Archive for the ‘Coisas Ouvidas’ Category

As cantigas do GAC

Friday, June 4th, 2010

Os quatro discos do Grupo de Acção Cultural, de 1976 e 1977, foram agora editados em cd, remasterizados. Comprei os quatro.

Porquê?

Porque posso; porque gosto de ajudar espécies em vias de extinção; porque gosto de recordar o tempo em que tinha 23 anos; porque gosto de me espantar com as coisas que eu era capaz de dizer.

É muito difícil explicar hoje, aos meus filhos, que nós vibrávamos com algumas destas cantigas e éramos capazes de cantar, com convicção, coisas como: “e há tanta gente pra lutar/ p’la democracia popular/ que não há falsos amigos do povo/ que nos impeçam de um dia ganhar” – ou, ainda pior: “soldados e marinheiros suas armas erguerão/ ombro a ombro com o povo/ pra acabar com a exploração/ será a luta final/ em vermelho, em multidão”.

Foram anos, felizmente poucos, de delírio colectivo: fundar uma Democracia Popular num país europeu, membro da Nato! Como foi possível?

Mas que foi divertido, lá isso foi…

Quanto aos discos:

“A Cantiga é uma Arma” é o mais panfletário, cheio de hinos aos operários e camponeses. A influência de José Mário Branco é notória. Embora já se desconfiasse, ficamos agora a saber que é ele o autor das melhores cantigas deste álbum: “A Cantiga é uma Arma” (“contra quem, camaradas? Contra a burguesia!”), “A Luta do Jornal do Comércio” (“Ó Machado, vai-te embora!”), “Alerta” (“Democracia Popular e Ditadura Proletária, pois claro!”), “Ronda do Soldadinho”, entre outras.

São 17 faixas cheias de palavras de ordem e as músicas têm, muitas delas, estrutura de marcha. A faixa nº9 chama-se “Hino da Reconstrução do Partido” e alguns dos elementos do GAC estiveram envolvidos na fundação do PCP (R) e apoiavam abertamente a UDP. Aliás, durante algum tempo, a cantiga “Alerta” foi o hino da UDP.

Esta colagem de elementos do GAC aos partidos à esquerda do PCP, fez com que outros elementos, como Fausto, se afastassem do grupo.

Embora editado em 1976, o primeiro álbum do GAC resultava da junção dos vários singles saídos em 1975. “Pois canté!!” é outra história. Editado em 1976, o 2º álbum do GAC é um salto qualitativo enorme, em relação ao anterior. A noção de “cantiga ao serviço do povo” é enriquecida com a cultura musical dos vários elementos do GAC (instrumentistas, maestr5os, críticos de música, compositores, cantores, etc).

“Pois Canté!!” tem algumas cantigas que continuam a ser muito audíveis, apesar das letras “revolucionárias”. É o caso do tema que dá o nome ao álbum, da autoria do José Mário Branco. A estrutura da canção é muito trabalhada por instrumentos de sopro (fagotes e flautas) e a voz do compositor impõe-se: “enquanto anda lá no céu a cotovia/ ando a trabalhar o pão de cada dia/ para encher a pança a essa burguesia/ sempre a trabalhar/ pro patrão gozar/ isto inté qu’há-de mudar um dia/ Pois canté!”

Outras grandes cantigas (todas de José Mário Branco): “Cantiga sem maneiras”, “Cantiga do trabalho” e “Coro dos trabalhadores emigrados”.

Mas quase todos os temas de “Pois Canté!!” são música popular, folk, se quiserem, de qualidade, apesar das letras datadas (“lado a lado com o teu homem/as mesmas horas do dia/O patrão aos dois explora/Inda mais a ti Maria”).

Depois do êxito de “Pois Canté!!”, o GAC começou a enfrentar os problemas do PREC (processo revolucionário em curso): divergências internas, dúvidas quanto ao rumo a seguir. “…E Vira Bom” é o 3º álbum. A estrutura do álbum difere muito do anterior, alternando um cantiga de raiz popular, adaptada pelo GAC, com um instrumental tradicional. José Mário Branco é autor, apenas, de um tema, o “Hino da Confederação”.

Não se pode dizer que tenha esmorecido o fervor revolucionário, mas nota-se que as coisas já mudaram porque as letras estão mais “suavizadas”, embora ainda se digam coisas como “dia a dia a vida é um tormento/ e ao ricaço anda a gente/ a dar a dar sustento/ vida santa/ a vida do madraço/ que o trabalho é cá pra gente/a dar a dar/ cansaço”.

