Archive for the ‘Histórias pouco clínicas’ Category

O que eles me dizem…

Thursday, September 20th, 2012

Nunca posso dizer que já ouvi tudo porque eles continuam a surpreender-me.

E não falo dos que não querem “genéticos” porque acham que os “genéticos” não fazem nada.

Nem falo daquela velhota que me assegurou ter feito uma “miópse” à tiróide.

Ou da outra, muito chorosa, porque tem um irmão com “alzaima”.

Falo daquela senhora com cerca de 75 anos, que se queixa de perturbações de memória. Assegurou-me hoje que ficou muito pior da cabeça desde que aconteceu aquele “suname”.

Está bem, aceito “genéticos” em vez de genéricos, “miópse” em vez de biópsia e “alzaima” em vez de Alzheimer – mas “suname”?!

Em vão tentei perceber o significado do termo, sem perguntar directamente à senhora, para não a melindrar.

Mas ela percebeu pela minha cara que eu estava a leste.

E insistiu: “aquele suname que aconteceu lá no estrangeiro, e que matou aquela gente toda”!

Claro! Afinal, quem mandou por nomes estrangeiros aos maremotos?!

Mata burros

Thursday, January 5th, 2012

Pequeno almoço de um doente meu, diabético, a que ele chama “mata burros”: leite e café a ferver, miolo de pão, uma colher de sopa de manteiga e frango desfiado.

Valor da respectivo glicémia, hoje: 416.

Estás feito, Euclides!

O que é bom para a tosse

Thursday, October 20th, 2011

O Sr. Armindo andava com uma tosse que o tirava do sério.

Dizia ele que a malvada era tão intensa que quase lhe apetecia dar um tiro na cabeça.

Não conseguia dormir, urinava-se todo, evitava andar de transportes públicos para não assustar os companheiros de viagem, fugia de salas de espera e até ao pé da mulher e da filha se sentia incomodado por estar sempre a tossir.

Pensei que podia ser efeito secundário do inibidor do enzima de conversão, que muitas vezes provoca tosse e mudei-lhe para outro anti-hipertensor.

Sem resultado.

Claro que não valia a pena experimentar anti-tússicos e anti-histamínicos. Isso já o Sr. Armindo tinha tentado, também sem resultado.

Pensei depois em refluxo gastro-esofágico que, em algumas situações provoca tosse e prescrevi-lhe um inibidor da bomba de protões.

Sem resultado.

Desisti.

Ontem, o Sr. Rodrigues voltou à consulta.

Sem tosse.

E informou-me que tinha resolvido o problema com uma receita caseira. Um chá.

Exigi que me fornecesse a receita milagrosa.

Palavras dele: «250 gramas de açúcar mascavado, uma cerveja preta, das pequenas, uma laranja e três folhas de ôcalitro».

Bastaram duas colheres desse chá ao deitar, durante cinco dias, e a tosse desapareceu.

O segredo, claro, está no ôcalitro…

No poupar é que está o ganho

Tuesday, November 16th, 2010

Estava muito melhor das costas. Sem dúvida.

Nunca mais tinha tido dores, como aquelas que a deixavam de rastos.

E todas as melhoras se deviam à enxada.

Desde que ficara viúva que passara ela a tomar conta da horta. Era ela que cavava e plantava as batatas e o feijão verde e as alfaces.

Não há melhor exercício do que cavar, anunciava, toda fresca, apesar dos quase 80 anos.

Mas arrancar ervas é que era mais complicado. Ali, agachada, horas seguidas…

Decidiu contratar um homem, que lhe pediu 50 euros e, que depois de algum choradinho, baixou para 40.

O homem foi no dia seguinte e ela aproveitou para fazer umas compras.

Quando regressou a casa, estava o homem sentado à sombra da figueira. Que estava cansado, disse. E que tinha fome, acrescentou.

Ela preparou-lhe uma sandes com ovo mexido e outra com presunto e queijo, que o homem empurrou com a ajuda de uma mini que estava perdida lá no frigorífico.

Quando acabou de comer, o homem continuava cansado. Disse que voltava no dia seguinte para acabar o trabalho, mas que ela lhe tinha que pagar mais 20 euros.

Quer dizer: os 50, que baixou para os 40, passavam agora a ser 60!

Não, muito obrigado – arranco eu o resto das ervas, exclamou ela.

E arrancou, toda curvada e sem sinal de dores nas costas!

Depois, juntou as ervas todas num monte e pegou-lhes fogo.

Veio a autoridade e multou-a: 120 euros por estar a fazer uma queimada não autorizada!

Afinal, dos 40 euros que pensava gastar, acabou por desembolsar 160!

Agora, assim que aparece uma erva, arranca-a logo pela raiz!

O exercício só faz é bem…

in http://gente-que-eu-conheci.blogs.sapo.pt/

Onde está o bacalhau?

Monday, November 15th, 2010

Andava muito preocupada com a falta de memória.

Queria uns comprimidos para a cabeça.

Ainda agora, está a ver, doutor? Vinha para lhe mostrar as análises e deixei-as na mesa do café onde estive a tomar o pequeno-almoço!

