Eufemismos futebolísticos

No regresso de Rui Costa ao Benfica, o presidente Vieira disse qualquer coisa como isto: “o Rui disse-me, diga-me onde eu assino e, depois, o presidente põe lá a verba que eu vou auferir!”

Como George Carlin faria notar, estamos perante mais um eufemismo. E, quando se usam eufemismos, é porque nos estão a enganar.

Então, eu ganho um ordenado, mas o Rui Costa aufere uma verba.

Está bem. Compreendi-te.

Bom, e agora que já temos um nº 10 para orientar o jogo da equipa, só nos falta um avançado como deve ser, para concretizar (como sabem, no futebol, também já não se metem golos – concretizam-se golos).

Para quando o regresso do Eusébio?

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“O Código Da Vinci”, de Ron Howard

davincicode.jpgNão percebo tanto alarido. “O Código da Vinci”, de Dan Brown é apenas um livro de aeroporto, como diz Pulido Valente e o filme, realizado por Ron Howard, é apenas um filme.

No entanto, os críticos disparam em todos os sentidos. Que o livro é um conjunto de aldrabices bem urdidas e que a trama está cheia de erros. E depois? Qual foi o objectivo de Dan Brown, ao escrever este livro? Revelar, ao mundo, que, afinal, Jesus Cristo teve vida sexual, que fornicou com Madalena e que ela teve o seu filho – ou “apenas” ganhar uns milhões de dólares, escrevendo um best-seller? E, como best-seller, como livro de aeroporto, que se devora numa viagem de avião, está, ou não está, muito bem esgalhado?

Mas se, no que respeita ao livro, a Igreja católica e os guardiões da Verdade cristã se mantiveram, mais ou menos, indiferentes, no que respeita ao filme, as coisas mudaram de figura – e de que maneira!

Não admira: há muitos católicos analfabetos ou que nunca leram um livro na vida (nem a Bíblia!). Mas a imagem tem mais poder.

Até o Papa Ratzinger se sentiu na obrigação de dizer isto: “(actualmente) também há pessoas que querem falsificar a palavra de Cristo e retirar a verdade ao Evangelho”. Será que o livro e o filme são assim tão importantes, que mereçam que o Papa se incomode e que chame a atenção dos fiéis para essa grande “conspiração” que nos quer fazer crer que, afinal, Cristo não passava de um homem como os outros? Será que, ao fim e ao cabo, a Igreja, nesta história toda, tem segredos a esconder?

Nos EUA, organizaram-se manifestações, em frente aos cinemas, para protestar contra o filme. Nos jornais, pregadores evangélicos pagaram páginas inteiras de anúncios contra o filme. Vi um destes anúncios, no USA Today, da responsabilidade da American Society for the Defense of Tradition, Family and Property, que incitava: “reject this film and show your love for Our Lord Jesus Christ, by joining me in one of 1000 peaceful prayer vigils before theaters across América”.

Tanto barulho para nada! O filme até é fraquinho, não conseguindo transmitir-nos o suspense que o livro nos provoca. Tom Hanks pode ser um bom guarda prisional, um bom comandante da Apollo 13, ou até um bom totó, preso num aeroporto porque o seu país deixou de existir – mas não é um Professor Langdon convincente. Do mesmo modo, Audrey Tautou não consegue deixar de ser uma Amélie parvinha, que aterrou neste filme por engano. Depois, Howard quis enfiar o Rossio na Betesga, isto é, não adaptou o livro, tentando enfiar todos os pormenores do livro, em duas horas e meia de filme.

Não conseguiu.

A turbulência nos aviões é de propósito!

Alguém acredita que a turbulência, nos aviões comerciais, é inevitável?

Estão a ver um Boeing 747, aquela bisarma com 70 metros de comprimento e 64 de envergadura, com capacidade para mais de 400 passageiros? São milhares de toneladas. E, no entanto, voam. Aceleram durante uns minutos, na pista, e elevam-se nos ares, como se não pesassem senão umas gramas. De repente, estão acima das nuvens e cruzam os céus, com elegância.

Ora, este facto é, ou não é, uma espécie de milagre da engenharia aeronáutica?

Claro que é.