Também em 1977 saiu “…Ronda da Alegria”, o 4º e último álbum do GAC. Neste álbum, não consta nenhuma colaboração de José Mário Branco nem de Tino Flores (outro elemento muito activo do GAC, em 1975 e 1976). Aliás, se não me engano, os únicos nomes que se mantêm na ficha técnica dos quatro álbuns, são os de Eduardo Paes Mamede e de Luis Pedro Faro.

“…Ronda de Alegria” é mais do mesmo. Temas de raiz popular, com letras “revolucionárias” e arranjos “populares” – muita percussão, muitos bombos e tarolas, muitas gaitas de foles, Trás-os-Montes e Alentejo, operários e camponeses, menos soldados e marinheiros do que em 1975 porque, entretanto, tinha acontecido o 25 de Novembro de 75 e parecia claro que nem todos os soldados e marinheiros eram revolucionários…

E o GAC dissolveu-se pelas mesmas razões que se dissolvem as empresas capitalistas: falta de cacau, massa, carcanhol, papel, pasta, narta!

Mas lá que foi divertido, foi e nós, quando nos reunimos em família, não resistimos a cantar, em coro: “na herdade do Vale Fanado/ terra rica em trigo e gado/ freguesia de Albernoa…”

“High Violet”, The National

Monday, May 17th, 2010

Nunca tinha ouvido falar desta banda de Cincinatti, Ohio, sediada em Brooklyn mas, perante tantos encómios, encontrados em diversas publicações, arrisquei-me a comprar o CD (como diz o meu filho, eu sou a única pessoa que ele conhece que ainda compra discos…).

Arrisquei e petisquei, porque The National é uma banda e pêras.

Liderada por um tal Matt Berninger, com voz de barítono e responsável pela maioria das músicas e das letras, a banda tem ainda dois pares de irmãos: Scott (guitarra) e Bryan (percussão) Devendorf, e Aaron (baixo) e (guitarra) Dessner.

Activos desde 1999, The National vão no seu 5º disco e, segundo os entendidos, com “High Violet” deixaram de ser apenas uma banda apreciada por críticos, para passarem a uma banda que pode ser aplaudida por públicos mais vastos.

Duvido, porque os temas não são fáceis, o tom é depressivo q.b., o vocalista nunca levanta a voz e o ambiente tende sempre para a tristeza e a introspecção e será difícil extrair do disco um single para passar nas rádios (talvez “Conversation 16″).

Não há dúvida que The National são uma banda “indie”; tão “indie” que até os primeiros acordes de “Runaway” são iguais aos acordes base de “Vejam Bem”, do Zeca Afonso…

Mas gostei do disco. Os músicos são competentes, os arranjos são sóbrios e eficazes e o conjunto de temas é coerente. Recomendo.

“Scratch My Back”, de Peter Gabriel

Saturday, March 6th, 2010

Toma lá com um grande disco!

Nunca fui um grande fã de Peter Gabriel – nem quando o tipo era o líder dos Genesis, nem depois, na sua carreira a solo.

Enfim, apreciava a sua voz característica, a sua vontade em credibilizar o rock como música a merecer respeito, esforçando-se por lhe dar um “ar” de erudição, através dos Genesis, ou de cometimento político, com a carreira a solo.

De qualquer modo, Gabriel parece não estar nisto só pelo dinheiro…

Este disco é surpreendente e aplaudo com ambas as mãos.

Gabriel junta-se a uma London Scratcher Orchestra, liderada por uma tal Louisa Fuller e conduzida por um tipo chamado Ben Foster e reinventa, de modo irrepreensível, “Heroes”, de David Bowie, “The Boy in the Bubble”, de Paul Simon, “Listening Wind”, dos Talking Heads (uma das melhores), “The Power of the Heart”, de Lou Reed, “Philadelphia”, de Neil Young, “Street Spirit (Fade Out)”, dos Radiohead, “Waterloo Sunset”, dos Kinks.

E, ainda, adaptações de coisas que eu não conhecia e que não me apetece conhecer porque, assim estão muito bem: “Flume”, de Bon Iver, “Mirrorball”, de Elbow, “I Think It’s Going To Rain Today”, de Randy Newman e, as três melhores: “My Body Is Cage”, dos Arcade Fire, “The Book Of Love”, dos Magnetic Fields, e “Aprés Moi”, de Regina Spector.

Gabriel pode ter descoberto uma mina: a pop-rock tem centenas (milhares?) de músicas que podem e devem ser recriadas por quem tem a paciência, o tempo e a sabedoria para lhes conferir o classicismo que elas merecem.

“I´m New Here”, de Gil Scott-Heron

Saturday, February 27th, 2010

Confesso que nunca tinha ouvido falar deste tipo – o que não é de espantar, já que ele próprio decidiu intitular este seu novo disco, desta maneira.

