Archive for the ‘Histórias pouco clínicas’ Category

Dos agnóides à silvastatina

Friday, September 3rd, 2010

Quase todos os dias oiço algo do género, mas já nem ligo.

Por vezes, tomo nota e quando já tenho um número razoável de exemplos, vale a pena escrever um pequeno texto.

Porque não é todos os dias que nos pedem para fazermos um raio xis aos agnóides (1) porque a criança ressona muito. Será que ele sofre de apeneira do sono (2)? Pior seria se tivesse o azar de ter nascido com um lábio de Turim (3). Agora, quanto a infecções virais, todos os miúdos estão sujeitos a uma ou outra, mas pouco terão uma menocleose (4).

No que respeita a nomes de medicamentos, estamos conversados. São difíceis. E agora, que os genéricos estão na moda, ainda é pior. Fácil é dizer que se toma, por exemplo, Renidur; mais complicado articular maleato de enalapril com hidroclorotiazida, que é o genérico do dito.

É por isso que o medicamento para o colesterol mais usado, que é a sinvastatina, pode ser chamado de substantiva ou de silvastatina (que deve servir para tratar apenas os silvas; os lopes deverão tomar, certamente, a lopestatina).

Depois, de 6 em 6 meses, fazem-se anális ao constrol (5).

Se ele baixar, pode ser que se melhore desta picardia, também conhecida como ritmia espaçosa (6).

(1) adenóides
(2) apneia do sono
(3) lábio leporino
(4) mononucleose
(5) análises ao colesterol
(6) arritmia

Gente que eu conheci

Sunday, July 11th, 2010

Em mais de 30 anos de carreira, já conheci milhares de pessoas.

Todas têm uma história para contar.

Algumas delas passam a estar aqui, a partir de hoje.

Injecção mágica

Sunday, July 12th, 2009

Entrou no gabinete exalando um intenso cheiro a álcool, apesar de pouco passar das 9 da manhã.

Sentou-se e sorriu, mostrando um magnífico conjunto de dentes partidos .

“Estou cheio de comichão!” – exclamou, coçando os braços escanzelados.

“Que raio será isto?” – perguntou, apontando para as pequenas lesões eritematosas de ambos os braços e para as extensas lesões de coceira.

Sem deixar que eu respondesse, acrescentou:

“Infecção não deve ser! Quando estive na tropa, levei aquela injecção contra a malásia!”

Eu já tinha ouvido atribuir a essa mítica injecção administrada na tropa, toda a espécie de vícios e virtudes – mas foi a primeira vez que ouvi alguém dizer que ela também prevenia contra a infecção por um país asiático…

Falta de apetite

Friday, June 5th, 2009

Naquele dia, ele ia à consulta, mostrar-me as análises que lhe tinha pedido. E ela ia com ele. Como sempre.

Também como sempre, ela fala, ele não abre a boca.

“Como estão as nossas análises?” – pergunta ela, apropriando-se das análises do marido.

Há mulheres que se apropriam dos seus homens.

“O meu marido rompe-me as meias todas!” – dizem, referindo-se às meias do homem, não às delas.

Percebe-se: eles rompem as meias e elas é que têm que as coser.

Esta mulher era dessas.

E como haviam de estar as análises: a função hepática, uma desgraça. A Gama GT, acima dos 500.

Uma lástima.

“Pois é!” – exclama ela – “E depois, este homem não me come!”

Já ouvi muita coisa, mas uma mulher queixando-se, abertamente, com esta linguagem, da disfunção eréctil do marido, era novidade.

“Não a come?…” – perguntei, hesitante.

“Sim, doutor. Nem vale a pena fazer comida, que ele não me come!”

Fiquei mais descansado.

E, com 500 de Gama GT, devido às duas grades de minis diárias, era natural que ele não comesse nada.

Em todos os sentidos…

Incompatibilidades

Saturday, September 22nd, 2007

Tinha um hordéolo, vulgo, treçolho.

Mediquei-o com as gotas e a pomada habituais.

Sorriu e exibiu um teclado frontal só com teclas pretas e quase todas partidas. Perguntou:

- Posso beber vinho com estes medicamentos?

- Desde que não exagere… – respondi.

Viu-se que ficou contente. Levantou-se para se ir embora mas, antes, não quis deixar de fazer mais uma pergunta:

- E posso fumar cigarros para rir?