Agora, não me venham dizer que os engenheiros que conseguem que um monstro destes voe, não são capazes de evitar a turbulência! E não me venham dizer isso, porque eu não acredito! Claro que conseguem acabar com a turbulência!

Mas não querem!

Os engenheiros aeronáuticos não acabam com a turbulência para que nós, os simples viajantes, continuemos a ter medo de voar ou, pelo menos, continuemos a ter algum respeito por isso.

Se acabasse a turbulência, nós íamos para um voo como se fí´ssemos apanhar o cacilheiro para o Terreiro do Paço e acabava-se toda aquela história de ter que estar duas horas antes no aeroporto, a detecção de metais e todas as outras tretas da segurança. Já se imaginaram a ter que ir para a estação da Rotunda, duas horas antes de apanharem o Metro para o Socorro?

Claro que não!

Esta história da turbulência não passa de uma invenção dos engenheiros aeronáuticos e já é tempo de eles serem desmascarados!

Abaixo os urinóis!

Os urinóis masculinos são um caso sério de discriminação sexista.

Por que razão as mulheres têm direito a urinar em casinhas fechadas, e os homens são obrigados a mijar uns ao lado dos outros, apenas com uma pequena faixa separadora, que nem sempre existe?

Não percebo por que é que uma mulher se pode isolar num cubículo, baixar as cuequinhas e fazer chi-chi í  vontade, podendo soltar, até, um ou outro traque, em completa privacidade, enquanto o homem tem que partilhar a visão da sua pila com os parceiros dos lados e, se quiser soltar um gás, é logo descoberto!

Não vejo por que os homens e as mulheres devem ser tratados de modo diferente, no que diz respeito í s casas de banho públicas.

Já mijei em urinóis públicos nos cinco continentes e irrita-me estar ali, de pé, de pila na mão, e saber que posso estar a ser escrutinado pelo fulano do lado e a sentir, nas costas, o olhar ansioso do prostático que se segue e que já mal aguenta a urina. Um tipo inibe-se e acaba por não mijar em condições!

E depois, há aqueles tipos que ficam longas horas agarrados í  pila, puxam-na, abanam-na, espremem-na, torcem-na, afagam-na, fazem pequenas flexões com as pernas, joelhos para fora, como se estivessem a libertar os testículos de algum aperto. Um tipo entra nos lavabos (nos lavabos?! Que raio de nome para um sítio onde, a única coisa que se lava, quando se lava, são as mãos!), e aquele fulano já lá está. Logo por azar, não há mais nenhum urinol livre e, como estamos aflitos, não temos outro remédio senão urinar ao lado do tarado. E percebemos que ele está a olhar para o nosso instrumento, por cima da tal faixa separadora, está a avaliá-lo, a medi-lo, a classificá-lo. Quem consegue mijar nestas condições?

Não existe nenhuma razão científica para que as mulheres possam urinar em privado e os homens tenham que participar numa espécie de piss party, com todos a mijar em comunidade.

O que impede os fabricantes de urinóis de fazerem um cubículo para cada urinol?

Ou, por que não sermos mais radicais? Por que não acabar com os urinóis? Por que não fazer casas de banho iguais, para ambos os sexos? Por acaso, alguém tem um urinol em casa?

A sanita serve perfeitamente!

Vamos lá mudar esta coisa!

Crime Scene Investigation – 2ª série

csi_2.jpgNos EUA, o CSI continua em grande, com séries de Las Vegas, Nova Iorque e Miami. Nas lojas de souvenirs, há t-shirts com o logo do CSI e, por baixo, o nome de qualquer cidade ou lugarejo.

Nas televisões, passam verdadeiras maratonas de episódios e, neste momento, a série de Las Vegas, já deve ir na 5ª ou 6ª época.

A 2ª série não traz grandes novidades, em relação í  anterior. A série estava, ainda, em desenvolvimento. Mantêm-se as mesmas personagens e a opção dos autores é deixar a vida privada das personagens afastada dos enredos – ao contrário do que acontece, por exemplo, no ER e no Nip/Tuck. Portanto, cada episódio foca-se, apenas, num determinado crime e na maneira como a equipa do CSI consegue resolvê-lo, com recurso í s tecnologias já nossas conhecidas.

Espero que, na 3ª série, surja algum pormenor novo, caso contrário, o tédio pode começar a instalar-se.

