisa de que eles gostam muito é de usar neologismos, a partir de siglas, mesmo com os palavrões. Bryson dá alguns exemplos: tuifu (the ultimate in fuck-ups), tarfu (things are really fucked up), fubar (fucked-up beyond recognition), e fubid (fuck you, buddy, I’m detached).

O dinheiro, a imigração, as viagens, a comida, as compras, a educação, a publicidade, o cinema, os desportos, a política e a guerra, o sexo – são outros tantos assuntos escalpelizados exaustivamente por Bill Bryson, neste livro essencial para quem quiser conhecer melhor os EUA, os seus tiques e as suas manias.

Os reis dos patins

Friday, July 21st, 2006

Celina, uma leitora do Coiso, está espantada por não haver écrans gigantes onde o povo possa ver a selecção nacional de hóquei em patins, que, em Itália, disputa o campeonato da Europa.

Para que fique registado, a selecção derrotou Andorra por 3-0, a Suíça por 7-0 e a Áustria por 24-0!

Hoje, joga a meia-final com a Espanha.

Pois eu vou explicar à Celina por que razão 95% dos portugueses nem sabe que se está a disputar o campeonato europeu desta modalidade, e isto, apesar de Portugal se arriscar, sempre, a ser campeão ou, no mínimo, ficar entre os quatro primeiros lugares.

Acontece que nem a Nike, nem a Adidas, fabricam patins.

Acontece que não há nenhum jogador da selecção de hóquei que esteja casado com uma modelo sueca ou que namore com uma apresentadora de televisão.

Acontece que o hóquei é uma modalidade um pouco inestética: os praticantes da modalidade jogam todos curvados para a frente, raramente se lhes consegue ver o rosto, andam sempre com um pau na mão e a bola é tão pequena que nem nas repetições em câmara lenta se vê, quando ela entra na baliza.

Acontece que o Roberto Leal nunca se interessou pelo hóquei e não está interessado em cantar o hino na abertura dos jogos.

Acontece que a Sportv se está borrifando para o hóquei e o único canal que se mostrou disponível para transmitir os jogos foi a RTP-2, porque alguém lá da direcção, acha que aquilo é algum tipo de arte suburbana e underground.

Acontece que não existem comentadores capazes de explicar as tácticas – aliás, nem faria sentido jogar um jogo daqueles, por exemplo, em 4-3-3, porque os jogadores são só cinco de cada lado.

Acrescente-se que o actual campeonato se está a disputar num pavilhão sem ar condicionado, sem condições para a prática desportiva e – já agora – sem espectadores.

Ah!… e mais uma coisa: segundo o jogador italiano Alessandro Bertolucci, a Itália ganhou apenas por 4-0 à Áustria porque “nos disseram para não marcarmos mais de quatro golos”. Deste modo, devido à diferença entre golos marcados e sofridos, a Itália safou-se de jogar contra Portugal ou Espanha, nas meias-finais, indo jogar contra a frágil Suíça.

Sem comentários.

O império do fait-divers

Thursday, July 20th, 2006

A escalada de violência no Médio Oriente voltou às primeiras páginas dos jornais e à abertura dos telejornais.

Nos primeiros dias deste novo (?) conflito, a comunicação social portuguesa parece ter estado a leste (ou a oeste, neste caso…). Enfim, eram mais umas bombazitas que, ao fim e ao cabo, até matavam menos pessoas que qualquer atentado no Iraque.

Mas, de repente, surgiu um motivo bom para abrir telejornais: havia portugueses no Líbano e queriam ser repatriados. Ora aí está algo que permite uma entrevista no aeroporto, daquelas que tocam o coração de quem está a ver – “é horrível! não conseguimos dormir por causa das explosões!”

Pessoas reais que nos contam as suas angústias, e não palestinianos ou libaneses ou israelitas, que vivem lá, que têm familiares mortos, que viram as suas casas destruídas pelas bombas e pelos rockets.

A tragédia é mais real no singular. Eu consigo sentir compaixão perante uma morte – não sou capaz de sentir o mesmo perante 20, 30, 300 mortes.

Aliás, é sintomática a diferença de tratamento jornalístico, por exemplo, entre tsunamis. Alguém notou que aconteceu mais um tsunami na Indonésia? Morreram mais de três centenas de pessoas e outras tantas estão desaparecidas. Só que, desta vez, pelos vistos, havia menos turistas na região, não há gravações de vídeo amadores e a notícia perde-se no meio do telejornal.

Voltando ao conflito israelo-libanês, os telejornais gastam mais tempo com as entrevistas aos ocidentais que estão a ser repatriados do que, propriamente, com o conflito em si, as suas causas e as suas consequências.

Tudo se resume a colagem de fait-divers. Ontem, no telejornal da RTP-1, vi uma reportagem inacreditável: um suposto membro do Hezbollah, guiava um jornalista da BBC pelo meio dos escombros resultantes das explosões israelitas e ia debitando propaganda a favor do seu movimento. A espaços, fazia notar quão perigoso era estar ali porque, a qualquer momento, poderiam ser vítimas de uma bomba sionista. O que interessava na reportagem era que nós, confortavelmente sentados nas nossas casas, percebêssemos o que o repórter estava a sofrer, naquele momento, o perigo que ele corria, o que ele arriscava, só para nos dar aquela sensacional reportagem.

A substância da coisa era nenhuma: nem o autóctone representava coisa nenhuma (podia ser um simples guia turístico, em busca de uma boa gorjeta), nem a reportagem provava nada, embora nos quisessem fazer crer, com aquelas imagens, que Israel se limita, afinal, a bombardear alvos civis, e não alvos do Hezbollah.

Noutro momento, a RTP-1 ofereceu-nos o general Loureiro dos Santos, que nos foi explicar a estratégia de Israel, referindo que os judeus bombardearam o aeroporto de Beirute e a auto-estrada Beirute-Damasco, para evitar a fuga dos terroristas ou o seu rearmamento.

Afinal, é tudo tão simples: há os bons e os maus, ou os menos bons e os menos maus e tudo se justifica com meia dúzia de frases feitas e lugares comuns.

Suspeito que a maioria dos portugueses olhe para tudo isto como quem está a ver mais um reality show.

Os israelitas baseiam toda a parafernália de bombas com o facto do Hezbollah ter raptado dois soldados judeus.

Eu, se fosse ao Hezbollah, devolvia imediatamente os soldados raptados: “tomem lá, que a gente não quer estes gajos para nada!”

Sempre queria ver se, depois disso, Israel parava imediatamente com as bombas…