Fiz de conta que meditava um pouco e respondi:

- Isso, eu não aconselho… com esses dentes, o melhor é você manter-se sério…

Letra de doente

Thursday, May 10th, 2007

A famosa letra de médico está a transformar-se em letra morta.

Com o advento dos programas informáticos de saúde, as receitas são passadas no computador e toda a gente percebe a letra do médico que, no fundo, já não é dele – é um “times new roman” qualquer.

A dificuldade, agora, reside em os médicos perceberem a letra dos doentes. Sobretudo, quando recebem papelinhos como este:

odescopia.jpg

“Sr. Doutora pedia o fabor de me passar uma crendencial Odescopia alta com biopecia.”

Um odescopia, o que será? Ainda por cima, alta. E uma biopecia?

Será que odescopia será um exame à poesia, em forma de odes?

Seria uma ideia interessante: introduzir um endoscópio numa ode qualquer de um qualquer poeta.

Mas não é.

O doente queria escrever algo de muito menos romântico, porém, bem mais incómodo: “endoscopia alta, com biópsia”.

Enfim… letra de doente…

Morte por sistema de travagem

Saturday, February 24th, 2007

A D. Virgínia morreu de repente. Era obesa, diabética, hipertensa e tinha dislipidemia mista. Um típico síndroma plurimetabólico, como agora lhe chamam. O risco de morte súbita era elevado.

A D. Virgínia confirmou as estatísticas.

O marido veio à consulta dois meses depois.

Motorista reformado, o Dr. Rudolfo é homem e poucas falas.

«Não sofreu muito, a sua senhora… foi de repente» – disse eu, depois de lhe apresentar os meus sentimentos.

«Pois foi» – confirmou o Sr. Rudolfo – «Deu-lhe um ABS…»

Eu já nem me espanto, mas tento corrigir:

«Pois… teve uma trombose…»

«Não, não!» – interpõe o Sr. Rudolfo – « Foi mesmo um ABS!»

Para o Sr. Rudolfo, motorista reformado, ABS e AVC não passam de sistemas de travagem rápida – do carro, ou da vida…

Embacuar!

Friday, January 12th, 2007

Recado escrito por um doente à sua médica de família:

embacuar.jpg

“pedia o fabor se passava estes medicamentos em nome de meu marido. e para ver se lhe passava um cardencial para fazer restreio aos intestinos porque ele anda com muita deficuldade embacuar, ele diz que vai a casa de vanho mas que só faz muito pouchinho e outras vezes vai a casa de banho mas não faz nada.”

O gesto é tudo

Tuesday, August 1st, 2006

Chamei o doente seguinte. Era um cidadão da China e vinha acompanhado por um cidadão do Bangla Desh.

A ideia era a seguinte: o cidadão da China queixava-se em inglês e o cidadão do Bangla Desh traduzia para português; eu observaria o cidadão da China e, depois, faria a minha prescrição, em português; seguidamente, o cidadão do Bangla Desh traduziria para inglês, de modo a que o cidadão da China percebesse.

Acontece, no entanto, que o inglês do cidadão da China era tão mau que o cidadão do Bangla Desh tinha muita dificuldade em percebê-lo.

Acresce que o português do cidadão do Bangla Desh era, também, tão mau, que eu não entendia nada do que ele me dizia.

Ficámo-nos pelos gestos.

O doente chinês apontou para a garganta e fez um esgar internacional de dor. Com uma espátula, vi-lhe a garganta e fiz uma careta internacional para “isto está feio”.

Enquanto isto, o cidadão do Bangla Desh sorria-se, também internacionalmente.

Depois, foi só passar a receita e explicar como se toma o antibiótico, com o gesto internacional para “de 12 em 12 horas”.

Palavras para quê?…

Andar aos figos

Sunday, June 25th, 2006

E, no meio da consulta, toca o telemóvel.

Já nem protesto.

“Sim, sou eu…” – diz o doente – “Vendo a 2 euros por quilo, mas você pode vender ao preço que quiser… 3 ou 4 euros… Quer quatro caixas?… Está bem, eu levo-as amanhã.”

Desliga o telemóvel e confidencia-me:

“Ando aos figos… as figueiras estão abandonadas e eu vou lá e apanho-os!… faço 100 a 200 euros por dia em figos… O doutor não quer uma caixinha?…”

Cem a duzentos euros por dia?

Que andei eu a fazer na Faculdade, com tantos figos para apanhar?!