“Entre os lençóis”, de Ian McEwan

entrelencois.jpgPublicado em 1978, este livro de McEwan reúne sete contos, qual deles o mais perverso.

Começa com o conto “Pornografia”, em que um sócio de uma loja de artigos pornográficos se vê confrontado com a aliança entre duas das suas namoradas que, no final, lhe reservam uma grande surpresa. E continua, com outras história, todas elas muito estranhas e que, sinceramente, não me entusiasmaram muito.

“Experiências com a Verdade”, de Paul Auster

auster_experiencias.jpgNeste livro de 1995, Auster reúne entrevistas sobre a sua obra, prefácios a alguns livros de outros autores e pequenos relatos autobiográficos.

Estes relatos, de algum modo, são a chave para a escrita de Auster: a vida, afinal, é feita de acasos, de coincidências, de factos que, se tivessem acontecido de outra maneira, poderiam ter mudado a vida das pessoas. Parece que, pelos vistos, temos pouco controlo sobre a nossa vida; ela poderia tomar um rumo totalmente diferente se, naquele dia, naquela hora, as coisas se passassem de maneira diferente.

Auster conta, por exemplo, duas história do seu pai que, por duas vezes, viu a sua vida em risco e que se salvou por sorte. E atribui significado a estes acasos.

Todos nós já passámos por isso e sabemos que, se em determinada circunstância, tivéssemos virado í  direita, em vez de voltarmos í  esquerda, a nossa vida poderia ter sido muito diferente do que é.

Mas Auster não atribui a estas coisas um sentido divino. Não é a mão de Deus que intervém. É o acaso, que é, no fundo, o cerne de todos os livros de Auster.

“Timbuktu”, de Paul Auster

timbuktu.jpgDelicioso livro de Paul Auster, publicado em 1999 e que nos conta a história de um cão rafeiro, Mr. Bones e do seu dono, Willy, um sem abrigo, com esquizofrenia.

Willy devia ter sido poeta, mas a doença alterou-lhe os planos e fez com que andasse em bolandas, pela costa leste dos EUA. Para o defender dos frequentes ataques de outros vagabundos, adoptou um rafeiro, a quem chamou Mr. Bones, que passou a ser o seu companheiro, guarda e confessor. E é graças ao cão que vamos lendo o relato da vida de Willy, dos seus sonhos e desencantos. Porque, a este cão, só lhe falta mesmo falar. Se Willy tivesse tido tempo, teria ensinado Mr. Bones a falar, como os humanos – mas não, apenas lhe ensinou a sonhar; a sonhar, por exemplo, com Timbuktu, a terra para onde todos nós vamos, depois de morrer, e onde, muito provavelmente, cães e homens falam a mesma língua.

Escrito quase como um conto de fadas, este livro de Auster foi uma boa companhia, na nossa viagem pelos States.

“Quando é que Jesus traz as costeletas?”, de George Carlin

quandojesus.jpgAo contrário de Jerry Seinfeld, George Carlin é um comediante de stand up pouco, ou nada, conhecido em Portugal.

Muito mais politicamente incorrecto que Seinfeld, muito mais duro na linguagem e nas críticas, Carlin é mal disposto por natureza e parece estar contra tudo e contra todos.

Neste seu livro – cujo título, segundo o autor, é este porque consegue, numa só frase, “consegue ofender cristãos, muçulmanos, judeus e vegetarianos” – Carlin barafusta, sobretudo, contra os eufemismos. Nesta linha, o autor chama a nossa atenção para o facto de, de repente, termos começado a “ver «programas de animação», em vez de desenhos animados. (…) Os «teatros» acharam que estavam a ficar ultrapassados e, por isso, transformaram-se, também eles, em «centros de artes performativas» ou, í s vezes, «espaços performativos» em consonância com algumas «discotecas» que começaram a ser chamadas «espaços de animação nocturna» (as mais alternativas, são só «espaços»).”

A mania da linguagem politicamente correcta pode, segundo Carlin, transformar provérbios populares em coisas imperceptíveis. É o caso do provérbio «em terra de cegos, quem tem um olho, é rei», que se transformará em: «em área de residência de invisuais, aquele que tiver um défice de cinquenta por cento no número tradicional de globos oculares com que o ser humano costuma vir equipado, tem mandado popular para governar».