Gil Scott-Heron não é propriamente novo, nem aqui, nem em qualquer lado. Com 60 anos, tem já uma carreira longa, embora não com muitos discos. Há 16 anos que não editava qualquer disco.

Segundo dizem, Scott-Heron é um dos precursores do rap, embora, nos anos 90, tenha criticado os rapers, pela influência negativa que tiveram sobre a juventude. De facto, ele começou por publicar poesia e só depois ligou a música à poesia.

Este “I’m New Here” tem alguma coisa de rap, embora seja mais declamação com música de fundo, alguma coisa de r&b e hip-hop. Embora não seja propriamente a minha cena, gostei de ouvir “Me and The Devil”, “Your Soul and Mine” ou “New York Is Killing Me”.

Confesso, também, que só à terceira audição, consegui entrar no espírito do disco e acabei por ficar com pena que só tenha 28 minutos.

Três Cantos – José Mário Branco, Sérgio Godinho e Fausto

Sunday, January 3rd, 2010

3cantosNo dia 26 de Novembro de 1971, tinha eu 18 anos, estive sentado na plateia do antigo cinema Roma e, com o coração exaltado, assisti à emissão, ao vivo, do Programa Página Um, da Rádio Renascença.

Nessa emissão, foi feita a apresentação pública do primeiro disco de José Mário Branco, “Mudam-se os Tempos…”. O Página Um era um programa “revolucionário”, de José Manuel Nunes, onde passava música que mais nenhuma rádio transmitia. A apresentação do disco, sem a presença do seu autor, exilado em França, foi feita pelo jornalista Adelino Gomes que, mais tarde haveria de ser meu colega na redacção do Telejornal da RTP.

A música do José Mário Branco era diferente de tudo o que tinha ouvido antes, em português, entenda-se: os arranjos eram notáveis, as melodias complexas e simples, simultaneamente, as letras empenhadas politicamente. José Mário Branco tinha conseguido fazer algo de novo: um produto musical sofisticado e, ao mesmo tempo, revolucionário, no sentido político do termo.

Como em muitas outras coisas, a “luta” contra a ditadura unia pessoas com diferentes estilos e opções de vida. O 25 de Abril afastou-as. Nos primeiros anos, ainda me exaltei com algumas das músicas do José Mário Branco, compostas para o colectivo GAC, com o “Ser Solidário”, como o “FMI”, mas, a pouco e pouco, afastei-me.

No entanto, ontem, ao assistir, em dvd, ao concerto do Campo Pequeno, não pude deeixar de passar por muitos momentos de emoção, com um nó na garganta, sobretudo quando tentei acompanhar canções como “Mariazinha”, “Confederação” ou “Inquietação”.

No que respeita ao Sérgio Godinho, sempre acompanhei a sua carreira e sempre pensei que ele tem uma enorme capacidade para meter o Rossio na Betesga e acho que tem músicas notáveis, que vão ficar na história da música popular portuguesa, incluindo, mesmo, aquela do “tractor, trabalha a todo vapor”…

Também me emocionei, ontem, com “Maré Alta” e “Primeiro Dia”.

No que respeita a Fausto, a coisa é um pouco diferente. Nos anos 70, na sala de alunos da Faculdade de Medicina de Lisboa, assisti a um espectáculo em que ele cantou, mas em que a estrela foi, sem dúvida, Ary dos Santos, que pôs aquela malta toda de pé a berrar “S.A.R.L! S.A.R.L.”

Para além de “Por este Rio Acima”, que é um grande disco, pouco conheço da carreira de Fausto.

O espectáculo captado no Campo Pequeno, para além da surpresa de juntar estes três figurões da música popular “revolucionária”, não tem mais nenhuma surpresa: os arranjos orquestrais e vocais são competentes, mas expectáveis, as versões das canções são o mais possível parecidas com os originais e o inédito é mais do mesmo.

No fundo, era isto que as pessoas queriam: o Zé Mário, o Sérgio e o Fausto o mais parecidos possível com o tempo em que tínhamos 18 anos!…

“Quiet Is The New Loud”, dos Kings of Convenience

Sunday, December 6th, 2009

kings_quietQuando estes dois rapazinhos nasceram, em 1975, já Simon e Garfunkel estavam separados há muitos tempo. No entanto, foi a eles que Erlend ⱷye e Eirik Glambek Bⱷe foram buscar o estilo calmo e tranquilo, as guitarras dedilhadas e os restantes instrumentos acústicos, as melodias e as harmonias vocais.