Isso acontece a qualquer pessoa, digo eu.

Pois, mas comigo as coisas têm vindo a piorar…

No outro dia, convidei uma amiga minha para almoçar e perguntei-lhe se ela gostava de bacalhau com grão.

Disse-me que sim e ficou combinado.

E almoçámos bem.

E só quando estava a lavar os pratos é que percebi que eles não tinham aquela goma própria do bacalhau: tínhamos almoçado só grão com batatas e feijão verde. Não cheguei a tirar o bacalhau do congelador!

E a sua amiga não disse nada?

Não – ela ainda está pior do que eu!…

in http://gente-que-eu-conheci.blogs.sapo.pt/

Dos agnóides à silvastatina

Friday, September 3rd, 2010

Quase todos os dias oiço algo do género, mas já nem ligo.

Por vezes, tomo nota e quando já tenho um número razoável de exemplos, vale a pena escrever um pequeno texto.

Porque não é todos os dias que nos pedem para fazermos um raio xis aos agnóides (1) porque a criança ressona muito. Será que ele sofre de apeneira do sono (2)? Pior seria se tivesse o azar de ter nascido com um lábio de Turim (3). Agora, quanto a infecções virais, todos os miúdos estão sujeitos a uma ou outra, mas pouco terão uma menocleose (4).

No que respeita a nomes de medicamentos, estamos conversados. São difíceis. E agora, que os genéricos estão na moda, ainda é pior. Fácil é dizer que se toma, por exemplo, Renidur; mais complicado articular maleato de enalapril com hidroclorotiazida, que é o genérico do dito.

É por isso que o medicamento para o colesterol mais usado, que é a sinvastatina, pode ser chamado de substantiva ou de silvastatina (que deve servir para tratar apenas os silvas; os lopes deverão tomar, certamente, a lopestatina).

Depois, de 6 em 6 meses, fazem-se anális ao constrol (5).

Se ele baixar, pode ser que se melhore desta picardia, também conhecida como ritmia espaçosa (6).

(1) adenóides
(2) apneia do sono
(3) lábio leporino
(4) mononucleose
(5) análises ao colesterol
(6) arritmia

Gente que eu conheci

Sunday, July 11th, 2010

Em mais de 30 anos de carreira, já conheci milhares de pessoas.

Todas têm uma história para contar.

Algumas delas passam a estar aqui, a partir de hoje.

Injecção mágica

Sunday, July 12th, 2009

Entrou no gabinete exalando um intenso cheiro a álcool, apesar de pouco passar das 9 da manhã.

Sentou-se e sorriu, mostrando um magnífico conjunto de dentes partidos .

“Estou cheio de comichão!” – exclamou, coçando os braços escanzelados.

“Que raio será isto?” – perguntou, apontando para as pequenas lesões eritematosas de ambos os braços e para as extensas lesões de coceira.

Sem deixar que eu respondesse, acrescentou:

“Infecção não deve ser! Quando estive na tropa, levei aquela injecção contra a malásia!”

Eu já tinha ouvido atribuir a essa mítica injecção administrada na tropa, toda a espécie de vícios e virtudes – mas foi a primeira vez que ouvi alguém dizer que ela também prevenia contra a infecção por um país asiático…

Falta de apetite

Friday, June 5th, 2009

Naquele dia, ele ia à consulta, mostrar-me as análises que lhe tinha pedido. E ela ia com ele. Como sempre.

Também como sempre, ela fala, ele não abre a boca.

“Como estão as nossas análises?” – pergunta ela, apropriando-se das análises do marido.

Há mulheres que se apropriam dos seus homens.

“O meu marido rompe-me as meias todas!” – dizem, referindo-se às meias do homem, não às delas.

Percebe-se: eles rompem as meias e elas é que têm que as coser.

Esta mulher era dessas.

E como haviam de estar as análises: a função hepática, uma desgraça. A Gama GT, acima dos 500.

Uma lástima.

“Pois é!” – exclama ela – “E depois, este homem não me come!”

Já ouvi muita coisa, mas uma mulher queixando-se, abertamente, com esta linguagem, da disfunção eréctil do marido, era novidade.

“Não a come?…” – perguntei, hesitante.

“Sim, doutor. Nem vale a pena fazer comida, que ele não me come!”

Fiquei mais descansado.

E, com 500 de Gama GT, devido às duas grades de minis diárias, era natural que ele não comesse nada.

Em todos os sentidos…

Incompatibilidades

Saturday, September 22nd, 2007

Tinha um hordéolo, vulgo, treçolho.

Mediquei-o com as gotas e a pomada habituais.

Sorriu e exibiu um teclado frontal só com teclas pretas e quase todas partidas. Perguntou:

– Posso beber vinho com estes medicamentos?

– Desde que não exagere… – respondi.

Viu-se que ficou contente. Levantou-se para se ir embora mas, antes, não quis deixar de fazer mais uma pergunta:

– E posso fumar cigarros para rir?

Fiz de conta que meditava um pouco e respondi:

– Isso, eu não aconselho… com esses dentes, o melhor é você manter-se sério…