O livro é um pouco irregular, misturando grandes discursos contra os tais eufemismos, com histórias quase surrealistas sobre tios esquisitos, textos de algum mau gosto, nacos demasiado ligados í  realidade norte-americana para que tenham graça entre nós, e aforismos deliciosos, como este: “muitos homossexuais recusam-se a sair do armário porque gostam mesmo de roupa”.

San Francisco, 19 de Maio

Começámos por caminhar ao longo da Sutter Street, 13 quarteirões, até í  Powell Street. Aí, apanhámos o cable car, que custa a módica quantia de 5 dólares, só uma viagem! É quanto pagas, se quiseres passear no ex libris de San Francisco!

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O cable car sobe a Powell St, depois vira para a Hyde St. E, como tudo o que sobe, tem de descer, o cable car chega ao topo de uma das colinas mais íngremes da cidade, e começa a descer. E é descer a sério! Enquanto o condutor dirige o veículo, nas traseiras, um pretalhão maneja o freio. í€s tantas, o cheiro a madeira queimada dos travões faz-se sentir. No fim das colinas todas, estamos na baía, com a Golden Gate e Alcatraz ao fundo.

Toda esta região, dos antigos molhes de San Francisco, está transformada num grande centro comercial ao ar livre, conhecido como Fisherman’s Wharf. Caminhámos até ao Pier 39, parando para comprar alguns souvenirs e beber um café.

O Pier 39 está cheio de lojas de brique-a-braque, t-shirts, recordações da cidade, a tralha do costume; mas também existem algumas lojas um pouco diferentes, como a que só vende coisas para cães e gatos, incluindo equipamentos de beisebol e fatinhos de ballet.

Ao fundo do Pier 39, Alcatraz vê-se melhor e, í  esquerda, uma espantosa colónia de leões-marinhos que, actualmente, ascende a cerca de 300 exemplares. Quando cá estivemos, há dez anos, não os vimos, supostamente porque, nessa altura do ano, estariam por outras paragens.

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Ficámos por ali um bom bocado, a fotografar os bichos, que não paravam de ladrar.

Regressámos novamente í  Hyde St e ainda estivemos na fila para apanhar o cable car novamente. Mas, entretanto, começou a chuviscar e o vento vindo do oceano era agreste; por isso, desistimos e pusemo-nos a caminho.

Claro que já sabíamos que não ia ser fácil, mas é mesmo complicado subir algumas das mais de 40 colinas de San Francisco!

Chegados í  Lombard Street, chegámos í  rua do mundo com mais curvas. Trata-se de um troço, entre a Lombard e a Leavenworth. É quase uma brincadeira. Em vez de fazerem uma rampa, que seria íngreme demais, ou, simplesmente, desistirem de fazer ali uma rua, resolveram fazer a coisa aos esses e chamam-lhe “the crookiest street“, inventando, assim, mais uma atracção para os turistas, como se esta cidade precisasse disso.

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A malta que vive aqui, deve ter a sua privacidade sempre devassada, com as hordas de turistas que rondam por ali, a tirar fotos, de todos os ângulos.

Continuámos, depois, por ali abaixo, até í  Washington Square (e descer é quase tão difícil como subir). Então, começou a chover com mais intensidade.

Por isso – e porque já tínhamos visto bem esta zona, há 10 anos – percorremos Chinatown em passo apressado.

Chinatown termina em downtown San Francisco. Estávamos cansados e com fome. Vimos um letreiro da Segafredo e entrámos. E não é que nos serviram duas bicas?! E esta?! Em San Francisco, na Powell Street, pode beber-se uma bica como deve ser! Comemos um danish e, na televisão, passava uma entrevista com o Jorge Andrade, integrada numa reportagem sobre a selecção de Portugal! Parecia uma daquelas coincidências de que fala o Paul Auster…

E iniciámos o regresso ao hotel, já com pouca chuva. Devagar, devagarinho, subimos a Powell, virámos para a Bush, fomos andando, fotografando as casas mais bonitas, voltámos í  Pine, regressámos í  Sutter e assim sucessivamente, até ao hotel, 13 quarteirões mais adiante.

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Chegámos estoirados, com 17 km percorridos, mas com uma ideia mais precisa desta cidade.