Claro que as diferenças são maiores que as semelhanças – detecto, por exemplo, um ritmo tipo-bossa nova, que Simon & Garfunkel nunca usariam, mas enfim…

Já tinha ouvido falar destes Kings Of Convenience há uns tempos, mas ainda não conhecia nada deles. Agora, que saiu um novo álbum, decidi conhecer o primeiro, editado em 2001.

Confesso que gostei do que ouvi, embora não me entusiasme por aí além.

“Glitter and Doom Live”, de Tom Waits

Saturday, December 5th, 2009

waits_glitterQue pena, que raiva, que frustração não ter tido a iniciativa de programar a minha vida de modo a poder ir ver Tom Waits, por exemplo, a Milão!

Este disco é uma prova pálida do espectáculo formidável que deve ter sido esta tourné.

Waits reinterpreta, de forma irrepreensível, alguns dos seus temas mais recentes e eu fico rendido. Não precisa de cantar temas pré-Swordfishtrombones, não precisa de rebuscar nos baús da memória para ir buscar grandes êxitos de há décadas, como têm que fazer os Stones, ou McCartney, por exemplo. Waits tem evoluído, ao longo destas décadas, criando um estilo único, em que mistura valsas, polkas, tangos, blues, trash, hard, pop, histórias malucas, country, instrumentos desafinados e inventados.

E aquela voz rouca, funda, quase sinistra, faz o resto.

Prometo-me que, se o gajo fizer uma nova série de shows ao vivo, estarei atento e irei, nem que seja a Kuala Lumpur.

Sobretudo, se for em Kuala Lumpur!…

“A Mãe”, de Rodrigo Leão

Sunday, June 28th, 2009

maeDisco triste, depressivo, para ouvir apenas quando se está equilibrado psicologicamente.

Um tipo que esteja em baixo, ao ouvir, por exemplo, Ana Vieira a cantar o tema “Vida tão estranha” e a lamentar-se “já nem chorar me dá consolo”, é muito capaz de deixar o cd a rolar e atirar-se do sexto andar.

No panorama da música popular portuguesa, Rodrigo Leão é único, quer pelo tipo de música que faz, quer pela seriedade da produção, quer pela busca dos colaboradores, neste caso, o Cinema Ensemble, a Sinfonietta de Lisboa e mais.

Além disso, e como não sabe cantar, pede a ajuda de quem sabe e, neste disco, tem a voz de Ana Vieira, de Stuart Staples (dos Thindersticks), de Neil Hannon (dos Divine Comedy) e de Daniel Melingo.

Destaco as faixas “Vida tão Estranha”, “Ya Skaju Tebe”, “A Corda”, “Canciones Negras” e “No sè nada”, mas todo o disco, dedicado à mãe do compositor, recentemente falecida, merece ser escutado com atenção.

“Beat”, dos King Crimson

Thursday, January 8th, 2009

Em 1982, os King Crimson eram, para além do eterno Robert Fripp (guitarra, órgão e frippertronics), Adrian Belew (guitarra e voz), Tony Levin (baixo e voz) e Bill Bruford (percussão).

São apenas 8 temas e o último é uma seca de guitarra, chamado “Requiem” e que é daqueles temas que algumas bandas, do rock dito “progressivo”, gostavam de gravar, para encher o vinil (deve haver por ai algum fã que ainda me bate!…)

De resto, este álbum vem na esteira do anterior “Discipline” (1981) e é muito semelhante mas, na minha opinião, perde.

“Canção ao lado”, dos Deolinda

Monday, December 29th, 2008

Agradavelmente surpreendido.

Gosto dos Deolinda porque: a) misturam fado com marchinhas populares, valsinhas com samba e tudo com tudo; b) têm um som diferente, fruto da combinação de duas guitarras acústicas (Pedro Silva Martins e Luis José Martins) e um contrabaixo (Zé Pedro Leitão); c) a voz da Ana Bacalhau tem um timbre agradável e alegre; d) as letras das canções são bem esgalhadas, fazendo lembrar o Sérgio Godinho, quando estava em forma.

São muitos pontos a favor dos Deolinda.

Gosto, sobretudo, do “Fado Toninho”, quando ela canta “se não me seguram/ dou-lhe forte  efeio/ beijinhos na boca/ arrepios no peito”.

“Movimento Perpétuo Associativo” é quase um Hino Nacional: “Agora sim, temos a força toda/ agora sim, há fé neste querer/ agora sim, só vejo gente boa/ vamos em frente e havemos de vencer/ agora não, que me dói a barriga/ agora não, dizem que vai chover/ agora não que joga o Benfica/ E eu tenho mais que fazer”.

Gosto menos das “baladas” e das canções mais “sérias”.

Não se perde tempo ao ouvir os Deolinda.